MUNDIAL SUB-20 - EAU/2003: Pérolas de cinco continentes

21 de Dezembro de 2003
Disputado frente a um exótico publico de turbantes e túnicas brancas, perante a tutela das gigantescas fotos dos scheiks e príncipes reais que regem os Emiratos Árabes Unidos, o Mundial Sub-20, um paraíso para caçadores de talentos, tem revelado, até ao momento, um excelente nível exibicional. Bom futebol, ofensivo e muitos talentos cativantes num cocktail de estilos e aromas vindos dos cinco continentes, entre os quais se escondem muitas estrelinhas e selecções dignas de especial destaque.
Cresceu na chamada Toca do Leão, feudo futebolístico do Vitória da Bahia, e o seu futebol, técnico e musculado, é já um sinal dos reciclados tempos que inspiram o design estilístico do meio campo brasileiro: Alexandre Silva de Sousa, o Dudu, um volante recuado, atleticamente forte (1,86m. e 78kg.) que, longe dos protótipos fantasistas canarinhos do passado, impôs-se como o motor do jovem escrete, sendo, ao mesmo tempo, seu construtor e condutor de jogo, mesclando tarefas de recuperação de bola com a técnica típica dos médios fantasistas brasileiros, á qual não falta a vocação goleadora. O seus estilo ilustra, na perfeição, as novas tendências que marcam o Mundial sub-20, um torneio de jovens mas jogado já por profissionais adultos, integrados nas leis do dito futebol moderno, expressão cruzada, o mais alto nível, de força e técnica. Após vários anos sem entender estes novos ritmos, as diferentes escolas do novo futebol sul americano já exibem hoje, desde as bases, esses novos ditames, como estão a demonstrar, nos Emiratos, as selecções jovens do Brasil, Argentina, Colômbia e Paraguai, cada qual no seu estilo, cada qual com as suas estrelas. No 3x5x2 ou 3x3x2x2 da Argentina de Tocalli, destaca-se, na defesa, o central G.Rodriguez. No lado esquerdo, um grande jogador: Ferreira. Não é muito rápido, mas possui uma sublime leitura posicional de jogo. Ao mesmo tempo, lateral, médio e quase extremo. A meio campo falta um nº10 playmaker como nas anteriores selecções de Pekerman (Aimar, Riquelme, D`Alessandro...). Sem esses fantasista destaca-se o volante Mascherano, organizador recuado, e um quarteto de guerreiros técnicos: Zabaleta, á direita, Colace, no centro, e Botineli, á esquerda, ficando Sosa mais atrás dos avançados, que podem ser três se, como contra o Egipto, jogar em 3x4x3: Cavenaghi, ponta de lança, e os vagabundos das faixas Cangele e Herrera. Dentro das mesmas tendências tácticas, a bela selecção da Colômbia, muito forte tecnicamente. Falta-lhe algum realismo competitivo, por vezes adorna demasiado o jogo, algo irresistível quando se tem um avançado tecnicista como Edixon Pera, enquanto que, a meio campo, brilha Montaño, dono de potente remate de fora da área.

Tácticas: Da América do Sul á Espanha de Iniesta

No Brasil de Paquetá, tacticamente em 4x4x2 ou 4x3x3, mas sempre com a defesa a «4», jogam dois volantes recuados (Dudu-Carlos Alberto), um médio solto que sabe defender e atacar (Andrezinho), um rebelde ofensivo que entra pelas faixas (Kleber), apoiado pela subidas dos laterais (Diego-Adriano), e uma dupla atacante que joga junta desde os 14 anos no Internacional (Nilmar-Daniel Carvalho, sendo de salientar a enorme subida do nível-atlético competitivo deste último, enquanto Nilmar, embora habilidoso, continua sem grande poder de choque. Noutro registo, provando ter a melhor escola defensiva da América do Sul, o 4x3x1x2 do Paraguai, com três médios volantes (Barreto-Tello-Lopez), um nº10 organizador, possante, precisão de passe, mas algo lento (Dos Santos) e dois perigosos avançados (Dante Lopez-Haedo). Entre os europeus, confirmou-se a tradicional fragilidade competitiva das selecções anglo-saxónicas ao nível jovem. Da Alemanha, que fora em 2002 á final do Europeu Sub-19, de positivo apenas o médio centro Trochowski, enquanto que, para além da fantasmagórica Inglaterra, a Irlanda só criou perigo com os arquétipos lançamentos para a área á procura do jogo aéreo. Assim, a Espanha emerge como a principal força europeia, exibindo, porém, um estilo que, embora fiel à escola latina, peca por ser demasiado defensivo, esquematizando-se entre o 4x5x1 e o 4x2x3x1 com doble-pivot (Gabi-Vitolo), mas, fruto da enorme distância entre as linhas meio campo-ataque, deixando o ponta de lança Sérgio Garcia –belo jogador, oportunista, rematador e exímio a desmarcar-se- muito só na frente de ataque, sendo apenas servido pelos alas, pouco velozes, Juan Fran, á direita, e Gavilan, á esquerda. Desta forma, o onze só adquire verdadeira estatura e classe quando Iniesta pega na bola. Filho da cantera catalã, é uma mescla de Guardiola, na visão de jogo, e de Xavi, no espirito mais ofensivo. A estes dois traços, junta os seus: picardia, drible curto e técnica em movimento, mesmo partindo, muitas vezes, de posições demasiado recuadas. É, claramente, um grande jogador.

Sublime montra de estrelas em gestação, o Mundial Sub-20 tem revelado vários nomes para seguir no futuro. Analisando a sua forma de jogar, pode-se, ao mesmo tempo, descodificar o perfil táctico e técnico das suas selecções. Eis

Matar (EAU/Al Wahda)

Treinada pelo gaulês Jean François Jodar (antigo seleccionador francês Sub-17), o onze dos Emiratos, após o choque do primeiro jogo (derrota, 1-4, com a Eslováquia) revolucionou o seu futebol nos embates seguintes. Tacticamente, joga num 4x4x2 apoiado, a toda a largura do terreno e ao primeiro ou segundo toque. Falta-lhe, porém, sentido táctico a defender. A atacar, tem um craque mágico: Ismail Matar. Baixote, 20 anos, veloz, dribla em progressão num zigzagear estonteante e possui um remate forte. Muda de velocidade de forma espantosa. Quem tem um jogador destes, não precisa de mais nada. É o Maradona dos Emiratos!

Hosni (Egipto/Ismaili)

Exibindo um excelente nível exibicional, o Egipto, esquematizado tacticamente em 3x5x2, foi a selecção africana mais consistente deste Mundial. Fisicamente bem constituída, trocando muito bem a bola, lançou vários talentos: o ala esquerdo Samir, alto, elegante, magnifico condutor de bola para o ataque, Motab, um avançado muito perigoso, e, como principal figura um cerebral médio centro que joga em todo o lado, embora descaindo mais para a direita: Hosni Abd. Exibe um futebol de filigrana, com grande visão de jogo. Joga simples, mas com classe e raramente finta. Um grande jogador para, no futuro, vingar no futebol europeu.

Marshall (EUA/Stanford Univ.)

Provando a evolução do soccer desde as bases, os EUA apresentaram um onze baseado nas equipas universitárias, base da formação do futebol americano. Exibindo grande cultura táctica, dominando todos os princípios táctico-posicionais do jogo, revelou um promissor avançado, Johnson, rápido, oportuno e rematador, e, na defesa, uma excelente dupla de centrais -o sector mais forte da equipa- formada por Cochrane e, como patrão do sector, Chad Marshall, que já se destacara nos Sub-17. Fisicamente forte, lê o jogo na perfeição com notável sentido de corte e antecipação. Imponente nas alturas e entrega sempre a bola jogável para o meio campo.

Kone (Costa do Marfim/Roda)

Não confirmando as exibições de outros Mundiais, a África negra fracassou nesta edição 2003. Os melhores momentos surgiram com o onze da Costa do Marfim, esquematizado num ofensivo 3x4x1x2 ou 3x4x3, com três perigosos avançados: Zoko, pelo centro, e, entrando sobre os flancos, dois atraentes e possantes rompedores: Saki, o Giggs da Costa do Marfim, e Kone, 20 anos, a jogar já na Holanda, no Roda. Muito potente, dois pés, fugindo por ambos os flancos, e muito difícil de travar quando embalado com a bola.

Naruoka (Japão/Jubilo Iwata)

A principal força do futebol asiático. Distinta do jogo de contra-ataque da Coreia, exibiu um estilo mais apoiado que tem como principal referência a circulação de bola, missão em que o médio centro ofensivo Sho Naruoka é fundamental, organizando o jogo com precisão, variando os flancos e lançando o ataque. É mais um pequeno samurai da bola a despontar.

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