A caminho do Euro-2012: A nova França e a "velha Grécia". Sensações Toivonen e Silva.
Os olhares tendem a procurar sempre outro formato de herói. Talvez por ele fisicamente não dar muito nas vistas, sem grande altura e meio gordito, nem penteados exóticos ou tatuagens, nunca lhe deram a importância justa. Porém, quando a bola vai ter com ele, o seu futebol, rápido mas com sentido de temporização (para, escuta, olha e arranca ou passa), combinando poder criativo (finta) com sentido de organização (visão de jogo) foi sempre o mesmo. E, por fim, os focos iluminaram este discurso e método futebolístico.
Nasri tornou-se o novo guia espiritual e táctico da renovada França de Blanc que visa, no fundo, buscar novas referências para a selecção, órfã dos velhos chefes de tribo com glamour a meio-campo. Gourcuff, o 10 que parecia ter tudo para iluminar o jogo francês, esfumou-se. Talvez questão de (falta) carácter, no sentido competitivo. Nasri dribla estas questões e dá soluções tácticas. Ora assume-se como médio-centro organizador, ora cai numa ala em trocas posicionais com o ponta-de-lança ou um dos avançados, o mais móvel, no qual se destaca Remy, exímio em deambulações entre faixa e zonas interiores. Nasri percebe muito bem esse jogo de enganos posicionais (mais do que meras trocas) e surge nos espaços sempre no momento e, sobretudo, velocidade certa (ambos são muitos rápidos).
Atrás, em 4x4x2 ou 4x2x3x1, Blanc aposta num duplo-pivot, onde M` Vila é o novo primeiro construtor de jogo. Futebol curto mas eficaz. Depois é questão das alas e de ter ou não o melhor Ribèry, embora Malouda dê maior cultura táctica a segurar por dentro ou a dar largura de circulação à equipa na construção de jogo. Ribèry dá-lhe a velocidade vertical do extremo. No lugar 9, Benzema ou Gomis são mais avançados fixos de 4x3x3 do que em 4x4x2, tal a dificuldade moverem-se em espaços curtos com o tal avançado móvel muito perto. Por isso, a importância das movimentações permanentes e largas de Remy e o mestre Nasri.
Na Grécia, Fernando Santos construiu o seu triunfo a partir das certezas que alguns jogadores mais experientes lhe podiam dar. Por isso, olha-se para os primeiros e últimos jogos do apuramento e (dentro do 4x3x3) nota-se o mesmo trio de médio (Tziolis-Katsouranis e Karougounis mais solto). Não têm grande intensidade de jogo, mas sabem sempre onde se devem colocar. O onze está sempre equilibrado nas transições (ofensiva e, sobretudo, defensiva), Na frente, três avançados que podiam ser todos nº9, mas que, abertos, sabem depois aproximar-se do centro, com igual instinto de remate (Salpingidis, Samaras, Charisteas ou Gekas).
As melhores equipas tácticas nascem e crescem a partir das rotinas posicionais e de jogo que conseguem criar. Talvez por isso, o maior talento grego no um-para-um, Ninis, não jogue tanto. O essencial é jogar com pilares posicionais bem claros. Saber o que... não se pode fazer para, depois, saber onde cada jogador pode crescer.

Suécia: "Factor-Toivonen"
A Suécia agarrou o último lugar de apuramento a partir de uma estrutura que aproveitou muito bem os seus jogadores (isto é, suas características e aquilo sabem fazer melhor ou, pelos menos, estão mais habituados a fazer). Dois jogos decisivos diferentes porque só houve Ibrahimovic num deles. Em ambos manteve dois pivots, com Kallstrom a organizar de trás, num 4x2x3x1 que vira 4x4x2 nos últimos 30 metros.
No primeiro, na Finlândia, jogou a dupla Elmander-Ibrahimovic na frente. No segundo, contra a Holanda, sem Ibra, surgiu a invenção Toivonen. Olhando o seu perfil (estilo e físico) é fácil imaginá-lo logo como nª9 clássico. O incrível é ver como, apesar desse poder atlético (1,89m.) ele joga sobretudo como segundo avançado, recuando mesmo até posições de médio-centro ofensivo puro. Claro que, a partir dessa posição, não entra em rupturas velozes desde trás, mas dá peso ao espaço, ganha bolas, e com boa visão de jogo faz bons passes. Depois percebe o melhor momento para surgir na área e rematar (iludindo os defesas adversários que quase se esqueceram dele como...avançado para marcar). Revejam lance do 3-2. Na sua frente, mais na área mas também solto, jogou Elmander (papel igual que fizera antes com Ibrahimovic). O curioso é ver como também, no clube, o PSV, Toivonen, o melhor avançado possante do mundo a disfarçar-se de médio, joga com os mesmos princípios.

A ideia mais forte
É a ideia paradoxalmente mais lógica do futebol: como o adversário tinha defesas-centrais muito altos e fortes, a solução era meter avançados baixinhos. Disse Del Bosque, depois do Espanha-Escócia, e pertence ao manual de estilo do futebol espanhol. Os avançados baixotes eram Villa e Silva. Uma lógica que pede mobilidade e participação do outro avançado, Pedro, mais ala fixo, enquanto que Silva merece ser visto à lupa. É, claramente, o avançado espanhol que mais evoluiu nos últimos anos em influência no jogo. Antes um mero extremo de corre e foge, aumentou a sua influência espacial, surgindo muitas vezes no centro, como médio-segundo avançado que, entre linhas, faz passes de morte. Noutras vezes, surge desde a ala, em diagonais de ruptura. Um desequilibrador-organizador, uma nova espécie de jogador.
No início da circulação, Busquets continua a melhor solução, até porque nunca se importa que Xavi recue e lhe tire a bola para se ele a sair a jogar. Nada de preocupante para um nº6 como Busquets. Por uma razão simples: o protagonismo táctico no modelo espanhol não existe sem transfer colectivo.