O projecto de futebol do Barcelona entrou na fase mais evoluída da sua existência: jogar com três defesas. Depois de tornar o conceito de «futebol de posse» no perfeito cruzamento entre a táctica e a técnica (até a técnica ser a…táctica e vice-versa) este novo desenho de Guardiola em termos de estrutura, resgatando do Dream team de Cruyff, simboliza entrar na forma mais evoluída de jogar. A base é jogar com três defesas em zona (não confundir nunca com três centrais). No último jogo da Champions, contra Bate Borisov, foram Dani Alves-Puyol-Abidal. Antes, na Liga, contra At.Madrid foram Dani Alves-Mascherano-Abidal. Nenhum deles é mesmo central de raiz e só o facto de Dani Alves, lateral ofensivo por natureza, estar metido nesta equação torna o projecto alucinante. Contra o At.Madrid (5-0) enquanto esses três elementos ocupavam a linha defensiva em largura e saiam a jogar, as imagens mostravam três centrais, Piqué-Puyol-Fontás, sentados no banco, a conversar descontraidamente.
Terá de ser, no entanto, um jogo algo diferente da fórmula Cruyff na transição defensiva. O Dream team era espectacular a atacar mas sem bola não tinha um comportamento forte de recuperação. Desequilibrava-se muito após a perda da posse e sofria muitos golos. O futebol moderno (20 anos d.c, depois de Cruyff) já não permite esse tipo de aventuras. A estrutura será idêntica, mas o comportamento de transição defensiva, encurtamentos sobre adversário mal após a perda, terá de se muito mais pressionante.
Este novo Barça está, nesse factor específico, preparado para a evolução táctica pretendida, pois na base de tanta percentagem de posse de bola está a facilidade da…recuperação da bola. Só assim é possível tanta posse. Porque demora muito pouco tempo a recuperá-la após a perder. Em suma: o segredo do bom futebol do Barça é a…recuperação (não a posse, momento subsequente). E o maior risco que corre nos seus jogos é quando a perde em zonas mais recuadas do campo.
Mais do que um 3x4x3 o que se vê agora é um 3x1x3x3. Um sistema de três jogadores atrás, outros três à frente, mas com um homem a mais no meio-campo, o pivot construtor recuado. Desta forma a equipa tem sempre, naturalmente, superioridade numérica a meio-campo (o melhor grupo: Busquets + Xavi-Iniesta-Fabregas).
A posse de bola expressa-se, assim, de uma forma circular e fluida. Primeiro, largura dos médios. Depois, ruptura, após passe em diagonal, para procurar profundidade dos avançados. No ataque, o nº9 clássico é um elemento com movimentação e perfil mentiroso. Recua e avança fazendo os centrais adversários duvidar entre ficar ou ir buscá-lo em marcação.
Jogar desta forma não está, porém, ao alcance de todos. Exige muito tempo do treinador com os mesmos jogadores e a mesma ideologia. Por isso, o conselho que dou a todos treinadores do mundo que vejam isto (ao vivo ou pela TV) é simples: não tentem repetir isto em casa!
