A FANTÁSTICA AVENTURA DE MANUEL JOSÉ NO FUTEBOL AFRICANO DE CLUBES: ESTRELAS, ESTILO E TÁCTICA
Há momentos que marcam uma carreira. Submerso pelos seus jogadores e adjuntos em festa, apontando para o bater do coração, Manuel José explicava claramente a emoção provocada por esta conquista decidida, já no período de descontos, com um fantástico golo de Aboutrika. Foi o culminar de uma época dramática, marcada pelo falecimento em pleno treino do ala Abdelwahab, a quem, no fim, os colegas dedicaram emocionadamente a revalidação do título de campeão africano. Em termos de evolução competitiva, a Liga dos Campeões Africanos desta época confirmou as tendências dos últimos anos, no qual se nota uma correlação de forças mais equilibrada entre os clubes da região central, morada da chamada África negra, em relação aos da região norte, secularmente mais desenvolvidos em termos estruturais. Continua, no entanto, a notar-se uma grande diferença em termos de cultura táctica, na qual os países norte-africanos estão claramente mais desenvolvidos, apesar de ser na região central, com as equipas da Costa do Marfim, Gana ou Nigéria, que se sente o verdadeiro traço da magia do futebol africano. É, no entanto, uma imaginação rebelde, tacticamente pouco consistente, sobretudo a defender. Por isso, é com os adversários da região norte que o Al Ahly trava as batalhas tácticas mais duras, como se viu nos dois jogos da final desta época frente ao CS Sfaxien da Tunísia, uma equipa tacticamente muito cínica, sempre com 8 jogadores atrás da linha da bola e apostando nos lançamentos para o solitário avançado Frimpomg.
O sistema base: 3x5x2

Em termos de filosofia de jogo, Manuel José permanece fiel aos princípios que construíram a sua identidade como treinador, nomeadamente durante os melhores anos passados no Boavista, tacticamente adepto de sistemas com três centrais e laterais ofensivos. É esta a estrutura preferencial do seu Al Ahly, esquematizado num dinâmico 3x5x2, variando depois, em função das circunstâncias especificas de cada jogo, entre o 3x4x1x2 ou o 3x4x2x1. Foi o que se viu, na Tunísia, na segunda mão da final. Sentindo a equipa demasiado presa atrás, Manuel José não hesitou e ainda na primeira parte, substituiu um trinco, Mensah, e fez entrar outro ponta-de-lança, Moteab, passando a jogar com dois avançados puros. O onze cresceu automaticamente em termos ofensivos, mas, em qualquer sistema, denota sempre excelente controlo da posse de bola, alargando o jogo nas faixas e saindo rápida para o contra-ataque, raramente se desequilibrando na transição defensiva, na qual os laterais não hesitam em recuar para fechar o flanco, desenhando assim uma linha de 5 defesas, que depois se volta a desdobrar recuperada a posse. É, no entanto, um onze que gosta sobretudo de ter a bola. Como colectivo, não é muito agressivo na recuperação, pelo que procura evitar que a dimensão física dos jogos cresça. A prova da sua qualidade táctica ficou, porem, provada no facto de mesmo com a lesão de sete potenciais titulares (os defesas Nahas e El Sayed, o ala Gilberto e os avançados Hosny e Barakat) a equipa manteve sempre, ao longo da época, o mesmo modelo de jogo e sistema táctico traçado, desde o primeiro dia, pelo faraó do banco Manuel José.
A DEFESA: As pirâmides e os laterais ofensivos

Com três imponentes defesas-centrais, marcando à zona ou ao homem, o onze nunca treme mesmo quando pressionado, não receando jogar um para um com os avançados adversários. Á frente do ágil guarda-redes Al Hadari, três nomes a fixar: Gomaa, sobre a direita, Mohamed Shady, no centro, espécie de libero, e Mohamed Sedik, sobre a esquerda. Embora sintam maiores dificuldades perante avançados mais rápidos, juntos formam uma verdadeira muralha. Shady é o elemento tecnicamente mais dotado, sendo responsável pelo primeiro passe para o meio campo após a recuperação da bola, mas, observando o jogo de compensações, é o imponente Gomaa que emerge como a grande pirâmide defensiva. Durante os jogos, é comum vê-lo quase respirando na nuca do ponta-de-lança adversário, marcando-o em cima e nunca lhe dando um palmo de relva para se movimentar. Fazendo todo o corredor, a atacar e a defender, os laterais são, dentro do 3x5x2, os grandes responsáveis pela dinâmica ofensiva da equipa pelas faixas. Mesmo com a lesão de El Shater e Gilberto, habituais titulares das laterais do Al Ahly, Manuel José manteve a mesma filosofia de jogo, como se viu nos dois jogos da Final, com Shadid, à esquerda, e Addellah, à direita, ambos muito activos a criar desequilíbrios na defesa adversária com as suas subidas ao ataque.
ASHOUR-SHAWKY: O núcleo duro do meio-campo

Apesar da solidez da defesa e da dinâmica dos laterais, o coração e motor do onze situa-se no centro do meio-campo. É nesse espaço, dividido em duas linhas, que a equipa tem os pilares tácticos que lhe permitem controlar o jogo e fazer circular a bola, papel onde se destacam dois médios-centro com grande visão de jogo: Mohamed Shawky e Hossam Ashour. São jogadores diferentes. Ashour é incansável. Embora pareça franzino, corre por todas as bolas, luta na recuperação e é muito rápido a lançar o ataque. Gosta de avançar no terreno, mas, tacticamente disciplinado, nunca perde a referência posicional defensiva. Shwaky, pivot defensivo, é mais cerebral. Organiza desde posições recuadas, mas depois, atleticamente forte, sabe conduzir a bola queimando linhas até surgir na zona de construção. Na Tunísia, castigado não pode jogar e surgiu no seu lugar um interessante médio de contenção ganês, Mensah, inteligente a fechar espaços agressivo na recuperação e preciso no primeiro passe. É esta primeira linha que garante o equilíbrio da equipa face aos contra-ataques adversários, dobrando muito bem nos espaços deixados vazios pela subida dos laterais. Nesta dinâmica de jogo, forma muitas vezes uma linha de quatro homens à frente dos centrais, com os laterais de perfil com os dois médios-centro.
A DINÂMICA ATACANTE: Sob inspiração do mágico Aboutrika

Com um ou dois avançados mais fixos, a equipa revelou sempre grande mobilidade a atacar. Para isso, muito contribui o papel dos criativos que jogam entre-linhas nas costas do ponta-de-lança. É esse o espaço onde respira melhor o profeta Aboutrika. Elegante, com perfeito controlo de bola, tecnicamente refinado e grande visão de jogo, passa e remata na perfeição. Não é muito veloz, mas executa rápido. Alinhando quase como segundo avançado ou mais recuado para fazer a transição defesa-ataque, o polivalente Hassan Mostafa marca o ritmo atrás dos avançados, mas não é propriamente um organizador, missão onde Aboutrika se destaca como a grande referência quando pega na bola nessa segunda zona de construção. Entre os médios ofensivos, destaque também para os dinâmicos Tarek Said e Ahmed Sedik, este formado nas escolas do Al Ahly, gosta de deambular por todo o ataque, pode jogar em ambos os lados como médio-interior, mas surge mais quando descaí para a esquerda e entra de fora para dentro.
Moteab e Flávio: olhos na baliza

Um dos aspectos mais interessantes da dinâmica ofensiva deste Al Ahly resida na capacidade dos seus médios ofensivos se transformarem em avançados, ficando muitas vezes a dúvida da sua verdadeira posição. É o caso de Osama Hosny, utilizado por vezes numa posição mais adiantada, lugar onde, com a grande estrela Barakat afastado por lesão durante quase toda a época (apenas fez dois jogos na Champions) a principal figura é o nº9 Emad Moteab, um ponta-de-lança que gosta de jogar entre os centrais, mas que também sabe recuar para receber a bola ou procurar triangulações com os médios que rasgam desde trás. Fez 5 golos esta época na liga dos Campeões. Após um período na sombra de Barakat e Motaeb, os dois jogos da final consagraram o avançado angolano Flávio como uma das grandes figuras da equipa. Embora não seja muito agressivo, raramente ganhando lances divididos, é dos melhores avançados africanos a jogar sem bola. Muito inteligente a procurar espaços vazios, parece mover-se em bicos de pés, foge bem dos seus marcadores e nunca perde uma oportunidade para rematar. Fez 4 golos na Champions desta época.
O onze que venceu na Tunísia (Sistema: 3x4x2x1)

Entrando em campo expectante, estudando o adversário, optou por, primeiro, controlar o meio-campo com a entrada de mais um médio defensivo (Mensah). Detectada a estratégia do Sfaxien, logo saiu esse trinco suplementar e entrou mais um ponta de lança (Moteab) que passou a jogar ao lado de Flávio. Ao mesmo tempo, Mostafa recuou um pouco para apoiar Ashour nas transições, ficando Aboutrika solto, com liberdade para criar, nas costas dos pontas-de-lança. Foi nessa estratégia que ganhou o jogo.
QUATRO «FARAÓS DA BOLA» A FIXAR
MOHAMED ABOUTRIKA

Posição: Médio ofensivo Idade: 28 anos (7/11/78) Liga dos Campeões: 12 jogos/8 golos O tipo de jogador que respira classe. É um símbolo da era Manuel José no Al Ahly, pois foi descoberto, em 2004, já com 26 anos, quando jogava na II Divisão, no Tersana. Hoje é um dos melhores jogadores egípcios. Mais do que um médio ofensivo é quase um segundo avançado, ao mesmo tempo, criativo e organizador. Faz passes de morte e marca golos. Foi o melhor marcador da competição com 8 golos.
WAEL GOMAA

Posição: Defesa-central Idade: 31 anos (3/8/75) Liga dos Campeões: 13 jogos / o golos Um gigante a defender. Na linha de três centrais, costuma jogar descaído sobre a direita mas depois surge em todo o lado, imponente, a cortar. Muito experiente, tem um perfeito sentido posicional, pelo que pode jogar com o mesmo rendimento ao homem ou à zona. Forte de cabeça, possante no choque, parece perfeito para o futebol inglês. Por isso, em Janeiro, ruma ao Blackburn Rovers.
HOSSAM ASHOUR

Posição: Médio centro Idade: 21 anos (9/3/85) Liga dos Campeões: 13 jogos/ 0 golos Grande promessa do futebol egípcio. Impressionante a sua entrega ao jogo. Persegue todas as bolas como se de cada uma delas dependesse o resultado final. Colocado à frente da defesa, muito rápido, quando o adversário entra nesse espaço, cai-lhe logo em cima e não o deixa respirar. Franzino (1,73m.e 65kg.), , mas fisicamente incansável, trabalha na recuperação e apoia a transição defesa-ataque. Um belo jogador.
MOHAMED SHAWKY

Posição: Pivot-defensivo Idade: 25 anos (5/10/81) Liga dos Campeões: 10 jogos /1 golo Um dos médios tacticamente mais cultos do futebol egípcio. Parte de posições recuadas, na primeira linha do meio campo, mas enche o campo todo com a sua presença física, visão de jogo e capacidade de passe. É uma espécie de âncora da equipa, nunca a deixando perder o controlo emocional em campo. Joga e faz jogar.