Munique, o «pico» táctico

24 de Setembro de 2008
Mais do que «picos» físicos, uma equipa deve buscar hoje «picos» de aplicação do seu modelo de jogo.

 

Cada treinador tem as suas ideias de jogo e a melhor forma de avaliar a sua personalidade é observar a sua fidelidade a essa ideologia. Como jogador, Klinsman foi uma tempestade em forma de ponta-de-lança. Como treinador continua a festejar os golos como ainda jogasse, mas é mais complicado provocar tempestades longe do relvado. No novo habitat, como treinador do Bayern Munique, procurou resgatar um sistema que embora histórico no futebol alemão, fora abandonado pela equipa nas últimas épocas. O 3x5x2. Em Munique, o último a utilizá-lo fora Hitzfeld, na primeira passagem, e foi base da conquista da Champions em 20x. Depois disso, a equipa andou em 4x4x2.
 
Repare-se que no «3» defensivo estão três centrais puros, cabendo aos laterais a saída em transição, recuando para um «5» defensivo sem bola. Na construção deste novo jogar nota-se que a máquina ainda vive longe do ideal. É natural, pois mexeu em hábitos adquiridos, tentando incutir outros muito mais exigentes e arriscados. O plano do risco sentiu-se no último jogo frente ao Werder Bremen que, esquematizado em 4x4x2, aproveitou na perfeição os espaços entre-linhas que o novo sistema bávaro dá ao adversário, sobretudo nas imediações da sua área quando perde a bola no inicio da primeira fase de construção. Nessa altura, porque a condução é feita muitas vezes por um dos laterais, há sempre pelo menos um flanco que fica mais exposto. É um risco inevitável deste tipo de sistemas, mas, no caso do Bayern, agravado por jogar com três centrais algo pesados nas dobras (Lúcio-De Michelis-Van Buyten). Desta forma, é muitas vezes o trinco (Vam Bommel) que vai basculando em função do local da bola e surge na compensação defensiva. Na construção atacante, joga na segunda linha do meio-campo com dois homens abertos (Schweinsteiger-Zé Roberto) mas sempre com liberdade de flectir para o centro, onde falta uma referência inicial. Com Ribery ganha mais verticalidade, mas é quase como tentar ultrapassar os problemas apenas com a velocidade, não com o pensamento.  
 
A perder com o Bremen ao intervalo, Klinsman regressou ao 4x4x2, com a clássica defesa a «4». Ou seja, alterou o pensamento em função do resultado. Veremos qual a opção no próximo jogo. Mais do que o debate táctico entre o 3x5x2 e o 4x4x2, este caso do Bayern de Klinsman prova antes que hoje, na construção do jogar de uma equipa, mais do que picos de forma física, deve-se buscar antes picos de modelo de jogo. Este Bayern até pode vir a jogar bem em 3x5x2, mas para isso precisa de caminhar gradualmente por estradas tacticamente mais seguras. Até atingir, nos princípios de jogo, a capacidade de aplicar esse seu ideal de jogo. Será o chamado pico de forma táctica.  

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