MUNDIAL SUB-17 TRINIDAD E TOBAGO 2001: A ARCA DOS SONHOS FRANCESES

10 de Outubro de 2001
INÉDITA VITÓRIA GAULESA COM UMA SELECÇÃO DE ENCANTAR

Envolvida numa atmosfera de paraíso, Trinidad e Tobago recebeu, ao ritmo do calipso, o IX Mundial-FIFA Sub-17. Sob o sol e as estrelas das Caraíbas, 16 selecções dos cinco continentes, confirmaram as tendências do futebol do futuro, onde ao lado dos infinitos diamantes africanos, emergiram os novos aromas do multirracial futebol francês, mentor de uma selecção de sonho, justa consagração dos seus sublimes centros de formação, hoje ameaçados pelas aves de rapina financeiras que sobrevoam do futebol europeu.
Com a pala do boné virada para trás, caminhando pelas ruas de Bolonha, Mourad Meghni parece um ragazzo como tantos outros que sonham tornar-se grandes jogadores de futebol. Uma diferença existe: Com apenas 16 anos ele já deixou a sua terra, na Velha Gália, e veste agora a camisola do Bologna, com o qual assinou contrato profissional há um ano, junto com o guarda redes Mickael Fabre, sua principal companhia nas ruas italianas. Chamam-lhe o novo Zidane, pois tal como Zizou, também Meghni é descendente de argelinos e veste a camisola nº10 da selecção francesa. No relvado, Meghni também imita Zidane. Personalizado, trata a bola por tu, respira tranquilidade e gosta de driblar. Talvez até demais, como desabafava o seleccionador gaulês Jean-Francois Jodar no final da emocionante jogo com o Brasil, nos ¼ final, ganho por 2-1, mas onde, mesmo nos minutos finais de sofrimento, Meghni se dedicou a driblar, driblar... “Durante esses minutos, só tinha vontade de lhe bater por driblar tanto e tão próximo da nossa área”, desabafou Jodar no final do jogo, ao mesmo tempo que elogiava o talento desta nova estrela gaulesa. Ele é, junto como nomes como Pongole, Le Tallec e Fiaty, estrelas deste Mundial Sub-17 2001, o futuro do football francês, que vive hoje os seus mágicos dias de glória, dos seniores até aos petitis gamins que deslumbraram as praias e os relvados de Port of Spain, conquistando um titulo mundial inédito no ballon round gaulês, que até esta edição apenas participara por uma vez neste Mundial Sub-17. Fora em 1987, treinada por Jean Morlands que com um onze onde estava o jovem Petit cairia então nos ¼ final frente á URSS.

FORMAÇÃO: CAÇA AO TESOURO

Ao contrário do que sucede no nível sénior, a FIFA promove nas categorias jovens um maior equilíbrio entre os cinco continentes. No Mundial Sub-17, os 16 finalistas estão divididos de forma igual: 3 selecções para Europa, América do Sul, África, Ásia, e CONCACAF, e uma para a Oceânia. Todos são iguais á partida, todos serão diferentes á chegada. No caminho, a diferença terá como maior factor determinante o frio e inclemente poder económico que, desde sempre, permitiu á Europa aprisionar para si todos os diamantes dos outros continentes, sobretudo o africano. Nos últimos anos, porém, também na Europa esta divisão entre países ricos e outros menos ricos também se fez sentir. O caso Meghni é mais um exemplo dessa nova realidade, surgida pós-Lei Bosman que cruzada com a União Europeu, colocou sob fogo os idolatrados centros de formação franceses, sublimes laboratórios do futebol profissional, hoje directamente ameaçados pelo recrutamento quase selvagem feito pelos gigantes de toda a Europa que visam os talentos mais jovens. É muito difícil prever que uma estrela Sub-17, venha também a ser uma estrela aos 21 ou 25 anos, mas mesmo assim, muitos petits garçons continuam a sair aliciados pelos colossos europeus.

SINAMA PONGOLE: O FENÓMENO DE LE HAVRE

ESTRELAS DE UMA SELECÇÃO DE SONHO Esquematizando-se num moderno 3-5-2, como um meio campo reforçado, a França de Jodar foi a selecção mais atraente e eficaz do torneio. Orquestrada a meio campo pelo elegante Meghni, o onze ganhou sangue goleador com a dupla atacante Pongole-Le Tallec, ambos jogadores do Le Havre. Mais uma vez se provou que no futebol existe uma classe de jogadores que, desde o berço, brilha com luz própria. São os chamados talentos natos. Nesta douce France Sub-17, a estrela maior chamou-se Sinoma Pongole, o tipo de jogador que só entende o futebol quando jogado com arte, toques de calcanhar e outros malabarismos técnicos. Um fenómeno goleador que dança enquanto joga e domina a bola com todo o corpo num jogo de pés e cintura estonteante. Tudo decorado com golos. Neste Mundial apontou nove e bateu o record dos anteriores torneios. Natural da Ilha da Reunião, território gaulês do Oceano Indico, Pongole emigrou com os pais para França quando tinha apenas 11 anos. Formou-se futebolisticamente no Le Havre e há poucos meses foi, junto com o colega de clube e selecção Le Tallec, contratado pelo Liverpool de Houlier. Com apenas 16 anos, fará 17 em 20 de Outubro, Pongole ficará ainda mais um ano no Le Havre, para terminar a sua formação, momento após o qual deverá rumar para Anfield Road, abandonando prematuramente o seu habitat natural. Le Tallec, que seguira as suas pegadas, é um jogador diferente. Mais forte fisicamente, remata de primeira e joga mais simples. Juntos formaram neste Mundial uma dupla ofensiva de sonho. Outras figuras a destacar neste sedutor onze gaulês, foram, entre outros, o gigante médio Yebda, formado no Auxerre, muito forte, um carregador de piano com técnica refinada, e o defesa capitão Jacques Faty, jogador do Stade Rennais, dono grande personalidade. Seis meses depois de ter perdido o Europeu Sub-16 (derrotados na final pela Espanha, 0-1) esta selecção gaulesa exibiu, em todo o torneio, uma forte personalidade competitiva, invulgar para jogadores desta idade, embora muitos deles já se encontram inseridos no mundo do futebol profissional. Resta esperar que, no futuro, os Deuses do futebol os protejam.

NIGÉRIA: AS PEQUENAS ÁGUIAS VERDES

Akpoborie, Kanu, Ikpeba, Adepoju, Babayaro, Oruma... Há oito anos, em 1993, eles foram, no Mundial Sub-17 do Japão, o primeiro grande aviso do que a Nigéria poderia vir em breve a produzir no futebol mundial. Hoje eles são estrelas em grandes clubes europeus e o exemplo para meninos como Agbim, Osunwa e Ibrahim, alguns dos novos diamantes negros que levaram em 2001 as pequenas águias verdes á final do Mundial Sub-17. Fanny Amun, treinador de Kanu em 93 e descobridor da maioria dos grandes jogadores da história do futebol nigeriano quando eles ainda jogavam nos baldios de poeira de Lagos, hesita muito em comparar estas duas selecções: “Cada geração é diferente. No meu tempo o essencial era dar confiança aos jogadores, hoje eles já tem outra mentalidade, mas muitos deles podem seguir as pegadas dos nossas grandes estrelas da actualidade”. Abdullahi Musa, o seleccionador do presente é um homem que só entende o futebol no estilo ofensivo. Para sua delícia, tem na frente de ataque os criativos Shaib Karimu e Victor Brown, bem apoiados pelo veloz Femi Opabunmi. Como grande líder do onze, emergiu, no entanto, o capitão Suleiman Mohammed, jogador do Nasara. Depois de ter sido defesa central, assume-se hoje como um fantástico médio ofensivo que motivou toda a equipa com os seus gritos e jogadas de envolvimento.

BURKINA FASO: A NOVA SENSAÇÃO AFRICANA

Tradicionalmente, o Mundial Sub-17, como todos os torneios jovens, são sobretudo dominados por países africanos. Este ano, todos repararam na ausência do Ghana, campeão em 91 e 95, e finalista em 93 e 97. No passado, nomes como Carlos Queirós e Santiesteban, insinuaram que na base deste sucesso estava questão das falsas idades. A suspeita está hoje mais desvanecida, mas nos bastidores não falta quem continue a murmurar sobre a mesma polémica. Seja como for, historicamente é ponto pacifico que tecnicamente os jogadores africanos, sul americanos e latinos se desenvolvem muito mais rapidamente do que todos os outros, como, por exemplo, os alemães e norte-europeus. É uma questão genética que faz a diferença a nível das camadas jovens, onde a técnica, mais do que o físico, dita leis. Este ano a sensação foi o Burkina Faso, o 3º classificado, exibindo um futebol técnico e tacticamente disciplinado, resultado do trabalho de formação desenvolvido na sua inovadora Academia de Futebol, criada em 1999, com o nome de Planete Champion Internatinale, e onde os muitos jovens talentos espalhados pelo país encontram excelentes condições para treinar, sob a orientação geral de Jean Michel Yaméogo, também treinador desta selecção Sub-17, onde se destacaram figuras como Gorogo, Conombo, Panadetiguiri e, sobretudo, o avançado Wilfred Sanou, jogador do FC Tirol da Áustria que esta época o emprestou ao Wattens, da III Divisão para ganhar rodagem.

BRASIL, ARGENTINA E ESPANHA: OS GRANDES DERROTADOS

Símbolos da magia sul americana, Brasil e Argentina confirmaram nas Caraíbas os seus dotes técnicos e artísticos, exibindo um jogo rápido, feito de passes curtos e triangulações, embora acabassem por serem ambas derrotadas pela maior maturidade competitiva francesa (nos ¼ final e ½ final, respectivamente). Na Argentina de Hugo Tocalli, para quem, seguindo a filosofia- Pekerman, a principal vitória seria conseguir praticar um futebol belo e atraente, destacou-se o avançado do River Plate Maxi López e os médios Zabaleta, do San Lorenzo, e Mascherano, do River Plate, todos já figuras das grandes canchas gaúchas. No Brasil destacou-se a dupla atacante Bruno-Anderson, apoiados pelo dinâmico Caetano, á frente de Leandro, o seu jogador mais categorizado neste torneio, médio do São Paulo. A maior desilusão deste Mundial Sub-17 seria, no entanto, a Espanha, campeã europeia Sub-16 seis meses antes. Todos os olhos estavam postos no avançado do At.Madrid Fernando Torres, mas talvez já concentrado nas suas obrigações com a primeira equipa colchonera, a nova pérola espanhola foi uma total desilusão em todos os jogos. Apesar do carisma do lendário Santiesteban, um espécie de pai do novo futebol espanhol, pela mãos de quem passaram todos os grandes jogadores espanhóis dos últimos 10 anos, a Espanha cairia logo na primeira fase, derrotada pela Argentina e pelo Burkina Faso.
EQUIPA TIPO (Sistema 3-5-2) CHAIGNEAU FATY BERTHOD COOMBO DROIUN FAE MEGHNI YEBDA JACMOT LE TALLEC PONGOLE Treinador: Jean-Francois Jodar O CAMINHO ATÉ Á VITÓRIA 1ª FASE FRANÇA, 1-NIGÉRIA,2 FRANÇA,5-EUA,3 FRANÇA,5-JAPÃO,1 QUARTOS-DE-FINAL FRANÇA,2-BRASIL,1 MEIA-FINAL FRANÇA,2-ARGENTINA,1 FINAL FRANÇA,3-NIGERIA,0

MUNDIAL SUB-17 / HISTORIAL

EDIÇÃO FINAL I 1985 NIGÉRIA,2-RFA,1 II 1987 URSS,1-NIGÉRIA,1 (4-2 em g.p.) III 1989 ARÁBIA SAUDITA, 2-ESCÓCIA,2 (5-4 em g.p.) IV 1991 GHANA, 1-ESPANHA,0 V 1993 NIGERIA,2-GHANA,1 VI 1995 GHANA,3-BRASIL,2 VII 1997 BRASIL,2-GHANA,1 VIII 1999 BRASIL, 0-AUSTRÁLIA,0 (8-7 em g.p.) IX 2001 FRANÇA, 3-NIGÉRIA,0
Diarra, Mocquer, Pongole e Le Tallec: A França do futuro?

Artigos Relacionados

  • NOTAS INTERNACIONAIS (22) NOTAS INTERNACIONAIS (22) 22 de Março de 2012 1.NextGean- Futuro `com pernas`; 2. Existe futebol grego?; 3. Gomez é mesmo nº9 craque?; 4. O intruso...
  • “Substituição defensiva” “Substituição defensiva” 22 de Março de 2012 A maior prova de sensibilidade táctica do treinador: meter um jogar mais defensivo e a equipa passar a...
  • O Império do "futebol nascente"  O Império do `futebol nascente` 25 de Janeiro de 2012 Sasaki e Sawa, treinador e jogadora, o futebol feminino japonês que assombrou o Mundo (Helena Costa)
  • Onde estão as estrelas? Onde estão as estrelas? 9 de Dezembro de 2011 Viagem pelo “fútbol” argentino: como joga o Boca, o River na II Divisão e os golos de Gutierrez
  • NOTAS 2011/12 (17) NOTAS 2011/12 (17) 23 de Novembro de 2011 1. Luisão-Garay, a melhor dupla; 2. Académica `táctica`; 3. Os `milagres` de António Pereira