Memórias: Rio Ave 81/82. A Caixa de fósforos do «pai» Mourinho

Foto: Rio Ave 81/82, no pelado, o «onze-barba rija» de Félix Mourinho prepara-se para mais um jogo, ia a escrever batalha. Façam o favor de se deter em alguns jogadores em particular.

Em cima, o quarto a contar da esquerda, o gigante carrancudo central brasileiro que não fazia prisioneiros (hoje adjunto no Chelsea), Brito.

A seu lado, um herói chamado Figueiredo, defesa-central, que marcaria o histórico golo da vitória nas Antas.

A seguir, o responsável pela obra: o treinador Mourinho. Homem sábio, que surge aqui ao lado do capitão Duarte, um lateral esquerdo que sabia cortar e sair a jogar na terra batida. Em baixo, primeiro pela direita, um homem que seria campeão europeu poucos anos depois, Quim, e o cérebro lutador da equipa, o Adérito. Em primeiro pela direita, está talvez o mais tecnicamente virtuoso Paquito, e, ao lado, o mais desiquilibrante e rápido, Alvaro. Há também outro jogador em baixo que merece destaque, mas disso falo depois…

O Rio ave de Carlos Brito é hoje uma das mais equipas mais elogiadas, pela sua forma de jogar, do no nosso campeonato, e José Mourinho (que surge nesta equipa, ainda míudo, em baixo) é, pacificamente, considerado um dos melhores treinadores do mundo da actualidade.

Que relação existe? Nenhuma, aparentemente, mas a verdade é que sempre que vejo o Rio Ave ganhar, jogar bem ou surgir entre os primeiros, lembro-me de imediato de outro Rio Ave, aquele que no inicio dos anos 80 marcou o meu crescimento enquanto observador de futebol, num tempo em que a diferença grandes-pequenos (o Rio Ave nessa altura era mesmo uma crónica equipa da II Divisão e realizava em 81/82 a segunda época da sua história na I Divisão.

A anterior fora em 79/80, qundo terminara em 18º lugar se revelava gigantesca, quase intransponivel. Até que, num pelado rudimentar, com bancadas vindas de décadas atrás, peão atrás da baliza, onde toda a gente seguia o jogo de pé aos encontrõeS -um ano depois lá fizeram, do outro lado, uma bancadazita meio em madeira, com estrutura metálica, que até abanava quando o Álvaro, extremo desses tempos arrancava com a bola pelo seu flanco- surgiu, dizia eu, uma equipa que deu nova vida á vida do Rio Ave. Nessa campo de terra batida e poeirenta, verdadeira «caixinha de fósforos» um homem montou uma equipa de combate, «barba rija» e, atenção, esta definição não é irónica pois no ano (83/84) em que se qualificaram para disputar a final da Taça, meses antes desse jogo decisivo do Jamor, o tal treinador impediu que nenhum jogador fizesse até lá a barba, para o super Porto defrontar verdadeiros, até na imagem, homens de … barba rija.

O treinador que fez o milagre do Rio Ave de inicio dos anos 80 era Felix Mourinho, pai do José Mourinho que hoje põe louca a Europa do Futebol. Era um homem muito difeente. No estilo era o oposto. Nada de arrogância ou caras carrancudas. Era tudo simplicidade, sorriso aberto, perfil daquilo que se chama…um homem bom. Com esse Rio Ave, conseguiu, em 80/81 a proeza impossível de ir ganhar ás Antas ao FC Porto, por 2-1, com o golo da vitória marcado no ultimo minuto. Lembro-me bem desse jogo, vi-o ao vivo nas Antas, á chuva, numa tarde de inverno em que ás quatro horas já era quase noite.

Minuto 90. 1-1 no marcador. O Porto pressiona, ganha um canto e a equipa sobe toda. Canto marcado, a defesa do Rio Ave corta e a bola sobra para a entrada da área para os pés de Figueiredo que arranca com ela para a baliza do Porto. Atrás dele, desesperado, braços no ar, um central do Porto bem durinho e inestético de que tenho de falar um dia, o Freitas.

A distância até a baliza do Porto parecia imensa. Quase como atravessar o atlântico, mas o Figueiredo, um médio bem rudimentar, lá chegou, entrou na área e rematou para o …golo. Pouco depois, apito final e o Rio Ave ganhava nas Antas (1-2!) e continuava a ser a equipa sensação da época. Estava em 4ºlugar e jogava numa caixinha de fósforos, o seu pelado onde cada adversário sofria, sofria para sequer conseguir parar a bola..

Memórias Rio Ave 81 82. A Caixa de fósforos do «pai» MourinhoEste Rio Ave do «pai» Mourinho não era no entanto, apenas o onze do terrível e pequeno pelado da Avenida. Viva do combate, é certo, mas também sabia jogar á bola, isso via-se, sobretudo, quando jogava em relvados em condições. Na baliza, uma ou duas épocas depois, foi ai que surgiu o Alfredo, que marcaria época como guarda redes do Boavista (já seria, porém, se não estou m erro, lançado na primeira equipa pelo Quinito). Na defesa tinha, desde logo, um central alto e duro para quem a bola nunca tinha picos: A seu lado o gigante que nunca ria vindo do Brasil: Brito. Esse mesmo, o actual nº2 adjunto de Mourinho no Chelsea e antes no FC Porto. Era um gigante com agilidade que fazia, todo no ar, cortes espectaculares. A seu lado, Figueiredo, o tal do golo nas Antas. Na lateral esquerda, o Duarte, que era advogado, ia bem de cabeça, cortava, orientava e até ia á frente nas bolas paradas. Na direita, jogava o Sérgio, também alto e que me recordo de ver subir muito bem pelo seu corredor.

A meio-campo (embora antes tivesse jogado como avançado centro) tinha um operário que tinha vindo de Bragança, o Adérito, jogava com o nº7 e sabia mandar no jogo. Era quem tinha mais qualidade como jogador de equipa e foi nele que e espelhou o crescimento de outro jovenzinho que estava a despontar, partindo da frente da defesa, para poucos anos depois ser campeão europeu pelo Porto em Viena: Quim. Mais á frente, ouro criativo Paquito, que até o pelado em terra revolta dominava a bola e fintava.

No ataque, faltava um verdadeiro ponta de lança. Quem surgia na frente do ataque, eram, geralmente, homens saídos do banco, como um uruguaio chamado Dodat e o brasileiro Eusébio Patriota. Nenhum deles, porém, faria história…. Foi nesa perspectiva que chegaria, na época seguinte, um perigoso homem de área, o inestético N´Habola. Falhava mais golos que marcava, é certo, mas como falhava muitos era sinal que aparecia muitas vezes em situação de marcar pelo que, mesmo com percentagem de desacertos elevada, bastava marcar alguns para ser um dos melhores marcadores do campeonato.

O jogador mais virtuoso, tecnicamente dotado, era, porém, o extremo Álvaro, que depois sairia para o Boavista. Este Rio Ave do «pai» Morinho terminaria o campeonato 81/82 em 5ª lugar, a melhor classificação de sempre da sua história. Excelente. Não deu Europa pois nessa altura só iam quatro equipas (contando com o vencedor ou finalista da Taça), mas a imagem da sua forma de jogar e lutar será sempre recordada pela memória da bola lusitana de quem teve o privilégio de os ver correr na tal «caixinha de fósforos» de um rua de Vila do Conde…

MemórMemórias Rio Ave 81 82. A Caixa de fósforos do «pai» Mourinhoias da Bola Lusitana

Espaço nostálgico sobre lendárias figuras do velho futebol português. Um exercício de memória cruzada entre a realidade e a forma como, no imaginário construído pelo tempo, as gostamos de recordar, sem recurso a registos ou jornais velhos.

Nesta imagem, outros dois jogadores cruciais na época 81/ 82: o guarda redes titular Trindade e o médio Mario Reis (actual treinador do Maia), então só conhecido por Reis, que já em final de carreira passara do Salgueiros para o Rio Ave, onde era um dos suplentes mais utilizados.

Foi no seguimento desta nota que recebi uma mensagem do leitor Rui Malheiro (um estudioso adepto do Rio ve) que mais do que acrescentar dados, me enviou uma verdadeiro guia histórico não só deste Rio Ave 81/82 como de outros mais antigos. Por isso, o agradecimento especial a Rui Malheiro pelo contributo chave dado na realização deste artigo. Só assim o baú de memórias da bola lusitana ganhará a dimensão merecida.

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