LYON: Técnica, espaços e contra-ataque

17 de Março de 2004
COMO JOGOU O ADVERSÁRIO DO FC PORTO EM SOCHAUX:
No Estádio Bonal, em Sochaux, o Lyon de Paul Le Guen confirmou a seu estilo: uma equipa tecnicamente excelente, interprete de um conceito de futebol criativo moldado pela velocidade e por um atraente jogo de triângulos a todo o terreno, no qual o sistema inicial de 4x2x3x1 se transforma facilmente em 4x3x3, mas que denota, claramente, enorme suavidade defensiva quando pressionado dentro do seu meio campo, onde falta equilíbrio entre recuperadores de bola e organizadores de jogo. No plano individual dois destaques: Essien e Juninho Pernambucano, os volantes que acenderam as luzes do onze.
Basicamente, no plano técnico-táctico, o Lyon alinhou, em Sochaux, no seu sistema preferencial de 4x2x3x1, com um forte dupla de centrais, composta por Edmilsson, á zona, e Muller, mais atento á marcação individual, e dois laterais atentos sobretudo a defender, Deflandre, á direita, e Malouda, um ala-extremo esquerdo de origem que, nos últimos jogos, recuou no terreno, devido ás ausências de Berthod ou Reveillère. Apesar de esforçado, sempre em movimento, Malouda revela, posicionalmente, muitas deficiências a defender, crescendo no jogo apenas nas subidas que fez no ataque, sobretudo na segundo parte. A meio campo mora a zona de criação do onze, no qual, apesar da enorme qualidade técnica dos seus elementos, se nota um claro desiquilibrio entre recuperadores e organizadores. Mantendo a intenção de jogar sempre com dois extremos bem abertos, Le Guen, com Malouda recuado, puxou para o flanco esquerdo o virtuoso Luyindula, antes colocado no eixo, como avançado centro ou falso, nas costas do ponta de lança. Na direita, manteve-se o veloz Govou e no meio, completando o trio entre-linhas, Essien, num corredor também muitas vezes ocupado pelas inteligentes subidas de Juninho. Na frente de ataque, como ponta de lança, regressou Elber, perigoso na primeira parte, fugindo ás marcações e fazendo um golo, mas desaparecido no segundo tempo.

A pequena sociedade Diarra-Juninho

O circuito de jogo preferencial do onze de Paul Le Guen, inicia-se, á frente da defesa, sempre estruturada a «4» e sem grande liberdade ofensiva concedida aos laterais, através de uma dupla de médios de contenção, um trinco e um volante, que se complementam, na perfeição, na missão bífida de recuperação da bola -a cargo de Diarra- e sua condução para o ataque -entregue a Juninho Pernambucano- o motor da equipa, ao ponto de se poder dizer que quanto mais o brasileiro estiver em jogo, melhor joga o Lyon. Esta complementaridade Diarra-Juninho, fica evidente, desde logo, no simples posicionamento de ambos em campo. Em vez de alinharem de perfil como uma clássica dupla de trincos, colocam-se antes verticalmente, Diarra atrás e Juninho, á frente, um pouco mais adiantado, com tendência para descair sobre o flanco esquerdo á medida que se vai aproximando da baliza adversária. Uma tarefa de transporte de bola que frente ao Sochaux teve outro jogador preponderante, geralmente mais recuado: o ganês Essien. Mais adiantado, jogando curto mas com grande precisão de passe, traçou as coordenadas do jogo de compensações defesa-ataque de todo o onze, muito atento, quando a equipa perdia a posse da bola, a ocupar locais de cobertura, e, depois de recuperada a sua posse, transportá-la para o ataque. Embora não seja um jogador muito rápido (será o que se chama um falso lento), Essien teve sempre o meio campo do Lyon preso na ponta das suas chuteiras, de forma quase confidencial, perante um Sochaux pouco agressivo, e com os olhos mais postos nos movimentos de Juninho.

QUANDO O 4x2x3x1 VIRA 4x3x3: A dinâmica dos extremos e as lacunas defensivas

Intérprete de um atraente futebol, de vocação ofensiva, tecnicista e aberto a toda a largura do terreno, este Lyon é, no entanto, claramente, uma equipa competitivamente leve. Tirando Diarra, poucos outros jogadores possuem capacidade de choque e cultura defensiva para jogar sem bola. Deixando no banco o criativo Dhorasoo, o técnico Paul LeGuen conseguiu, com a entrada de Essien, dar maior peso ao sector, mas sem ter, nas alas, jogadores com capacidade para fechar os flancos a defender, nos momentos em que a equipa perde a posse da bola, acaba por revelar grandes dificuldades no plano defensivo. Com a presença de dois rápidos e virtuosos extremos (frente ao Sochaux. Govou, á direita, e Luyindula, á esquerda, no lugar de Malouda), transforma-se, facilmente, a atacar, num dinâmico 4x3x3, mas, com pelo menos metade do onze á frente da linha da bola, a defesa sofre muito perante equipas que, como o Sochaux no primeiro tempo, tenham capacidade para fazer o chamado pressing alto, isto é logo á saída ou entrada do meio campo, pois todos os médios do campeão francês marcam essencialmente á zona, raramente caem em cima do adversário, obrigando, assim, a equipa, muitas vezes, a defender demasiado perto da sua área, deixando muitos espaços abertos nas imediações da sua área, nos quais surgem perigosas triangulações dos médios ou avançados adversários (como no golo marcado por Santos). Neste sentido, grande parte do primeiro tempo do jogo de Sochaux foi um excelente exemplo de como o FC Porto de Mourinho (exímia a fazer o tal pressing alto, recuperando a bola ainda no meio campo adversário) pode criar grandes dificuldades a este Lyon, uma equipa atraente, de recorte ofensivo, pois não especula com o jogo, que gosta de alongar e encurtar o campo jogando o chamado futebol de harmónio, mas desiquilibrada nas compensações defesa-ataque.

A excelente segunda parte

Com Diarra muito seguro e Essien acompanhando Juninho nas subidas, o Lyon realizaria, no entanto, uma segunda parte de grande categoria, controlando todo o jogo, chegando, com naturalidade á vitória através de um futebol apoiado, tecnicamente dotado, em triangulações constantes: Malouda-Juninho-Luyindula, á esquerda, Govou-Essien-Deflandre, á direita. Por fim, refira-se que, nos últimos 15 minutos, o onze recuperou, com a entrada de Berthod para lateral esquerdo, a sua face natural, adiantando-se Malouda para o meio campo, como um ala-extremo, ao mesmo tempo que, saindo Elber, Luyindula regressava ao eixo do ataque. No fundo, o jogo de Sochaux, deixou claro como este Lyon é uma equipa que, pela sua capacidade criativa, necessita espaço para jogar e soltar o seu estilo de contra-ataque. Sem ele, quase não existe. Com ele, aliado á velocidade de Govou, é uma das mais equipas europeias mais fortes da actualidade.

O ONZE QUE GANHOU EM SOCHAUX Sistema: 4x2x3x1 (variante: 4x3x3)

Partindo de um esquema inicial de 4x2x3x1, o onze de Le Guen ganha, num ápice, de posse da bola, fruto da enorme capacidade técnica e criativa do seus velozes médios ala, o design 4x3x3. Uma metamorfose que se, por um lado, o torna muito perigoso ofensivamente, por outro, causa-lhe enormes descompensações defensivas, onde, no meio campo, apenas Diarra possui cultura de jogo claramente de cobertura, pois tanto Juninho como Essien tem maior visão ofensiva.

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