Entre os dez longos anos que mediaram as duas últimas conquistas, de 1993 a 2003, o futebol brasileiro mudou muito o seu rosto táctico-estilístico. Com o tempo, após perceber as novas leis do dito futebol moderno, tornou-se menos artístico, abandonando os gestos bonitos pouco produtivos, e, embora conservando sempre a sua superior magia técnica, tornou-se mais competitivo e realista. Um nova realidade expressa numa crescente cultura táctica e maior poder atlético cruzada com a qualidade técnica inata, que se faz sentir desde os seniores aos escalões jovens. No banco, Marcos Paquetá, que em Agosto deste ano já guiara o escrete sub-17 á conquista do Mundial (batendo também na final a Espanha por 1-0) é um treinador consciente desses novo modelo. Tacticamente, fiel ás suas raízes, manteve o design ofensivo do futebol brasileiro. Desconfiado do 3x5x2, aposta, no entanto, num clássico 4x4x2, com dois volantes, que, nas fases atacantes, se transforma, sem medo, num dinâmico 4x1x2x3 ou, até, num claro 4x3x3. Para isso conta com os novos protótipos de futebolista brasileiro, formado desde as bases, já sobre um ditame táctico-competitivo muito mais próximo da fria realidade europeia, antes sempre desprezada pelos puristas brasileiros. Táctica e tecnicamente muito forte, esta selecção brasileira sub-20 campeã do mundo, é, a imagem perfeita, desses novos tempos do futebol-arte.
A orquestra de Dudu

O ONZE BRASILEIRO SECTOR POR SECTOR
Como guia espiritual deste onze canarinho Sub-20, emergiu um forte garoto do Ceará, jogador do Vitória da Baía, daqueles que joga sob forte calor ou debaixo das temperaturas mais frias: Dudu. A base do seu futebol, diz-se, assenta no chamado estilo-Dunga, aquele que joga simples, durinho, e sem adornos. A esses atributos, acrescenta, porém, a sua assinatura própria: técnica com a bola, agressividade, velocidade, fabulosa visão de jogo, enorme vocação ofensiva, bom jogos de cabeça, remate e...golos. Tudo emoldurado em robustez atlética (1,86m. e 78kg.). Um jogador completo? Para o musculado futebol moderno, sem dúvida. Face a este must de qualidades como organizador e condutor de jogo, não admira que muitos monstros do futebol europeu já suspirem por ele. A sólida estrutura colectiva desde belo e realista Brasil de Paquetá, começa, porém, no seu híbrido sector defensivo, liderado, no eixo, por uma forte e atlética dupla de centrais: Alcides (Schalke 04), rápido e implacável no corte e antecipação, e Adaílton (Vitória), excelente sentido posicional e mais evoluído a sair a jogar com a bola dominado. Altos, dominam também o jogo aéreo. Nas faixas, dois velocistas que executam, na perfeição, o jogo de compensações defesa-ataque: Diego Alves (Sevilha), na direita, já a jogar como titular na Liga espanhola, é um jogador fantástico. Aguerrido, tecnicista, resistente fisicamente e muito perigoso ofensivamente. Depois de Dudu, foi o jogador mais em destaque no onze. Na esquerda, outro lateral ofensivo, Adriano (Coritiba), menos fogoso de Diego Alves, mas talvez mais disciplinado tacticamente, nunca perde de vista a zona aberta nas suas costas. Á frente deste quarteto, com a batuta e a bússola do jogo colectivo, está Dudu. A seu lado, duas possibilidades: Jardel (Cruzeiro), jogador de precisos passes curtos e superior leitura de jogo, ou Carlos Alberto (Figueirense), mais atento nas acções defensivas a toda a largura do terreno. Na baliza, posto sempre polémico no futebol brasileiro, um guarda redes que mostrou excelentes reflexos: Jefferson (Bptafogo). Vê-se que é já produto de outra escola, sabe jogar com os pés, e esteve quase sempre seguro a sair aos cruzamentos. Veremos a sua evolução.
Os artistas operários do meio campo
Funcionando como elo de ligação com o ataque, recuando a defender, e subindo a atacar, o polivalente Andrezinho (Flamengo), um garoto que após começar como avançado na Gávea, refinou-se tacticamente, e agora já parece um veterano a jogar. Faz a zona a defender e a atacar descobre sempre magnificas linhas de passes. Sobre as alas, deambulando de flanco para flanco, mas sentindo mais confortável á esquerda, o dinâmico Kleber (São Paulo), talvez o jogador mais perto dos tradicionais médios-artistas. Tecnicamente é perfeito, mas, para além disso, é incansável m tarefas de recuperação de bola. Quando a detêm no entanto, só tem olhos para a baliza, rasgando de trás as defesas adversárias confundidas com a sua velocidade. Na direita, o nome a fixar é já comum entre craques brasileiros: Juninho (At.Mineiro), que, desta feita, tem como origem Minas Gerais. Muito rápido e driblador, abre o jogo a toda a largura do campo e controla sempre as subidas do adversário pelo seu corredor. Outras soluções a destacar, são Fernandinho (At.Paranaense), decisivo no jogo da final. Entrou ao minuto 70, marcou o golo aos 86 e foi expulso aos 89.
Nilmar-Daniel Carvalho: a dupla atacante
No frente de ataque, uma dupla que joga junta desde vários nos escalões jovens e, agora, primeira equipa do Internacional de Porto Alegre: Nilmar e Daniel Carvalho, dois avançados que se complementam e já quase que lêem o pensamento um do outro. Em termos de estilo, Nilmar é mais ágil, em cunha entre os defesas, muito astuto a jogar sem bola, arrastando os defesas e abrindo espaços. Daniel Carvalho cresce como fisicamente e como jogador de dia para dia. Muito inteligente a movimentar-se para receber a bola, core com ela, ganha nas dividas, e possui um remate colocado mortífero, sendo também exímio a cobrar os livres. No banco, fustigado por uma lesão, ficou quase sempre Dagoberto (At.Paranaense), outro perigoso caça-golos que já deixou marcas nos jovens escretes canarinhos.
OBERVANDO AS ESTRELAS DE OUTRAS SELECÇÕES
O mágico Matar, a batuta de Iniesta,
a classe de Hosni e a garra de Ferreyra

Revendo todo o Mundial em busca de jogadores que, pelo futebol demonstrado, merecem particular destaque para serem seguidos com atenção no futuro, detectamos muitos nomes para não perder de vista. Nesse conjunto de jovens talentos, misturam-se várias posições, estilos e escolas.
Assim, como grande revelação, sobretudo para os europeus, emergiu o pequeno nº10 dos Emirados Árabes Unidos: Matar (Al-wahda), o Maradona árabe. Um médio ofensivo velocidade, magia técnica, fintas e remate. Franzino, esquiva-se aos defesas de uma forma empolgante. Após uma primeira fase deslumbrante, acabaria, porém por falhar no jogo com a Colômbia, nos quartos-de-final, quando o treinador francês Jean-François Jodar o colocou mais adiantado. Muito marcado, longe da sua posição natural, raramente conseguiu pegar na bola e passou completamente ao lado do jogo. Foi, em suma, depois da doce ilusão, o duro choque com a realidade.
Na Colômbia, a selecção com maior posse de bola de todo o Mundial, destacam-se sobretudo dois jogadores. O avançado Edixon Perea (Nacional), sempre em movimento, muito perigoso a fugir ás marcações e com remate fácil e, como motor do onze, o médio Montaño (Milionários), inteligente a distribuir jogo e robusto a conduzir a bola. Segura, passa e remata, muitas vezes de longa distância. Como acontece com a sua selecção sénior, falta a esta Colômbia, porém, maior velocidade e sobretudo capacidade para mudar de velocidade. Só tocar, tocar e tocar, não chega para ganhar jogos.
A Argentina de Rodriguez e os EUA de Convey
Orientada por Tocalli, antigo adjunto de Pekerman, a Argentina, sempre esquematizada em 3x5x2, ou, para ser mais exacto, numa espécie de 3x3x3x1 nunca esteve á altura das deslumbrantes selecções de Mundias anteriores. Desde logo, falta-lhe um playmaker. Sem esse homem, o líder do meio campo, foi o volante Mascherano (River Plate). Tacticamente perfeito, mas com pouca imaginação nos movimentos. No lado esquerdo, excelente o lateral Ferreyra (River Plate), com grande profundidade de jogo, atento a defender, forte na luta pela bola, e inteligente a abrir o jogo a atacar. No ataque, Cavenaghi (River Plate), possante e com o golo no sangue, voltou a confirmar-se como um excelente ponta de lança. É tecnicamente algo limitado, mas compensa essa lacuna com a agressividade e o remate pronto. A seu lado, destacou-se o extremo Cangele (Boca Juniores), apesar da desvantagem de sendo esquerdino ter jogado quase sempre na direita. Neste contexto, o melhor jogador gaúcho, foi, sem dúvida, o personalizado central Gonzalo Rodriguez (San Lorenzo), que já jogou três vezes na selecção principal de Bielsa. Com 1,78, m. e 70kg, tem classe, poder de antecipação, agressividade e poder técnico para deter a bola nos pés ou sair a jogar.
Por entre a fracassada prestação das equipas africanas, sobretudo da chamada região negra, salvou-se o jogo apoiado de inspiração europeia praticado pelo 3x5x2 do Egipto. Principal responsável por essa circulação de bola: Hosni Abd (Ismaili), cerebral médio centro tecnicista:
Provando a evolução soccer, sobretudo, das suas escolas de formação universitárias, os EUA realizaram excelentes exibições, no plano colectivo e individual, apesar do completo flop que foi a participação do litle boy ganês-americano Fredy Adu. Como principais notas cite-se a sua excelente dupla de centrais Marschall (Stanford) e Cochrane (St.Clara) seguros e fortes no corte, o avançado Jonhson (Willem II), muito acutilante a entrar de trás encarando os defesas e rematando colocado sem pensar muito, e, como organizador de jogo a meio campo, o nº10 Convey (Washington Utd.).
Entre as selecções orientais, a Coreia decepcionou e o Japão, apesar de goleado pelo Brasil, apresentou dois belos talentos: Naruoka (Jubilo Iwata), médio centro ofensivo e Sakata (Yokohama Marinos), avançado, perigoso e tecnicamente muito forte.
A Espanha latina de Iniesta

Como grande representante do futebol europeu, a Espanha perdeu a final com o Brasil, mas confirmou o fabuloso trabalho que, desde há cerca de uma década, tem sido desenvolvido nas suas selecções jovens. Como principal mentor desse projecto, o sábio Santiesteban. Trabalhando sobre a sua supervisão, o seleccionador Lopez Ufarte montou um onze coeso, formado á base de jogadores a alinhar na II Divisão B espanhola. Jogando tacticamente num cauteloso 4x5x1 ou, a atacar, num 4x2x3x1 que, muitas vezes se apresentou demasiado defensivo, a Espanha foi fiel ao seu genuíno estilo latino: Futebol apoiado, muitos toques curtos a meio campo e tentativa de explorar o contra-ataque.
Como chefe de orquestra, o catedrático Iniesta (Barcelona), um craque puro. Rápido e com grande visão de jogo. Também em destaque, o ponta de lança Sérgio Garcia (Barcelona B), muito ágil e oportuno, mas que, pouco agressivo, não é daqueles nº9 para jogar sozinho entre os centrais, o pivot Vitolo (Tenerife), o jogador que garante o equilíbrio entre linhas sem deslumbrar, o ala direito Juan Fran (Real Madrid B), muito habilidoso, com poder de finta e objectivo a flanquear o jogo em direcção á baliza. Á equipa, na hora da verdade, faltaria, porém, mais coragem ofensiva para tentar resgatar um titulo que já vencera em 1999, então com a geração de Gabri, Marchena, Varela e Orbaíz. Agora, é tempo, de Santiesteban formar outra casta de jovens talentos...
A SELECÇÃO DO TORNEIO
(Sistema 4x3x1x2)
Riesgo (Espanha)
Diego Alves (Brasil)
Gonzalo Rodriguez (Argentina)
Alcides (Brasil)
Ferreyra (River Plate)
Dudu(Brasil)
Hosni(Egipto)
Montaño (Colômbia)
Iniesta (Espanha)
Cavenaghi (Argentina)
Daniel Carvalho (Brasil)