No pôr do sol da Florida, no crepúsculo de Tampa Bay, como no mar das caraíbas que namorava o pueblo de Santa Marta na Colômbia, Carlos Valderrama ainda parece o mesmo Pibe que há três décadas atrás começou, no Unión Magdalena, a dar os primeiros pontapés na bola, pela mão de seu pai Carlo Jaricho, então defesa central do clube que, em breve, iria descobrir o jogador mais famoso da história do futebol colombiano.
Em 1996, depois de passar por França e Espanha, deixou La cancha de Barranquilla e partiu rumo ao American Dream. Hoje, com 40 anos, tornou-se uma estrela do soccer, onde passeia o seu futebol rendilhado, poema de técnica. Conserva o mesmo estilo dengoso e cerebral. O cabelo enorme, louro e desordenado, ecos do Gullit branco, as pulseiras e os colares da Sierra Nevada, a camisola por fora dos calções e o olhar meio perdido, sempre de poucas palavras Todo bien, todo bien, repete ao ritmo do toque, o estilo de jogo que, nos anos 90, deu uma identidade própria ao fútbol colombiano de Pacho Maturana.
Do outro lado, nas margens do atlântico, está outro outrora profeta do toque, Adolfo Valência, El Trem, jogador do Metro Stars, o rival de Nova Yorke, onde, nos anos 70, explodiu o novo futebol americano, a meio caminho entre o desporto e o espectáculo, distante dos longínquos anos 50, quando no Mundial do Brasil venceu a Inglaterra por 1-0. Tudo começou em 1975, quando, por cinco milhões de dólares, o Rei Pelé, então com 34 anos, assinou pelo Cosmos de Nova Iorque, equipa propriedade da Warner Comunication. O sucesso comercial do Cosmos motivou outras grandes multinacionais a investir no soccer, e, desta forma, muitas estrelas já veteranas, como Cruyff, Beckenbauer, Best, Eusébio e Muller, entre muitos outros, rumaram aos states para um milionário fim de carreira. Foram os tempos áureos da NASL, National Soccer League, jogada em relva sintética e com regras própria que não permitiam empates.
DA NSL Á MSL

Toda esta encenação não tinha, no entanto, qualquer base sólida. Alguns anos depois, com a fuga dos milhões de dólares dessas multinacionais, o soccer voltaria a cair na sombra dos grandes desportos norte americanos como o basebol, basquetebol ou football americano, de onde só voltaria a sair em meados dos anos 90, quando Havelange conseguiu levar o Mundial para os EUA. Os estádios encheram-se, mas não de americanos. Espécie de microcosmos do mundo, as bancadas foram invadidas por milhares de emigrantes de todo o mundo, seduzidos pelo american dream, mas sempre saudosos dos genuínos traços culturais dos seus países. Baseado sobretudo na chamada segunda geração desses emigrantes, o soccer reconstruiu a sua imagem, formou uma selecção internacionalmente competitiva e, a partir de 1996, criou o seu novo campeonato, a MSL, Major Soccer League, que, apesar de apostar em jovens valores americanos, conserva os mesmos traços mercantilistas de outrora, sendo suportado por financiamentos privados e continuando a apostar, embora menos, em estrangeiros no final de carreira. As negociações e contratações de jogadores é feita apenas pela própria Liga, e não pelos clubes, estando sujeitas a um plafond salarial que tem provocado grande contestação. No caso de perderem o seu suporte financeiro, a gerência dos clubes passa a MSL, o que sucede actualmente com San Jose, Dallas e Tampa Bay, enquanto o DC United está a venda. Adorado pela á comunidade latino americana de Mutiny, Valderrama assinou por mais dois anos e espera continuar a perfumar, até aos 41 anos, o soccer com a sua técnica. Para ele, como para Stoichkov em Chicago, estes anos no futebol americano não são meros retiros dourados, como pareceu ser a intenção de Lotthar Matthaus, que, a época passada, passou, sem glória pelo Metro Stars.
Em Chicago, o búlgaro Stoichkov, com 34 anos, conserva ainda o mesmo estilo rebelde e impressionista. Foi eleito para o onze ideal do campeonato – que joga o Al Star game, á imagem da NBA- e, há pouco, renovou por mais dois anos. Impulsionada pelo seu carisma, o Chigago Fire foi a equipa mais ofensiva e elogiada da última MSL e embora tenha perdido a final para o Kansas, venceu o Lamar Hunt US Cup, o torneio mais antigo do futebol americano. Esta época, o búlgaro irascível aposta em recuperar o trofeu máximo.
KANSAS WIZARDS:
OS FEITICEIROS AMERICANOS

Derrotando na final por 1-0 o Chicago Fire de Stoichkov, com um golo de Mornar, o onze de Kansas City Wizards (em inglês, feiticeiros) conquistou pela primeira vez o titulo da MSL. A base do sucesso desta equipa que no inicio da época não era um forte candidato, esteve no seu sagaz contra ataque, liderado pelo veterano escocês Mo Johnston, xx anos, e, sobretudo, no sólido sector defensivo formado por Peter Vermes, Nick Garcia e Brandon Prideaux.
Na baliza, está, com 32 anos, um guarda redes que após alguns anos sem brilho –chegou a trocar o soccer pelo football americano-, regressou aos seus grandes dias: Tony Meola. Em 94, ele foi, junto com o futebolista-cantor Alexi Lalas, hoje no Los Angeles Galaxy após um ano de retiramento, e um grupo de figuras como Tab Ramos, Claudio Reina, Marcelo Balboa, Coby Jones, entre outros, um dos grandes símbolos do novo soccer que, por fim, parecia cativar o coração americano.
THE AMERICAN STYLE

Quase todas as grandes soccer stars revelam um apelido cujas raízes moram longe dos EUA. Olhando a incomensurável riqueza multirracial e étnica que o continente americano comporta, pode-se imaginar, no futuro, um futebol, para quem a miscegenação de raças é uma dádiva, de grande nível internacional. Há que trabalhar sob a formação, onde poderão estar, quem sabe, os milhares de jovens negros, mais cativados por outros desportos, que habitam os subúrbios das grandes metrópoles. Inseridos num plano global, poderão produzir, num futuro a longo prazo, um verdadeiro estilo de futebol americano, hoje sem identidade própria, pedido entre o rudimentar perfil britânico e o tecnicista e aguerrido estilo latino americano.
Bruce Arena, o seleccionador nacional, antigo jogador, ele próprio filho dessa babilónia de culturas que é a sociedade norte americana, será o homem ideal para entender e congeminar essa nova imagem do soccer, hoje simbolizada, no Velho Continente, pelo jovem Lando Donavan, 19 anos, jogador do Bayer Leverkussen. Embora passe quase todos os jogos da Bundesliga no banco, ele personaliza, pela sua imagem e alegria com a bola nos pés, o futuro do futebol americano, expresso nos jogos pela selecção, tendo já ter dito ser seu desejo ingressar na MSL.
EQUIPAS E SOCCER STARS MLS 2001

Criada por empresas privadas, a MLS, Liga americana de futebol, disputa-se em circuito fechado, sem subidas ou descidas. O número de equipas depende dos financiamentos que os seus proprietários decidam realizar. Esta época, porém, face ao decréscimo de espectadores nos estádios, os clubes-empresas renunciaram a contratar grandes figuras além fronteiras, sobretudo depois dos fracassos, a época passada, de Luis Hernadez no Los Angeles, foi a contratação mais cara da Liga e não trouxe um único espectador a mais, afirmou o comissário Don Garber, e, sobretudo, de Matthaus no Metro Stars.
Assim muitos optaram antes por apostar em jovens talentos oriundos sobretudo do soccer universitário, as escolas de formação nos EUA.
Estas são as principais figuras da MLS 2001, disputado por séries, ás quais se seguem os playoffs, que, após duas eliminatórias, terminam num jogo final. Este Sábado inicia-se a sua 6ª edição com o campeão Kansas Wizards a receber o DC United.
DIVISÃO ESTE
METRO STARS
Treinador: Octavio Zambrano
Estrelas: Tab Ramos, Daniel Hernandez, Pedro Alvarez e Valencia (Colômbia), Clint Mathis
NEW ENGLAND REVOLUTION
Treinador: Fernando Clavijo
Estrelas: Eric Wynalda, John Harkes, Wolde Harris (Jamaica), William Sunsing (Costa Rica), Mauricio Wright (Costa Rica)
MIAMI FUSION
Treinador: Ray Hudson
Estrelas: Carlos Llamosa e Diego Serna (Colômbia), Ian Bishop (Inglaterra), Alex Pineda (Honduras), Jim Rooney, Tyrone Marshall (Jamaica)
DC UNITED
Treinador: Thomas Rongen
Estrelas: El Diablo Etcheverry e Jaime Moreno (Bolívia), Bobby Convey, Mike Ammann, Santino Quarantana (16 anos, o mais jovem jogador a alguma vez jogar na MSL)
DIVISÃO CENTRAL
CHICAGO FIRE
Treinador: Bob Bradley
Estrelas: Stoichkov (Bulgária), Peter Nowak (checo), Josh Wolff, Kovalenko, Crhis Armas, Diego Gutierrez.
TAMPA BAY MUTINY
Treinador: Alfonso Mondelo
Estrelas: Valderrama (Colômbia), Mamadou Big Mama Diallo, Craig Demmin (Trinidad e Tobago), Joe Addo, Steve Ralston
COLUMBUS CREW
Treinador: Tom Fitzgerald
Estrelas: Warzycha (Polónia), Tenya Bonseu (Uganda), Jonh Perez (Colômbia), Dante Washington, Brian West
DALLAS BURN
Treinador: Mike Jeffries
Estrelas: Lubos Kubik (Republica Checa), Ariel Graziani (Equador), Oscar Pareja (Colômbia), Aleksey Korol
DIVISÃO OESTE
KANSAS CITY WIZARDS
Treinador: Bob Gansler
Estrelas: Tony Meola, Peter Vermes, Roy Rocket Roy Lassiter, Mo Jonhston (Escócia)
LOS ANGELES GALAXY
Treinador: Sigi Schmid
Estrelas: Alexi Lalas, Simon Elliott, Paul Caliguri, Luís Hernandez (México, só jogará meia época)
COLORADO RAPIDS
Treinador: Tim Hankinson
Estrelas: Jonh Spencer (Escócia), Neathan Gibson (África do Sul), Marcelo Balboa, Adin Brown
SAN JOSE EARTHQUAKES
Treinador: Frank Yallop
Estrelas: Ronald Cerritos (ex-universitário), Jeff Agoos, Dario Brose, Richard Mulroney