SELECÇÃO “TAMAGOCHI”

Pela primeira vez na sua história o Japão qualificou-se para o Mundial. Em França apresentou-se á sociedade futebolistica jogando um futebol que, pela sua movimentação exótica, cativou muitos olhares. No onze nipónico, sem contar com a legenda Kazu Miura, brilhou um novo samurai: Nakata, 21 anos, jogador do Bellmare Hiratsuka. Um virtuoso maestro que, com criatividade, perfumou o estilo corrido da equipa, oferecendo-lhe um toque de classe. A sua personalidade, dentro e fora do campo, parece, no entanto, distante da mentalidade do futebol e da cultura japonesa.
Conta Azkagorta, técnico basco que levou a Bolivia ao EUA-94, quando há dois anos foi para o Japão treinar o Yokohama Marinos, encontrou um plantel com uma disciplina quase militar. Tudo era executado ao pormenor. Horas de chegar e sair do teino, exercicios fisicos, posição no campo, etc. Qualquer pragmático treinador europeu ficaria feliz. Azkagorta, depois do espanto inicial, preferiu ensinar os seu jogadores a infrigir as regras. O objectivo era dar-lhes liberdade para criar e assim descobrir o talento de cada um, escondido sob a rigida contenção oriental.
Vendo jogar esta selecção do Japão facilmente apetece repetir a ousadia de Azkagorta. O vagabundo Nakata é um artista á solta. Não custa nada acreditar que muitos outros artistas estão no interior de outros jogadores nipónicos. Potencial não lhes falta. O aspecto mais exótico da equipa acabou por ser, porém, a presença de Wagner Lopez, um brasileiro naturalizado japônes em Setembro de 97 e que no jogo com a Argentina esteve perto de marcar o golo do empate. No futebol nada sucede por acaso.
Carlos Alberto Parreira

0 pragmático técnico campeão do mundo em 94, está pela quarta vez a orientar uma selecção no Mundial. Depois do Koweit (82), EAU (90) e Brasil (94), Parreira regressou na Arábia Saudita ao outro lado do mundo do futebol. Apesar de ser muito viajado ainda não sabe falar árabe. Assim, precisa de um tradutor a tempo inteiro. Até durante os jogos, sobretudo para dar instruções aos jogadores antes das substituições. Nos treinos tudo se remedeia, mas em pleno jogo, sem falar directamente com o jogador alguma coisa fica sempre pelo caminho, falta aquele timbre suplementar das palavras directas que podem, de forma decisiva, motivar ou mexer com o brio do jogador. No minimo esse tradutor tem de ser o seu melhor amigo.
LAUDRUP

Ultrapassou as 100 internacionalizações pela Dinamarca. Oscar Wilde dizia que resiste-se a tudo menos a uma tentação. Para um jogador de futebol não há tentação maior do que jogar um Mundial. No inicio da época reconheceu que o seu plano de aos 30 anos deixar de jogar ao mais alto nivel era impraticável. No Japão pode jogar com tranquilidade mas sem a adrenalina dos grandes jogos. Não quero que os meus últimos dias no futebol sejam assim, apenas á espera do fim. Amo demasiado o futebol e quero acabar em grande. Com o do Mundial no horizonte, ingressou no Ajax e voltou á selecção com 34 anos.
No futebol continua a existir o velho debate de saber onde começa um grande jogador. Nos pés, isto é, na técnica e no talento, ou na cabeça, ou seja, na inteligência e na visão de jogo. É evidente que um grande jogador será a simbiose dos dois factores. Laudrup foi um dos melhores exemplos dessa teoria maradoniana. E diz-se foi porque aqueles dois elementos apenas seriam a base de um triângulo que teria como vértice a velocidade. A classe e a inteligência permanece mas sem a velocidade de outrora ver jogar agora esta Dinamarca apenas serve para aumentar a saudade da grande selecção viking de 86, obra de um Laudrup 12 anos mais novo.
De Laudrup dizia Platini que era o melhor jogador do mundo... nos treinos. Ao seu lado joga o seu irmão Brian. Mais velocidade , menos classe. Dele disse Fabio Capello, seu técnico no Milan, que nunca vira um jogador que trabalha-se tão pouco nos treinos. O médio argentino Simeone afirmou que o futebol era talento, sorte e coragem. No fundo, o talento necessita de trabalho e velocidade Quando se encontram surge o verdadeiro futebol de elite. Quem neste Mundial foi até agora capaz de acariciar o limite? Existem vários candidatos: Zidane, Ilie, outra vez Baggio, Moller e outros pequenos grandes magos.
JUNIOR BAIANO

Ortega y Gasset dizia que na vida somos sempre nós e as nossas circunstâncias. Num jogo de futebol a circunstância de se estar a ganhar 2-1 a poucos minutos do final aumenta os niveis de ansiedade de qualquer equipa, por mais classe que esta tenha.
Na selecção brasileira Junior Baiano parece ser o único com autorização para jogar feio e colocar em prática a velha máxima bola no mato que o jogo é de campeonato. No jogo inaugural a Escócia demonstrou que, no mais alto nivel futebolistico, a falta de respeito é uma arma decisiva para colocar sobre pressão um adversário tão poderoso como o Brasil. Nesses minutos finais de sufoco emergiu o gigante zagueiro Junior Baiano. Causa alguma estranheza ver o Brasil a segurar a todo o custo um resultado nos últimos minutos. Woody Allen a certa altura do filme Poderosa Afrodita foge de uma briga a toda a velocidade. A sua companheira, Mira Sorvino, diz-lhe espantada que não quero acreditar que sejas um cobarde. Woody Allen, embaraçado, responde-lhe: Sim, bem, mas na realidade só em casos concretos...
No futebol por vezes também é assim. Até o Brasil em momentos concretos deseja ansiosamente o apito final do árbitro.
ZIDANE E OS VENTOS DE MARSELHA

Quando se ouve a marselhesa cantada a uma só voz por 60 mil pessoas qualquer jogador francês se sente capaz de vencer um simples jogo de futebol. Maior afinação talvez só na enorme vaia dedicada ao conservador seleccionador Aime Jaquet logo após aquela apoteose patriótica.
Zinedine Zidane, o ultimo jogador á moda antiga, daqueles que quando toca na bola marca outro ritmo no jogo e passeia classe com a mesma naturalidade como respira, é o maestro da selecção gaulesa. Apesar dessa imagem ele não esquece as suas origens argelinas. Zidane é originário de uma familia de emigrantes magrebes que nos anos 60 desembarcaram em Marselha á procura de uma vida melhor. No pobre quarteirão de La Castellane todos ainda se lembram do pequeno Zidane a correr atrás de uma bola. Em memória dessas origens usa sempre uma volta de ouro com o seu sobrenome argelino, “Yaz”. No jogo de estreia com a Africa do Sul os seus lances de génio emergiram do vento com mais 120 Km por hora na cidade francesa do futebol.
No primeiro tempo, a favor do vento, a França não consegui assentar o seu jogo. A ventania convidava a lançamentos em profundidade. Dessa forma a expressão latina desaparece. Na segunda parte, contra o vento, os gauleses foram obrigados a colocar a bola no chão e num ápice surgiu o bonito futebol apoiado, feito de dribles e passes curtos. A selecção francesa não navega com vela. É uma embarcação com vários motores, Zidane, Djorkaef, Henry...
ZAMARONA + SALAS= DUAS VEZES CHILE

Ivan o terrível Zamorano é a maior figura que o turculento futebol chileno alguma vez deu ao mundo. As ironias do destino, porém, muitas vezes colocam-no em segundo plano das equipas onde joga. No Inter, apesar de ter sido o principal artifice da vitória na Taça UEFA, vive ofuscado por Ronaldo. Em 95 no Real Mdrid estava na lista de dispensas quando começou a época. Revoltado com a falta de confiança no seu valor, Zamorano, na pré temporada, desatou a realizar treinos fabulosos. Golos espectaculares e grandes jogadas. Valdano, seu treinador na época, em face de tanto futebol foi ter com ele e perguntou-lhe”Mas, afinal, tu jogas sempre assim ou só quando estás zangado?”. Zamorano respondeu-lhe que Não, eu jogo sempre assim. Valdano olhou-o os seus olhos de índio e rematou que sendo assim, de certeza que nos vamos dar bem.
Agora, no aguerrido Chile que invadiu o França-98 surgiu na sombra de Marcelo “el matador” Sallas, a nova estrela sul-americana. A dulpa SaZa recuperou para o mundo da bola o brilho do futebol chileno. No inicio do Mundial, o escritor chileno Luis Sepúlveda apenas desejou que eles resgatassem a imagem de Carlos Cazelli, goleador do passado “Antes do Mundial-82, os jogadores foram recebidos pelo general Pinochet. Todos lhe estenderam a mão, menos Cazelli. Disse ao general, que lamentava muito mas não podia cumprimentar ao assassino de centenas de meus companheitros da juventude comunista. Cazelli foi um grande heroi do desporto. Admiro-o muito.”
Frente á ditadura do cattenacio italiano impuseram-se os rebeldes chilenos. Só não contavam com um sinistro árbitro que a poucos minutos do fim, inventou um penalty fantasma para permitir o empate azzurro. Sepúlveda, deslumbrado, descreveu Zamorano como o fogo, a paixão e o vento selvagem, Sallas como a rocha, o gelo dos glaciais. O talento e a imaginação podem adquirir várias formas.
QUE FUTEBOL AMERICANO?

Quatro anos atrás o Mundial foi nos EUA. Na altura muitos disseram que agora é que era, o futebol, que na terra do Tio Sam chama-se soccer, ia conquistar a América. Passados estes anos tudo permanece praticamente na mesma. A MSL não é capaz de provocar emoções em ninguem. Os americanos nunca entenderão o Soccer.
Há anos, na véspera do excitante Super Bowl, o teinador do New York Giants, uma das equipas que ia disputar o titulo, estava no centro da polémica. Poucos dias antes um seu jogador insatisfeito por ter sido substituido, atirou-lhe, ao sair do campo, com um copo de água. Os jornalistas ansiosos da reacção do técnico foram logo ouvi-lo. Ele respondeu-lhes de imediato: Hey! Isto não é um jogo para pessoas bem comportados! Este episódio, um entre centenas do mesmo género, confirma em definitivo que o futebol americano é um desporto feito e visto quase só por americanos. Uma situação destas seria impensável no Soccer.
Em França os jornalistas americanos estavam todos mais interessados nas finais da NBA do que nas exibições da sua selecção no Mundial de futebol. No meio de todo este ambiente o seleccionador Steve Sampson resolveu dizer antes do jogo com a Alemanha que nos EUA há muitos Ronaldos, só há que descobri-los!. Pelos vistos, até ao momento, ainda não encontraram nenhum. Quem sabe um brasileiro naturalizado?