MACCABI TELAVIV : Por um lugar no paraíso

18 de Setembro de 2002
(TAÇA UEFA 2001/2002)

Longe do seu Bloomfield Stadium, no coração de Tel Aviv, o Maccabi recebe, no frio de Sófia, na estranha Bulgária, o Boavista. No peito continua a trazer a estrela de David, o segundo Rei israelita que, séculos antes de Cristo, estabeleceu Jerusalém como capital do reino. Um símbolo que é uma identidade nacional, cultural, política e, sobretudo, religiosa. Nos relvados, é a alma de jogadores como Namni, Drago, Biton ou Strool, figuras do mais prestigiado clube de futebol do ancestral reino de Israel.
Trucidados por guerras e ódios seculares, há lugares no mundo onde a vida e a morte adquirem outra dimensão aos olhos humanos. Israel, no centro do vulcão que, desde tempos ancestrais, se tornou toda a região do médio-oriente, é um desses casos. Um sentimento perturbante que, desde a sua chegada, em 97, assaltou o chileno Rodrigo Goldberg, jogador do Maccabi Tel-Aviv. Ainda hoje ele recorda arrepiado aquela tarde, quando estava no relvado a realizar o aquecimento antes de um jogo e, de repente, se ouviu uma enorme explosão. Foram segundos de medo. Ficou imóvel, assustado, quase congelado. A seu lado porém, os colegas de equipa nem pestanejaram e seguiram os exercícios de aquecimento. Quando lhes perguntou o que fora aquele estrondo, responderam-lhe com a maior calma do mundo, que só podia ter sido uma bomba num bairro árabe que estava ali próximo. Apesar do perigo, experiências deste tipo há muito que já fazem parte das suas existências humanas, ao ponto mesmo de se transformarem num modo de vida. Geograficamente, como se pode concluir pelo simples olhar do mapa-múndi, os clubes israelitas nem deveriam estar a competir na UEFA. Tal situação apenas se fica a dever a uma diplomática decisão, primeiro da FIFA, em 76, a nível de selecções, e, depois, da UEFA, em 92, a nível de clubes, que incapazes de evitar os violentos confrontos, de raiz religiosa e política, sempre presentes quando as equipas de Israel visitavam outros países árabes, optaram por retirar o futebol israelita da fogueira árabe e colocá-lo tranquilamente a jogar com os países europeus. Assim, a história do seu futebol, divide-se entre dois tempos e dois continentes. Olhando a sua longa história, que data desde 1927, ano da sua fundação, o Maccabi Tel-Aviv sempre se assumiu, junto com o Hapoel, Beitar e Maccabi Haifa, como uma das maiores forças do futebol israelita, do qual conquistou 18 títulos de campeão nacional. Em termos internacionais, conquistou 2 vezes a Taça dos Campeões Asiáticos, em 69, batendo na final o Yangzi da Coreia do Sul, 1-0, e em 71, após os iraquianos do Bagdad Police Club, se terem recusado a defrontar na final os homens que transportavam a estrela de David ao peito. Era a geração de grandes estrelas como Zvi Rosen, Menahem Bello, Rahmim Talvi e Giora Shpiegel, base da célebre selecção israelita presente no Mundial-70 do México.

Grant, Kashtan e Klinger: Três treinadores para três ciclos

Após os decepcionantes anos 80, década em que não conquistou nenhum titulo de campeão, o Maccabi, o único clube israelita que nunca desceu de divisão, iniciou a construção de uma nova era sob a orientação do carismático Abraham Grant, o treinador que, chegado em 91, devolveu a glória á lendária equipa Tel-Aviv. Numa época em que as fronteiras do futebol israelita foram abertas, pela primeira vez, a jogadores estrangeiros, o Maccabi, com o fabuloso guarda redes soviético Alexander Ouvarov –titular da URSS no Mundial-90- entre os postes, resgatou o topo da Liga israelita, conquistando os titulos de 92 e 95, altura em que Grant partiu para o Hapoel Haifa. Apesar da sua saída, a equipa manteve o embalo vencedor, e, sob as ordens de Dror Kashtan, reconquistou, jogando um futebol bonito e ofensivo, 19 anos depois da última vez, em 77, a dobradinha Campeonato-Taça. Após esta inolvidável época, foi com protestos que os adeptos encararam, na época seguinte, o regresso de Grant, insatisfeito no Hapoel, para o lugar de Kashtan. Muito contestado, o segundo ciclo de Grant não teria o mesmo sucesso do primeiro, ao ponto da equipa ter deixado de lutar pelo titulo. Os protestos atingiram o auge após a desastrosa época 98/99, que por pouco não o atirava para II Divisão primeira vez na sua história. Após uma época de transição, a reconstrução da equipa seria entregue a um seu antigo jogador e adjunto: Nir Klinger, um símbolo do Maccabi Tel-Aviv, pelo qual jogou durante 8 anos, marcando 42 golos, para além de deter o record de 83 internacionalizações pela selecção de Israel, da qual foi capitão durante 6 anos.

Nimni, Dago e Biton: O estilo e a técnica israelita

A EQUIPA DO MACCABI Após conquistar o seu ultimo titulo de campeão em 95/96, o Maccabi Tel-Aviv ultrapassou, nas últimas épocas, uma fase de quebra competitiva, só atenuada pela conquistas da Taça de Israel (2001, 2002). A reconstrução do novo Maccabi começaria quando, a partir de 2000, o clube decidiu investir num conjunto de jovens talentos do futebol israelita, entre eles Brumer, Banin, Biton, Strauber, Dayan e Zitoni, então base da selecção Sub-21, que, juntos, iriam, aos poucos, devolver o perfume do bom futebol, essencialmente técnico, ao onze amarelo de Telavive. Nir Klinger, o jovem treinador da reconstrução, 37 anos, é, tacticamente, um adepto do 4x3x1x2, o sistema táctico preferencial do Maccabi, do qual os médios ofensivos Avi Nimni e Baruch Dego são as principais estrelas. Na baliza, depois da retirada do russo Ouvarov, actual treinador de guarda redes, está o gigante Liran Strauber, ex-Hapoel Jerusalem. Á sua frente um quarteto de defesas, onde se destacam os personalizados Gadi Brumer, David Dayan e o internacional Avi Strool. O ponto forte do onze situa-se, no entanto, como aliás na maioria das equipas israelitas, defensivamente pouco sólidas, no meio-campo e ataque, onde habita um conjunto de excelentes jogadores. Entre eles está o experiente capitão Avi Nimni, 30 anos, um médio de grande nível, com grande visão de jogo e capacidade ofensiva, mas que, talvez por demasiado habituado ao ritmo lento e de pé-para-pé do futebol israelita, não vingou nas suas aventuras internacionais, em Espanha, no At.Madrid, e em Inglaterra, no Derby Conty, onde revelou sempre alguma inadaptação a um estilo de futebol claramente mais rápido e de choque. Em Israel, porém, Namni é uma referência de classe, tendo sido o melhor marcador da equipa, na época passada, com 13 golos. A seu lado, o jovem talento em quem todo o futebol israelita aposta para o relançar internacionalmente: o mulato Baruch Dago, 21 anos, o tipo de médio ofensivo que joga nas costas dos pontas-de-lança e gosta de entrar de trás. Inteligente nos movimentos, sabe procurar os extremos para flanquear o jogo, sendo dos seus pés que nascem a maioria dos golos da equipa, num sector onde também se destaca a acção lutadora do experiente Tal Banim, 31 anos. Amante do futebol apoiado e tecnicamente dotado, a base do estilo de jogo israelita, este trio de médios -Namni, Dago e Banim- são o núcleo central de todo o jogo do Maccabi. No ataque, onde o experiente chileno Rodrigo Goldberg, 31 anos, regressado de uma longa ausência por lesão, continua a ser uma segunda opção para o técnico Nir Klinger, mora uma perigosa dupla de avançados constituída pelo lituano Prohorenkovs, contratado esta época, e pelo jovem Eili Biton, 20 anos, um produto das escolas do Maccabi, titular da selecção de esperanças israelita.

Artigos Relacionados

  • NOTAS 2011/12 (28) NOTAS 2011/12 (28) 10 de Fevereiro de 2012 1. Prazer do sofrimento; 2. Personalidade e recuperação; 3. Janko, `páginas amarelas`.
  • “Lost in translation”* “Lost in translation”* 7 de Fevereiro de 2012 O abraço de Mourinho a Sérgio Ramos. A importância de não perceber as palavras para tornar a história...
  • NOTAS 2011/12 (27) NOTAS 2011/12 (27) 3 de Fevereiro de 2012 1. Dois lugares, um habitat; 2. Diego Barcelos, médiio ou avançado?; 3. Gil de Paulo Alves: a realidade...
  • A  equipa num "beco sem saída táctico" A equipa num `beco sem saída táctico` 29 de Janeiro de 2012 Quando não se descobre o `6` desejado a solução passa por criar um `8`. Pensando o jogo/problemas do...
  • O lugar das "boas ideias" O lugar das `boas ideias` 28 de Janeiro de 2012 Nascer craque é fácil. Difícil é sê-lo. Em que tipo de jogador se está a transformar Gareth Bale?