MILAN E A TÁCTICA DO NOVO CAMPEÃO EUROPEU: Entre o 4x4x2 e o 4x3x1x2

30 de Maio de 2003
O 4x4x2 é, de todos os sistemas, o que mais favorece a criação das chamadas pequenas sociedades dentro de uma equipa de futebol. São os tais automatismos que, construídos entre duplas -como os laterais e os alas ou como entre os dois pontas de lança- dão, depois de sincronizadas, dinâmica á táctica. A sua repetição constante pode torná-la, no entanto, previsível e facilmente anulavel. É, tendo em conta esse aspecto que nascem depois as suas variantes, como, no caso do Milan de Ancelotti, o moderno 4x3x1x2.
Como explica Ancelotti, na sua tese de Coverciano dedicada ao 4x4x2, com a qual concluiu o curso de treinador profissional, os movimentos de ataque, neste sistema, só são produtivos, em termos de jogo de equipa, quando o jogador sem bola indicar ao seu portador, através da direcção da sua corrida (diagonal, vertical, procurando tabelas, etc) quando, onde e qual o trajecto que deve ter o passe a ser por aquele executado. Pensando no seu Milan, tal espírito táctico pode ser vislumbrado, por exemplo, quando Rui Costa ou Sedoorf transportam a bola, e, mesmo sem ela, Inzaghi e Shevchenko movimentam-se, á sua frente, buscando espaços vazios de desmarcação, como que lhes desenhando linhas de passe. Em tese, o seu 4x4x2 nada tem a ver, portanto, com o de Sacchi, no Milan dos anos 80/90, com a chamada zona pressionante. Face á tendência defensiva do futebol actual, pode-se dizer que o 4x3x1x2 nasceu mais do recuo sofrido pelo 4x4x3 do que do desenvolvimento ofensivo do 4x4x2. Na prática, esta é a variante que maior equilíbrio colectivo oferece á maioria dos treinadores do dito futebol moderno, pois, ora com duas linhas de quatro jogadores ou ora com uma de quatro e outra de três á frente do guarda-redes, a cobertura de todos os espaços é sempre feita de forma muito mais segura. Ao mesmo tempo, nasce um novo regista, falso médio-falso avançado, capaz de, com inteligência táctica, traçar, com ou sem bola, todas as coordenadas do colectivo. No papel, Milan e Juventus, podem jogar, na maioria das vezes, no mesmo sistema, o 4x3x1x2, mas, depois, em campo, a dinâmica táctica, incutida pelos jogadores e seus movimentos, é muito diferente. Desta forma, não é comparável, por exemplo, a intensidade e as mudanças de ritmo impostas, na Juventus, por Davids e Nedved, com as protagonizadas, de forma mais lenta e recortada, no Milan, por Rui Costa e Seedorf. A aliança entre a indústria muscular (Gatuso) com a classe técnica (Pirlo, Sedoorf e Rui Costa) daria, porém, em Old Traford, um novo ritmo aos movimentos do onze de Ancelotti, sobretudo na zona central do relvado. No fundo, tratou-se de mesclar, em 90 minutos, as duas faces do 4x3x1x2, o tecnicista e o musculado, já ensaiadas durante a época.

TÁCTICAS: O 4x2x3x1 e as duas faces do 4x3x1x2 do Milan de Ancelotti

Em traços largos, ao longo da época, o desing táctico do Milan de Ancelotti conheceu, três fases: 1º O 4x3x1x2 tecnicista: No inicio, vendo Rui Costa, Rivaldo, Seedorf, Pirlo, Shevchenko e Inzaghi juntos, pensou-se estar face a uma revolução do belo jogo. Bastou, no entanto, alguns resultados negativos para Anceloti resgatar o defensivismo, abandonando o belo e dinâmico 4x3x1x2. Nesse sistema, utilizado na primeira metade da temporada, o onze soltava-se, na saída para o ataque, pelo menos com três jogadores á frente da linha da bola. Para a eficácia desse sistema, foi decisivo o sacrifício de Seedorf, adaptado ao flanco esquerdo de forma a equilibrar um meio campo que se tornou idolatrado por alinhar com dois registas: Pirlo, regista defensivo, cujo recuo no terreno foi a maior novidade de posicionamento táctico desse período, e Rui Costa, regista ofensivo, atrás de Rivaldo, que descaía na direita, ao lado de Inzaghi, um ponta-de-lança exímio a jogar no chamado limite do fora-de-jogo. 2º O conservador 4x2x3x1: Na segunda metade da época, Ancelotti, perante o decréscimo de forma de Pirlo, recuou para 4x3x2x1, sistema de um só ponta de lança -visto Rivaldo ter sempre tendência para recuar no terreno- passando o onze a estender-se, em campo, num longo 4x2x2x1x1. 3º O 4x3x1x2 musculado: Com o avançar da época, porém, mais se intensificaram as tendências conservadoras de Ancelotti, embora o sistema táctico preferencial tivesse voltado a ser o 4x3x1x2, com dois pontas de lança Inzaghi-Shevchenko á frente do trequartista Rui Costa. Apesar de, no papel, o sistema ser o mesmo do elogiado inicio da época, a dinâmica colectiva perdeu, no entanto, classe, fruto da opção por um meio campo mais guerreiro e menos tecnicista, gerido pela raça de Gatuso e pelo carácter lutador de Ambrosini e Brochi, enquanto Rivaldo passava a sentar-se no banco. No decorrer do jogo, depois, a principal alternativa para abrir a frente de ataque, reside, na entrada de Serginho, muito rápido a rasgar pelo flanco esquerdo.

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