Mourinho e o «avançado-total»

19 de Março de 2010 20:05
Durante o jogo, haverá sempre um lugar para atacar que estará vazio. O grande problema é descobri-lo…

 

Quando uma equipa salta para o relvado é normal o treinador estar na entrada do túnel para saudar os jogadores, dando-lhes palmadas de incentivo, um a um até, brincando, puxando por eles, pequenas conversas, intimidades de grupo. O que não é tão normal é quando quem faz isso é o treinador da…equipa adversária aos jogadores que vai defrontar. O protagonista desta história é, claro, José Mourinho e o onze que entravam em campo eram os…jogadores do Chelsea antes do aquecimento. Impassível, ficou ali o tempo todo. Ancelotti apareceu depois, cumprimentaram-se, conversa breve e o italiano foi embora. E, assim, perdeu os seus jogadores de vista. Ficou Mourinho. Poderia estar em todos os locais mas sabia que aquele era o mais importante. No fim, voltou a saúda-los todos à saída.
Claro que este episódio, por si só, não ganha um jogo, mas pode…começar a ganhá-lo. É uma diferente noção táctica da “ocupação de espaços”. Nesse sentido, Mourinho ganhou em antecipação o “espaço” da…entrada do túnel. Antes, disse que tinha o jogo muito bem preparado. Assistira ao DVD da primeira mão por 7 vezes. E, atenção, não 7 vezes 90 minutos seguidos. 7 vezes mas com vários pause, rewind, play, volta a parar, volta a repetir.
Um grande treinador é cada vez mais aquele que consegue perceber todos os factores que, fora do relvado, influenciam um jogo e consegue antecipá-los (controlando-os). Depois, foi a bola na relva. O 4x3x3, o grande passe de Sneijder, o fantástico remate de Eto`o.
Diz-se que os grandes jogos se decidem por detalhes. Pois bem, onde esteve então o detalhe decisivo deste Chelsea,0-Inter,1? No passe, no remate ou na entrada para o relvado?
 

O «avançado-total»

O chamado espaço de finalização, uma zona onde só parecem poder mover-se os verdadeiros predadores do golo. Pensa-se na velha tradição do ponta-de-lança. Cada vez mais, porém, esse protótipo goleador desvanece para dar lugar ao chamado avançado-total. Nas grandes equipas, são vários, ao ponto de transformar a linha avançada do 4x3x3, onde o «3» ofensivo. Em vez da formação clássica (ponta-de-lança e extremos) é agora ocupada por três avançados que deambulam (trocam posicionalmente) por toda a frente de ataque.
O Chelsea-Inter, autêntico choque de locomotivas tácticas em 4x3x3, foi um bom exemplo. Com o bloco, de início mais médio-baixo no lado italiano, mas com o decorrer do jogo subindo à custa da acção entre-linhas de um jogador enganche que nunca o deixou partir nas transições, Sneijder, o pequeno holandês furou pelas montanhas de músculos e disse como só o requinte da técnica de recepção-temporização-passe pode serenar o jogo mais intenso e atlético.
Dos seis avançados em campo, apenas Malouda, no Chelsea, era um extremo/ala puro. Abriu bem esquerda, mas o seu espaço foi sempre comido em antecipação pelas basculações de Motta e, depois, fechado pela presença de Maicon, que realizou talvez o seu jogo mais posicional desde o incio da época. Noutro ponto, Anelka e Drogba procuravam os chamados movimentos de «x» para se cruzarem ente centro-faixa-centro e assim encontrarem espaço de finalização. O Inter nunca dançou nas marcações e quando isso sucedeu, Samuel e Lúcio transformaram-se em muros. A mudança para 4x4x2, com a entrada de Joe Cole, não alterou um milímetro às noções de cobertura defensiva italiana.
 
Para Mourinho, a importância de Sneijder é tanta que não é exagero dizer existirem esta épocas duas equipas do Inter: uma com Sneijder, outra sem Sneijder. A de Londres, teve o duende holandês. E, claro, foi muito melhor. Foi ele quem fez o passe, preciso, para isolar Eto`o em desmarcação e rematar em corrida, após recepção perfeita. Gestos divinos em espaços de finalização. Eto`o será hoje, junto com Rooney, o melhor exemplar do avançado-total que o estilo do futebol moderno de top consagrou. No seu caso, nem o facto de ter ao lado um avançado tipicamente nº9 como Milito o encostou para uma faixa, embora muitas vezes caia lá. Nunca perde de vista, porém, como voltar para o centro. E Milito também percebe a importância destas trocas e está mais jogador (isto é, joga em maior largura do campo) esta época. Quase sempre descaído sobre a esquerda, Pandev, também percebe a lógica destas cambiantes. A lógica é simples: durante o jogo, haverá sempre um lugar no campo que estará vazio.
 

 

 

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