Primeiros treinos, início de construção. Começa a suspeitar-se o que as equipas podem ser, mas ainda nenhuma calibrou todo o plantel na sua máxima dimensão. Vitor Pereira e Jesus são os passageiros da táctica nos bancos dos dois grandes candidatos. Jesus entra no seu terceiro ano no Benfica, mas é difícil identificar uma lógica unificadora de ciclo entre essas sucessivas épocas. Cada uma teve um processo de construção diferente, no sentido emocional e orgânico do termo. Não só na aura com que arranca, como nas necessidades da equipa que espelham, no fundo, as convulsões que, cada ano, atacam a estrutura de futebol do Benfica. A regeneração portista, pós-titulo encarnado, não exigiu nenhum processo reconstrutivo. Bastou-lhe reinventar as suas raízes e encontrar um treinador capaz de as entender e redimensionar. Um ano depois, os dois clubes parecem exactamente em locais opostos.
Mais do que dar um novo impulso pós-Jesualdo, a obra de Villas-Boas deixa, porém, marcas profundas no mundo azul-e-branco. A saída do special cenoura pode ser vista, neste momento, como um factor de aproximação ente as duas equipas (ou de nivelamento das expectativas, esperanças e dúvidas, em relação aos seus dois treinadores). Vitor Pereira encontra o clube, equipa e correlação de poderes com o grande rival, numa situação completamente diferente. Por isso, em vez de reinventar fórmulas, apenas se pede que as consiga manter em funcionamento. Pode parecer um paradoxo mas é uma tarefa muito mais complicada. Sobretudo vendo a alta rotação em que Villas-Boas deixou a máquina portista.
Olhando o panorama mundial, o mercado de transferências, compra-venda de jogadores, ainda não disparou. Existem dois factores (entenda-se dois jogadores) que o vão provocar; Fabregas e, sobretudo, Aguero. Porque nela entrarão, muito provavelmente, as maiores movimentações de dinheiro, que, depois, indo dos clubes compradores (Real Madrid-Barcelona) aos vendedores (Arsenal-At.Madrid), irão provocar a ebulição, estilo efeito-dominó, no resto do mercado futebolístico. Em geral, as coisas funcionam assim: dois grandes negócios por defeso, daqueles em que os números assustam só de olhar, e quatro ou cinco médios negócios que lhe surgem relacionados na normal circulação de dinheiro que entra no mercado.
Seria nesse quadro que entrariam os prováveis negócios de Coentrão e, sobretudo, Falcao, só que para além deste dinheiro gerado dentro do normal circuito futebolístico, existe agora outro, vindo de fora do futebol, que subverte todo o mercado. A eclosão desse dinheiro de outro universo no futebol nasceu em 2003 com o aparecimento de Abramovich e da oligarquia que o suporta, e continua agora nas fortunas árabes que vão invadindo clubes europeus, sobretudo ingleses, onde o lado comercial do jogo suscita maior atracção. Foi nesse contexto que detonou a bomba da transferência de Villas-Boas. Dentro apenas do anterior normal circuito do futebol, não acredito que ela tivesse sido possível.
Em todo este mundo, os clubes portugueses ficam uma posição de sujeição. Ao contrário do que o FC Porto quis fazer crer, é utópico pensar que é possível ficar impermeável a esses monstros do mercado se eles olharem na sua direcção. Neste cenário, retardar uma transferência já parece um triunfo. É a insustentável leveza (financeira) do futebol português, ironicamente mais vulnerável após os grandes sucessos internacionais. São o efeito e causa, dentro e fora do relvado, do incontrolável voo do Falcao.
De Aimar a Bruno César?
A forma como Benfica mexe no mercado causa alguma inquietação porque ainda não se detectam pilares (ocupantes das posições-chave no onze base) onde tudo isso é feito. Ainda existe, claro, tempo para isso, mas há casos posicionais mais preocupantes do que outros. Admitindo que Jesus vai manter o seu sistema táctico preferencial (4x1x3x2), ver a possibilidade de Aimar sair abre uma cratera no coração da organização ofensiva do onze. Sem Aimar, o melhor Benfica a pensar e entender do jogo esfuma-se. Os jogos da época passada provaram-no. Sobretudo na forma como ele punha um toque táctico de serenidade na vertigem do jogo sempre que pegava na bola.
Imaginando o actual plantel sem Aimar e procurando quem pode ir para a sua casa 10, a tentação primária será o novo reforço brasileiro Bruno César. Admito que até poderá, em alguns momentos, ocupar esse lugar. Interpretá-lo da melhor forma, isto é, da forma que a equipa pede em função do referido, é que me parece impossível. Porque Bruno Cesar não é um organizador. É, como quase todos os médios estilo avançados (ou vice-versa) que jogam no Brasil, um vagabundo dos últimos 30 metros. É essa a maior dificuldade no transfer America do Sul-Europeu: ver, no seu habitat natural, um talento a jogar solto, sem uma posição clara, e depois, tentar imaginá-lo num lugar específico no mais rígidos sistemas tácticos Europeus, limitando espaço a ocupar e movimentar-se. Não é impossível, mas demora tempo.