MUNDIAL 2002 - Antevisão- OS GRANDES DEBATES TÁCTICOS

17 de Abril de 2002
QUESTÕES TÉCNICO-TÁCTICAS QUE ASSALTAM AS GRANDES SELECÇÕES
A 44 dias do inicio do Mundial e a um mês da entrega das listas de jogadores seleccionados, cuja data limite de chegada á FIFA é a 23 de Maio, pelos quatro continentes, cada seleccionador debate-se com os últimos dilemas na formação do onze que irá apresentar no Oriente. Desde que 1930, o capitão uruguaio Nasazzi, o defesa que de tão intransponível até se dizia nem deixar passar o raio X, formou, junto com Alberto Supicci, a selecção celeste que conquistaria o primeiro Mundial da história, em cada quatro anos, os mesmo dilemas, assaltam a mente dos Feiticeiros do banco. Confusos, pressionados, cépticos ou dogmáticos, todos aproveitam os últimos jogos de preparação para tomar as decisões finais.
Na base de muitas dúvidas, moram, entre outros factores, a forma dos jogadores, a opção entre o colectivo e as individualidades, as estrelas credenciadas ou as grandes revelações. Em função dessas escolhas dependerá muito o sistema táctico a utilizar. Desde a Velha Gália até ao escaldante Brasil, emergem casos que apaixonam os teóricos da bola. É por isso que Terry Venables dizia, na época em que era seleccionador inglês que “este é um cargo sensacional, até...a bola começar a rolar!”.

FRANÇA: A loja de mestre Zizou

Sistema tácticos preferenciais: 4x2x3x1 / 4x3x1x2 / Questões em debate: um ou dois pontas de lança e os três trincos

Em 1998, quando se sagrou campeão do mundo, a França de Aimê Jacquet, acusado de ser um defensivista, actuou num sistema de 4x3x2x1, com três médios defensivos de grande condição atlética – Deschamps, Petit e Desaily- colocados na zona central do terreno á frente da defesa e nas costas de Zidane, mas nem por isso com três trincos no sentido estrito do termo. O que sucede é que esses homens eram jogadores excepcionais tanto em rendimento atlético como em capacidade de execução. Mais do que fechar a defesa, asseguravam o balanço do onze no espaço entre os defesas e os avançados. Para a história ficaria, no entanto, o mito dos três trincos. Dois anos depois, no Euro-2000, com Roger Lemerre, surgiu esquematizada num mais criativo 4x2x3x1, onde no lugar dos três trincos, surgiam dois médios mais adiantados, colocados sobre as alas - Henry, Pires ou Wiltord- de onde partiam, muitas vezes desde o meio campo, para onde recuavam buscando fugir ás marcações, surgindo depois, de surpresa e em corrida, no apoio aos avançados e ao maestro Zidane, o último nº10 á moda antiga do futebol actual. Em ambos os casos alinhava só com um ponta de lança (Dugarry ou Guivarch, em 1998, Anelka ou Trezeguet, em 2000). No presente, passados mais dois anos, Roger Lemerre, prepara nova alteração táctica, passando a utilizar, como os jogos particulares de preparação têm indicado, um sistema de 4x3x1x2, onde a principal inovação reside na utilização de dois pontas de lança. Algo invulgar como sistema de referência entre selecções latinas nas grandes competições internacionais. Em campo, tal opção irá colocar Zidane nas costas de Trezeguet e Henry, regressando, atrás, os três médios defensivos de grande pulmão e controle de bola, muito mais do que meros trincos: Vieira, Petit e, talvez Makalele, que joga nessa posição no Real Madrid.

BRASIL: A utopia e a arte

Sistemas tácticos preferenciais: 3x5x2 / Questões em debate: Composição do meio campo e ataque (o caso-Romário)

Duzentos milhões de seleccionadores nas bancadas e um homem, Luís Filipe Scolari, no banco para decidir por todos. Adepto da tradicional escola brasileira, pouco tacticista, mas, contagiado pela atmosfera, também se converteu aos novos tempos e, após o sucesso nos clubes, também adoptou na selecção o 3x5x2, sistema introduzido pela primeira vez no Brasil, assim como o líbero, por Lazaroni, no Mundial-90, mas sem grande sucesso. Com a defesa «a 3», chefiada por Lúcio, compensando com a sua pujança e sentido posicional, as falhas do irregular Roque Júnior, e dois laterais ofensivos indiscutíveis, Roberto Carlos na esquerda e Cafu, na direita, os debates tácticos e, sobretudo, de nomes, situam-se no meio- campo e no ataque. A composição do meio campo, depende das intenções de Scolari serem, em cada caso, de cariz mais ofensivo ou defensivo: Com vocação atacante, alinhará Juninho Paulista, actuando Rivaldo um pouco mais adiantado. Com tendência defensiva, recorrerá, como Parreira em 1994, a dois trincos, passando o cabeça de área Emerson, a ter a companhia de Vampeta na frente da defesa. O trio ofensivo de apoio aos pontas de lança será formado, tudo indica, por Rivaldo-Juninho Paulista e Ronaldinho. No ataque, Ronaldo, em busca da melhor forma, e o homem que todos contestam, Luizão, devido á forte corrente de opinião que pretende ver Romário no Mundial. Tudo aponta, porém, apesar da convocação de Euler, o extremo esquerdo que joga ao lado Romário no Vasco da Gama, para o jogo com Portugal, que o baixinho ficará de fora. Outros nomes que Scolari poderá, entre muitos outros, recorrer são Elber, Amoroso, Marcelinho Paraíba e, claro, Jardel. A convocação de Euler, abriu, inclusive, o debate do Brasil poder jogar com dois extremos. O outro, seria Denilson, na direita, em excelente momento de forma no Bétis e muito mais adulto como jogador em comparação com a loucura que o rodeou há quatro anos.

ALEMANHA: Ballak e a nova geração da força

Sistemas tácticos preferenciais: 3x5x2 / Questões em debate: A recuperação de Deisler e Scholl e a falta de grandes avançados

Historicamente, amarrada ao 3x5x2, variante ofensiva do 5x3x2, a selecção germânica de Voller–apesar do 4-4-2 do Bayern de Hitzeld- irá manter o mesmo sistema nos relvados do Oriente. Aos poucos, a crise geracional começa a ser ultrapassada. Tudo mudou desde que voltaram a aliar, como nos grandes triunfos do passado, a foça e a técnica. Basicamente o seu velho sistema, emoldurado num contexto essencialmente atlético, necessitava, para ganhar dinâmica atacante, de um bom médio ofensivo, onde a criatividade cavalga aliada á técnica. Neste momento, com Ballack, a Alemanha resgatou esses novo chefe de orquestra, residindo agora a principal preocupação de Voller em recuperar outros dois mestres da técnica musculada: Deisler, médio ala direito, e Scholl, um pouco mais recuado sob a zona central, o complemento ideal, com o seu jogo apoiado, para soltar Ballack nas acções ofensivas não o desgastando com grandes preocupações de marcação, a cargo de Hamman e, sobretudo, dos trincos, Ramelow ou Jeremis, de regresso á sua melhor forma. É o nascer da novo motor da máquina germânica, situado no meio campo, desenhado como um triângulo invertido, sem rombo, abrindo nas alas, apostando nas combinações ofensivas entre os volantes e a subida dos laterais, entre eles o renascido Ziege, sob a esquerda. O principal problema de Voller reside no facto dos avançados das grandes equipas da Bundesliga serem estrangeiros: Elber, Pizarro e Santa Cruz, no Bayern Munique, Koller e Amoroso, no Dortmund, enquanto, Kirsten já tem 36 anos e Neuville, um suíço naturalizado, não é um avançado centro típico, gostando mais de entrar pelos flancos. Assim, recorre a Janker, suplente no Bayern, Bierhoff, longe do seu fulgor, e Bode, o possante dianteiro do Werder Bremen, que, apesar do seu espirito de sacrifício, está muito longe da classe dos seus antepassados no posto.

ARGENTINA: Táctica em terra de mágicos

Sistemas tácticos preferenciais: 4x4x2 / 3x5x2 / Questões em debate: Crespo ou Batistuta, a dupla esquerdina Sorín-Kily Gonzalez e o regresso de Simeone

Apesar de todos os analistas afirmarem que a Argentina é neste momento a grande favorita ao titulo, Marcelo Bielsa, o seleccionador, continua a repetir que a melhor equipa do mundo só se conhecerá na prática e não na teoria. O onze, técnico, artístico e guerreiro, tem um estilo definido, alternando entre o 3x5x2 ou 3x4x3, mas revela alguns pontos que suscitam debate. Na baliza, Burgos do At. Madrid está longe de inspirar tranquilidade. Alterna defesas fabulosas com erros infantis que comprometem toda a equipa. Á sua frente, dois centrais imponentes, Ayala e Samuel, mas com uma dureza excessiva que em cenário de Mundial pode provocar expulsões. Sob os flancos, o principal dilema situa-se no corredor esquerdo, ocupado pela a dupla Sorín-Kily Gonzalez. Ambos são dois jogadores de classe, mas, sob o ponto de vista da dinâmica táctica, pouco consistentes. Sorín, o carrilero, é muito forte a atacar, com poder de corte, tackles e jogadas de antecipação, mas, muitas vezes, com as suas constantes subidas, descura o aspecto defensivo. Kily, mais do que um extremo é um médio volante com pendor ofensivo. Tal nota-se no Valência. Causa desiqulibrios quando surge de surpresa no vértice da área, vindo de trás, a tabelar ou a tentar o remate, mas que perde efectividade quando permanentemente solicitado a criar perigo com marcações em cima. Neste caso, falta-lhe o estilo do verdadeiro extremo, aquele que encara o defesa, dribla-o e vai á linha centrar. No ataque, continua o debate sobre qual ponta de lança utilizar: Crespo ou Batistuta. Não escolher Crespo é perder um goleador que, aos 26 anos, passa a melhor fase da sua carreira. Preterir Batigol, é recusar um goleador histórico, que apesar dos 33 anos, continua mortífero. Jogar os dois? Pouco provável, no plano da complementaridade, pois tem estilos demasiado iguais.

ITÁLIA: Sob a batuta de Totti

Sistema tácticos preferenciais: 3x4x1x2 / 4x4x2 / Questões em debate: A posição de Del Piero e quem a jogar ao lado de Vieri na frente

De um lado os imperativos do colectivo, herdado de dogmáticos como Pozzo, Rocco e Valcareggi. Do outro, os amantes dos artistas, os piedi buoni, como lhes chamou Bernardinni. A grande questão táctico-existencial de Trapatonni, um defensivista por definição mas adepto do 3x4x1x2, situa-se, como sempre, depois de uma lesão ter afastado dos relvados o ultimo romântico do Calcio, Roberto Baggio, entre o meio campo e o ataque. Como concilar Del Piero, Totti, Vieri, Inzaghi e Montella? Um enigma, sobretudo face ao desejo de Del Piero actuar, como na Juventus, como segundo avançado, junto ao ponta de lança. Ora estes dois postos estão preenchidos por Inzaghi e Vieri, sendo o substituto natural destes o aeroplanino Montela, num fabuloso momento de forma. Como nº10, o trequartista, não existem dúvidas: joga Totti. Atrás dele, dois médios defensivos, a escolher entre Tommasi, Albertini e Di Biagio, fortes sobretudo na recuperação da bola. Todo o sistema de Trapatonni, como aliás a genuína escola italiana, só parece ter sentido com a presença de um grande ponta de lança, possante, rompedor e com grande poder de concretização. Ou seja, Vieri. A eventual alteração táctica do 3x4x1x2 para o 4x4x2, exige, por sua vez dois volantes sobre os flancos, Doni, na esquerda, e Zambrota, na direita, ambos muito fortes a causar desiquilibrios nas aproximações á área adversária e com sentido de baliza. No actual sistema, tal missão é feita apenas por Doni, enquanto Zambrota joga um futebol mais de contenção. No passado, parece repousar o velho Catenaccio, mas vendo como as selecções italianas, em qualquer época, não se incomodam, e até se sentem confortáveis, em terem sempre muito menor posse de bola durante o jogo e parecem mais ambiciosas sem ela nos pés do que quando a recupera, muitos ainda sentem que é o seu espirito que molda toda a alma do futebol italiano.

ESPANHA: Guardiola e o Tridente

Sistemas tácticos preferenciais: 4x4x2 / 4x3x2x1 / Questões em debate: O tridente Raul-Valerón-Tristan e o regresso de Guardiola.

Longe vão os tempos da fúria. Hoje, a Espanha joga outro futebol, mais técnico e perfumado. Camacho, um filho da velha escola, aposta tacticamente, no 4x4x2, com doble pivot, dois trincos, talvez Baraja e Helguera, não se detectando um claro médio centro para organizar jogo, ficando, assim, difícil encaixar Xavi na manobra do médio campo. Tal opção teve origem, sobretudo, devido á ausência de Guardiola, a bússola natural do onze, durante quase toda a época. Sem ele, Camacho adoptou o doble pivot, colocando horizontalmente a linha média, prescindindo do rombo, um esquema que geometricamente se desenha por um triângulo invertido com o vértice colocado ofensivamente para romper as defesas adversárias. Na sector defensivo, o lateral direito do Barcelona Puyol, no qual muitos revêm o estilo furioso do Camacho jogador, actua como defesa central, ao lado de Nadal, mais cerebral mas algo lento. Tacticamente, porém, o tema mais falado, sobretudo após a fraca exibição contra a Holanda (com a equipa a jogar em 4-3-2-1), centra-se na reclamada utilização do tridente ofensivo Raúl-Tristan-Valerón, actualmente talvez os três jogadores espanhóis em melhor momento de forma. Para tal, Camacho, teria, no entanto, de mudar o sistema, prescindindo de volantes nas bandas, reforçando o centro com, por exemplo, o trio Mendieta-Baraja-Sérgio. Um esquema, no fundo, parecido com o francês. Outra solução seria o 4-2-3-1, sistema do Real Madrid, encostando Valerón á esquerda, permitindo, á direita, a manutenção de Joaquín, como extremo clássico, mantendo os dois trincos, descaindo um deles sobre a esquerda, o flanco mais fraco dos espanhóis, onde falta uma verdadeira referência, sendo De Pedro e Vicente os dois nomes com melhores condições para fazer todo o corredor. Todas estas opções tácticas teriam de ser adaptadas no caso do regresso de Guardiola, o prolongamento de Camacho em campo. A sua convocação ou não é grande questão do momento.

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