LUXEMBURGO: A missão impossível de Simonsen

14 de Novembro de 2004
Há 32 anos que não ganha um jogo para o Mundial, desde 1972, e há nove que não evita a derrota em encontros internacionais oficiais. É este o retracto do pobre futebol luxemburguês (155ºclassificado do Ranking FIFA) historicamente das mais débeis selecções europeias. Apesar de ter agora no banco um antiga estrela dinamarquesa, Simonsen, continua sem dar o mais ténue sinal de crescimento competitivo e, para agravar, chega a Portugal sem os seus dois melhores jogadores, Strasser e Cardoni....
Apesar dos cabelos louros darem-lhe um ar angelical, ele era, em finais dos anos 70, um diabo á solta com a bola nos pés. Rápido e driblador, brilhou no Borussia Monchengladbach e no Barcelona. Era o dinamarquês Allan Simonsen, Bola de Ouro para melhor futebolista europeu em 1977. Três décadas depois, descobrimo-lo, após uma gélida aventura de oito anos nas Ilhas Faroé, como seleccionador do Luxemburgo. Vendo a forma tecnicamente pobre e quase desastrada, como os seus jogadores actuam, não é difícil imaginar o que passará pela sua mente de Simonsen desde que em 2001 assumiu esse duro cargo, sucedendo ao histórico Raul Phillip, o treinador que esteve mais tempo á frente de uma selecção europeia: 17 anos, durante os quais a sua figura imponente, gordo e com um pequeno bigode, tornou-se a imagem de marca do futebol luxemburguês, para o qual continua a trabalhar, na Federação. As razões para esse longo reinado nunca estiveram, no entanto, ligadas aos bons resultados. Ao longo de quase duas décadas, Phillip fez 86 jogos, perder 75, empatou 8 e ganhou apenas 3, marcando 32 golos e sofrendo 218. As vitórias surgiram, em 1995, na fase de apuramento para o Euro-96. Duas frente a Malta (ambas por 1-0) e outra, naquela que é a grande proeza na história da selecção do Luxemburgo, quando bateu a poderosa Republica Checa, também por 1-0. Desde ai, nunca mais o Luxemburgo ganhou um jogo e a última vez que evitou a derrota num jogo internacional oficial, foi há nove anos, em 1995, quando empatou com a Bielorússia (0-0). Não dando sinais de crescimento, atingiu o seu ponto mais baixo no mês passado, quando perdeu, em casa, frente ao Liechtenstein por 4-0! Para Portugal, existe sempre o velho fantasma da goleada sofrida na qualificação para o Mundial-62 1962, quando, já com Eusébio, perdeu no Luxemburgo por 4-2. Tal, no entanto, ainda hoje é um verdadeiro oásis no futebol luxemburguês. Para percebermos melhor a fragilidade do seu futebol, basta recordar que a última vez que ganhou um jogo numa fase de apuramento para o Mundial, ainda nenhum dos actuais jogadores da selecção eram sequer nascidos. Sucedeu em 1972, quando bateu a Turquia por 2-0.

Strasser: o único profissional

O único jogador luxemburguês de nível internacional é defesa central Jeff Strasser. Fez toda a carreira no estrangeiro, e, desde 2002/02, é um pilar da defesa do Borussia Monchengladbach, tendo antes passado pelo Kaiserlautern, de 1999 a 2002, e, em França, pelo Metz, onde jogou seis épocas, desde 93/94 a 98/99. É o único profissional num onze totalmente amador, de resto composto apenas por jogadores a actuar no fraco campeonato luxemburguês, cujos principais clubes são o Dundelange e o Jeunesse Esch, o actual campeão. Neste contexto, a missão de Simonsen em dar um maior nível competitivo internacional á selecção do Luxemburgo, torna-se quase impossível, embora, como confessa, tenha encontrado nos jogadores do grão-ducado um índice técnico superior ao das Ilhas Faroe, mais físico, e onde conseguiu alguns bons resultados. Tacticamente, porém, a equipa revela grande ingenuidade posicional. Até sabe dominar a bola, mas depois, atleticamente frágil e sem dominar básicos conceitos de passe, recepção e desmarcação, torna-se um alvo fácil para os adversários, acumulando goleadas atrás de goleadas. Nesse campo, o papel do experiente Strasser, a chefiar a defesa, sobretudo sobre o lado esquerdo, ou a trinco, é de crucial importância, mas, apesar do seu valor e experiência, não tem o dom da omnipresença, pelo que a sua missão acaba por ser apenas a de tentar que a derrota seja pelo menor número de golos possível. Castigado, não irá jogar contra Portugal, deixando a pobre defesa luxemburguesa sem a sua principal referência, pelo que deverá ser o outro central, Hoffmann, principal responsável na saída de bola para o contra-ataque, com passes curtos ou lançamentos longos, a assumir as rédeas do quarteto defensivo. Com apenas 20 anos, Hoffmann, jogador do Etzella Ettelbruck é maior promessa do actual futebol luxemburguês.

Cardoni: o melhor jogador

Vendo jogar a selecção do Luxemburgo, apenas se pode detectar um jogador de maior categoria: o nº10 Cardoni, 32 anos, experiente playmaker do Jeunesse Esch. É, claramente, o melhor jogador da equipa que, sem ele, não consegue sequer pegar na bola. Marca as bolas paradas, tem iniciativa com a bola nos pés, com tendência a descair para o flanco esquerdo, levanta a cabeça e, lendo o jogo, tenta organizar a equipa ao subir no terreno. Está, no entanto, sozinho nessa missão. Ninguém na equipa entende esse seu futebol mais evoluído, que o levou a ser contratado, entre 96/97 e 97/98, pelo Bayer Leverkusen. Na Bundesliga, porém, raramente jogou e só por uma vez foi titular. Consciente de ser impossível dominar qualquer jogo, Simonsen preconiza um sistema táctico estruturalmente defensivo, muito fechado, esquematizado em 4x5x1, quase sempre com 9/10 jogadores atrás da linha da bola e o rudimentar ponta de lança Braun, lutador mas sem dotes técnicos, desamparado na frente de ataque, perdido entre os centrais adversários. Sem Braun, as outras serão Huss ou Claudio Luz, dois avançados para quem a baliza é quase um objecto estranho. Por vezes, quando tenta atacar, o onze ainda esboça tenuamente um 4x1x4x1, destacando-se o médio ala direito Alphonse Leweck como o único jogador capaz de entender os movimentos básicos de transição defesa-ataque, surgindo, assim, muitas vezes, como uma espécie de segundo avançado, apoiando Braun. Na esquerda, é Remy quem abre na linha, enquanto, no centro, os principais operários para tentar recuperar a bola são a dupla de trincos Charles Leweck-Molitor. Tudo, porém, é feito sem dinâmica, e com um pequeno pormenor que impede qualquer sucesso na estratégia: raramente o onze é capaz de segurar a bola durante mais do que três ou quatro passes seguidos.

A TÁCTICA DO ÚLTIMO JOGO

Sistema: 4x5x1 (derrota, 0-4, c. Liechtenstein) Besic (Guarda-Redes) Federspiel (Lateral-Direito) Hoffmann (Defesa-central) Strasser (Defesa-central) Hellenbrand (Lateral-esquerdo) A.Leweck (Médio-ala direito) C.Leweck (trinco) Molitor (Volante central) Cardoni (Médio centro playmaker) Remy (Médio ala esquerdo) Braun (Ponta de Lança)

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