Os últimos dias revelaram conversas desde a mais profunda intimidade do balneário. Mourinho e Sérgio Ramos, treinador e jogador. O jogo seguinte, no vulcão do Nou Camp, terminou, após exibição épica, com novo desaire e Sergio Ramos expulso. Antes de sair, porém, Mourinho abraçou-o na berma do relvado e, durante longos segundos, falou-lhe ao ouvido palavras que ninguém ouviu ou conseguiu entender pelo ar impassível de Sérgio Ramos. Percebeu-se que havia comunhão.
O título desta crónica vem dum sublime filme de Sofia Copolla que termina também de forma imperceptível quando o protagonista Bill Murray se despede, em Tóquio, de um amor impossível, Scarlett Johansson, abraçando-a e sussurrando-lhe palavras ao ouvido. Tudo o que diz é, por mais esforço que se faça, imperceptível para o espectador. Fica ao imaginário de cada um. Depois, ele parte e ela, imóvel, fica com olhar triste mas de paz interior. Percebeu-se que havia comunhão.
Lost in Translation é uma expressão americana que explica como algumas palavras ou frases perdem significado quando traduzidas para outra língua. O filme, e a cena final entre a multidão das ruas de Tóquio, trata disso. O momento Lost in Translation de Mourinho com Sérgio Ramos, por entre a multidão do Nou Camp, também.
A vida de Mourinho em Madrid tem-se perdido muito na tradução da sua essência com tudo o que o rodeia. Fazer de um clube que é um símbolo de poder, um clube símbolo de rebeldia, choca com a história. A supra-dimensão de um treinador num clube que sempre foi um clube de jogadores (o Real de Di Stefano, Juanito, da Quinta del Buitre, de Butragueno, Figo, Zidane) em contraste com o Barcelona que apesar de ter grandes estrelas foi sempre mais um clube de treinadores (o Barça de Herrera, Michels, Menotti, Cruyff, Van Gaal, Guardiola) choca com o ADN iconoclasta do Real Madrid. Mas, nada disto é incomum para Mourinho. Porque uma coisa é ele, outra é o resto do Mundo.
O Real, quando liberto do fantasma das camisolas que parecem ficar todas grandes a Messi, sente-se maior, sem necessidade de ultimas palavras secretas. Ganhar a Liga sem ganhar ao Barcelona é a forma ideal de traduzir o que ficará para a eternidade: o Real de Mourinho ganhou a Liga 2011/12, o Barcelona de Guardiola ganhou um lugar na história. Nem podia ser de outra maneira. Porque Guardiola treina uma ideia (a cultura-Barcelona que, há décadas, vem desde as bases). Mourinho treina uma estratégia (a sua, pensada jogo a jogo, para ganhar o presente). Neste contexto, cada jogo, cada palavra ou gesto, fica perdido quando traduzido para outra realidade, outro tempo, outro lugar. Porque, para Mourinho, o futuro é um lugar estranho. Não mora lá ninguém. As palavras sussurradas a Sergio Ramos são a melhor imagem-metáfora de explicar esse seu mundo particular onde mais ninguém entra.
*O titulo do artigo está em inglês porque a tradução portuguesa do nome do filme altera o seu sentido