MÉXICO: O futebol como estado de alma

18 de Março de 2005
AMÉRICA-CHIVAS: UM DOS MAIORES ESPECTACULOS FUTEBOLISTICOS DO MUNDO.

Um espectáculo alucinante. Nas bancadas do gigantesco Azteca, cheias muitas horas antes do jogo, mais de cem mil pessoas. Uma atmosfera louca para receber as equipas. Blanco, o inventor da finta da rã, desce do autocarro, saudado em delírio, com o filho pela mão. Antes de subir á cancha, muitos jogadores, ajoelham-se e rezam junto á virgem de Guadalupe. O relvado ferve com a emoção. Frente a frente, América e Guadalajara, o clássico dos clássicos do fútbol mexicano.
Apesar de não ter muita projecção na Europa, a Liga mexicana é hoje uma dos torneios com maior nível e intensidade emocional dentro do futebol mundial. Embora nas últimas épocas, tenham sido equipas como Toluca, Pachuca e UNAM, a conquistar o titulo, os clubes que continuam a movimentar as maiores paixões, desde 1943, são o América, Las Aguilas da capital, e o Chivas, nome porque é conhecido o histórico emblema de Guadalajara. Ao longo de 62 anos, 140 embates, 48 vitórias das Águias, 45 do Chivas e 47 empates. Esta época, o choque entre estes dois monstros do fútbol azteca voltou a ser um hino ao futebol. Grandes jogadores, emoção e golos, em noventa minutos vertiginosos, que terminaram num empate (3-3). Na frente de ataque do América, dirigido por Mario Carrillo, um trio de grande nível, guiada pelos sprints de um renascido Piojo argentino, Claudio Lopes, 30 anos. Junto com o acrobático Blanco, 32, que continua sempre em busca de soltar a sua finta da rã (segura a bola entre os pés e salta com ela por entre dois adversários), e o ponta de lança brasileiro Kléber, um artilheiro pujante e oportuno, são o melhor ataque do campeonato.
Velho símbolo azteca, o Chivas alinha um onze composto só por jogadores mexicanos, entre eles o carismático Palencia, 31 anos, fiel ao seu rabo de cavalo, furando em busca do golo por entre as defesas em zigzags, combinando no ataque com o terrível Bautista que festeja os seus golos atirando para os adeptos enlouquecidos a bota com que o marcou, convidando depois para jantar quem a apanhar. Logo a seguir, volta a calçar outro par e segue na caça ás redes adversárias. Comandado no banco pelo chefe Galindo, é, apesar da garra indomável, é ainda um onze em formação, guiado pelo mastro Morales, um dos melhores jogadores mexicanos da actualidade, um médio com picardia e visão de jogo que alinha sobre a esquerda do meio campo, sector onde brilham outras duas belas promessas, os chicos Medina, Alberto, avançado, e Rafael, ala direito, grande precisão de passe. Ambos sonham roubar o titulo ao bicampeão UNAM, o Pumas, treinado pelo mítico Hugo Sanchez, que depois da fábrica de golos que foi como jogador, tornou-se, talvez aproveitando os ensinamento de tantos anos no futebol europeu, um astuto estratega táctico de um onze onde brilham dois talentosos esquerdinos, Galindo e Augusto, e um excelente médio ofensivo, Fonseca, espécie de segundo avançado, um tipo de jogador muito comum no futebol latino-americano mas raro na Europa. Disputada a partir dos quartos de final em jogos de eliminação directa a duas mãos, a Liga mexicana tornou-se num local de peregrinação obrigatória para quem gosta do chamado futebol emocional.

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