O FC Porto tem Moutinho para pegar no jogo atrás, o Benfica tem Witsel (ou Aimar), o Sporting não pede isso a ninguémEm rigor, o relvado de jogo tem sempre as mesmas dimensões durante 90 minutos. 105x70m. no caso das quatro linhas de Coimbra. No plano táctico do jogo, já não é bem assim. O espaço em que o jogo se disputa e as equipas colocam os seus jogadores, diminuiu ou aumenta conforme quem defende ou ataca. Ilusões de óptica, mas visões bem reais na estratégia de jogo e luta por o controlar, das quais resultam as estranhas frases como fazer campo pequeno ou campo grande. Tacticamente, cada dimensão corresponde a uma intenção: encurtá-lo (reduzir/fechar espaços) para defender, alarga-lo (abrir/esticar espaços) para atacar. O Académica-Sporting foi uma boa forma de entender esta alternância de espaços.
Durante todo o jogo o Sporting foi obrigado a desenvolver o seu processo ofensivo em 30 metros, espaço em que os jogadores da Académica colocavam o jogo, junto à sua área. O campo ficava pequeno nessa altura. Depois, recuperada a bola, procuravam logo, sem perder posicionamento defensivo, lançar o contra-ataque, aumentando nessa altura a distância entre-sectores (meio-campo e ataque). E o campo passava a ficar maior nesse momento.
O grande desafio que, então, se coloca à outra equipa é conseguir tirar o adversário desse casulo táctico. Não é fácil. Muitas vezes, passa por um recuo estratégico das suas linhas, procurando atrair os jogadores adversários para esse novo terreno livre que surge à sua frente. O Sporting tem dificuldade em fazer isso. No final, Domingos queixou-se que a equipa caiu demasiadas vezes na tentação do jogo directo. É verdade mas o problema nasce porque lhe falta uma primeira linha de construção a meio-campo que atraia os adversários para esse tal avanço armadilhado.
O seu actual nº6, Carriço, alheia-se desses momentos e os outros médios, Schaars-Elias, jogam sempre muito subidos. Assim, são os centrais, sobretudo Polga, a sair com a bola. Dão alguns passos em frente em terreno livre, não vem ninguém por perto, detectam o resto da equipa lá na frente e metem então um passe longo, perante uma equipa adversária tacticamente sentada em bloco-baixo.
Não penso que, estrategicamente, o maior problema seja Carriço, embora o jogador não exista em posse construtiva. Os pivots do FC Porto (Fernando) e do Benfica (Javi Garcia) também não o são por natureza, mas, nestes casos, enquanto o primeiro tem Moutinho que recua para vir buscar a bola atrás e sair a jogar, o segundo tem Witsel (ou até Aimar) para fazer o mesmo. Ambos fazem a tal primeira linha de construção a meio-campo. Algo que o Sporting não tem mas que poderia ter em Schaars. O holandês, porém, nunca recua para assumir essa saída de bola. Assim o campo permanece pequeno quase todo o jogo. Pelas características dos jogadores e/ou por vocação de jogo. Por isso, no fim, o resultado festejado pela Académica tinha um grito táctico claro dos seus jogadores: "Mister, encolhemos o relvado!".
