Meio-campo: as “areias movediças”

3 de Fevereiro de 2012 09:58
Os médios são o tipo de jogadores que devem jogar com uma antena na cabeça. Um sensor para descobrir obstáculos e espaços livres

É um clássico: todas as grandes equipas começam a crescer a partir do meio-campo. É nesse espaço/sector que a linguagem táctica da equipa traduz, de forma mais clara, o que ela quer para o jogo. Perante as questões que este lhe coloca, é aqui que têm de surgir as melhores respostas. É decisivo, então, saber dar boas respostas, com e sem bola. Respostas ora mais de recuperação e luta, ora mais de técnica e posse, aumentar a velocidade ou reduzi-la, soltar a criatividade ou activar o combate. Os médios são o tipo de jogadores que devem jogar com uma antena na cabeça. Este é um bom prisma para perceber o actual jogo (boas e más respostas) de Benfica e FC Porto no actual momento da época.

Em Barcelos, encarcerado por uma estratégia adversária em bloco-baixo, os médios do FC Porto -sobretudo, Moutinho e Defour, médios interiores subidos do 4x3x3 – responderam às perguntas que o jogo lhes ia colocando sempre da mesma forma. Não diria que são jogadores iguais, mas são semelhantes a reagir ao jogo. Moutinho é, neste sentido, quase um espelho onde todo o sector se reflecte. O erro, é, depois, em vez de se inspirarem nele, antes incorporam esse reflexo. Dizendo durante todo o tempo a mesma coisa (em termos de colocação no terreno, posse e circulação lenta, falta de passes criativos de ruptura) os médios do FC Porto caíram nas areias movediças tácticas montadas por Paulo Alves à frente da defesa.
 
Perante estes cenários (normais no duelo equipa grande a atacar-equipa pequena a defender) faltaram médios zuis-e-brancos para dar respostas diferentes. Nunca definiu se era Defour ou Moutinho a chegar à segunda linha do meio-campo e procurar o último passe. Essa nova resposta, surgiu, claro, com um jogador geneticamente diferente (no cérebro e nas chuteiras): Beluschi. Começou a falar de forma diferente no jogo e os espaços abriram-se. Foi, tarde, mas ficou claro o que é um bom meio-campo a fazer crescer uma equipa: saber dar respostas diferentes ao mesmo problema.
 
O Benfica tem, por natureza, maior capacidade de dar essa linguagem multidisciplinar ao jogo. Javi, Witsel, Aimar, falam os três de forma diferente. Sobretudo Witsel e Aimar. O homem mais avançado está bem definido por principio, Aimar. O elemento que vem desde trás (primeiro, equilíbrio, depois, ruptura) também, Witsel. O triângulo tem, portanto, diferentes linguagens. Não permite jogos de espelhos e seus reflexos.
 
Em toda esta equação, a defesa e ataque, atrás e á frente do sector, são sobretudo sectores que crescem ou encolhem em função do que o meio-campo lhes diz tacticamente. Nessa capacidade de variar respostas no jogo, está a base para as equipas grandes crescerem (ou não) na relva. Uma espécie de radar que detecte, no campo, as zonas de maior perigo e, também, as melhores zonas (as mais libertas) para entrar com a bola e furar o adversário. Tão simples (ou complexo?) como isso.
 

Artigos Relacionados

  • Ranieri, destino fatal Ranieri, destino fatal 24 de Março de 2012 Após Mourinho, é impossível um treinador manter os mesmos jogadores. Do núcleo duro até às paredes, tem...
  • NOTAS 2011/12 (34) NOTAS 2011/12 (34) 24 de Março de 2012 1. Viana e a selecção; 2. Recuar para...atacar; 3. Buscando espaços
  • NOTAS INTERNACIONAIS (22) NOTAS INTERNACIONAIS (22) 22 de Março de 2012 1.NextGean- Futuro `com pernas`; 2. Existe futebol grego?; 3. Gomez é mesmo nº9 craque?; 4. O intruso...
  • “Substituição defensiva” “Substituição defensiva” 22 de Março de 2012 A maior prova de sensibilidade táctica do treinador: meter um jogar mais defensivo e a equipa passar a...
  • Os "recados" da bola Os `recados` da bola 20 de Março de 2012 O “Jardim de futebol” do Braga: Acelerando, passo a passo, passe a passe. Bom futebol sem…“pressão...