NEWCASTLE: A armada de Souness

3 de Abril de 2005
DEFENSIVAMENTE RUDIMENTARES, MAS COM UM MEIO CAMPO E ATAQUE DE GRANDE CATEGORIA.

No carácter, ainda lembra as velhas equipas inglesas, mas o estilo do seu meio campo, chefiado pela classe de Jenas, já solta o perfume das novas gerações, num onze que tem a sua principal arma ofensiva na velocidade dos alas Dyer-Robert e numa temível dupla de pontas de lança Shearer-Kluivert.
Apesar da invasão de estrangeiros dos tempos modernos, e da encruzilhada de estilos que afecta os seus diversos quadrantes, no relvado e no banco, ainda há muitos redutos na Velha Albion onde o tradicional futebol inglês continua a fazer sentido. Orientada por um velho guerreiro do futebol britânico, Souness, o Newcastle ainda traduz, no caracter, o tradicional espirito lutador da Velha Albion, essa atitude competitiva, embora o traço mais técnico evidenciado pelo tratar da bola a meio campo, já espelhe o novo estilo, mais apoiado, que atravessa todo o futebol inglês. No plano táctico, esquematiza-se sempre num clássico 4x4x2 que ganha dinâmica ofensiva sobretudo através do jogo pelos flancos, onde moram dois alas-extremos de grande categoria, Dyer, á direita, e Robert, á esquerda, ora como flanqueadores, ora como típicos extremos de ir á linha buscar o cruzamento atrasado para a terrível dupla de pontas de lança Kluivert-Shearer, ou para os médios que entram de trás, Bowyer-Butt. Inteligentes no plano táctico e tecnicamente dotados, não o tipo de jogadores que não gostam de especular com a bola nos pés e sabem, em apenas três-quatro toques, colocar o jogo onde mais dói ao adversário. Nesta manobra, o jogador mais cerebral é o elegante organizador de jogo Jermaine Jenas, um maestro inglês da nova geração. Em vez de tackles e piques atrás da bola que vão a sair pela linha de fundo, o seu projecto exibicional molda-se pelo seu alto índice técnico. Levanta a cabeça, domina a bola com classe, traça linhas de passe e, jogando sobretudo descaído sobre a direita, ilumina o jogo da equipa.

DEFESA: A combatividade secular

Embora espelhe a meio campo o maior perfume técnico do renovado futebol inglês de topo, defensivamente, no entanto, este Newcastle de Souness, revela as clássicas lacunas que continuam a afectar (tirando o Chelsea, claro) todas as equipas inglesas: agressividade, com centrais destemidos e fortes no choque, mas, depois, com pouca classe para sair com a bola, lentos e duros de rins, sofrendo muito perante triangulações rápidas e rente á relva. Com Boumsong fora das competições europeias, Bramble-O`Brien é, preferencialmente, a dupla de centrais para a UEFA. Tem bom sentido posicional, mas falta-lhes jogo de cintura perante avançados mais esquivos, estilo Liedson. Bramble tem muitas potencialidades, lê bem o jogo, sai na antecipação e corta linhas de passe, mas por vezes quase parece adormecido em campo. Tem crescido de época para época e com maior experiência e combatividade pode vir a ser um central de referência. O`Brien, sempre muito calmo, surge sobretudo a dobrar. Os laterais, sobretudo de apoio e cariz defensivo, pois o onze tem alas muito ofensivos, fecham bem o flanco, destacando-se, á direita, o combativo Carr, rápido, sempre muito atento e implacável no corte, lançando depois o ataque com passes longos. Á esquerda, Hughes protege, essencialmente, as costas a Robert.

MEIO CAMPO: O alas e os recuperadores

No sector intermediário, coexistem alas com vocação de extremos e médios centro de recorte mais defensivo mas, ao mesmo tempo, com visão periférica de jogo para lançar o ataque ou transportar a bola, queimando linhas nessas subidas. É o caso da dupla Butt-Bowyer, tecticmente muito inteligente. Butt mantêm o estilo de Manchester. Raramente falha um passe, joga sempre simples, vira bem o jogo nos flancos e faz girar a bola com critério. Um pivot de grande qualidade que inicia as transições defesa-ataque. Bowyer é um rebelde, agressivo, sempre de olhos na bola. Com Souness, tornou-se mais disciplinado tacticamente a defender, mas como gosta, sobretudo de subir nas costas dos avançados, por vezes surge, no seu lugar, o possante Faye, mais eficaz na cobertura á frente da defesa. Não distribui jogo, mas ganha muitas bolas divididas. A grande fonte catalisadora dos movimentos atacantes reside nos flancos, com Dyer, á direita, o tipo de jogador que, como dizia Bobby Robson, acende as luzes da equipa. Rápido, dribla em progressão e rompe na área desiquilibrando as defesas. Á esquerda, Robert maneja, com inteligência, os diferentes ritmos do jogo atacante. Ora encosta-se á linha alargando a frente de ataque, ora flecte no terreno, apoiando os avançados ou fugindo ás marcações. Para além disso, é exímio na marcação de livres.

ATAQUE: Na sombra do Shearer

No ataque, a grande referência continua a ser o velho Alan Shearer. Já não tem, naturalmente, a mesma velocidade do passado, mas continua com o mesmo instinto de baliza, inteligência de movimentos e remate colocado, entendendo-se muita bem com Kluivert. Enquanto o holandês, que cresce de jogo para jogo, alinha mais em cunha entre os centrais adversários, Shearer deambula nas suas costas em busca de espaços vazios. A outra solução atacante de Souness, é o possante Ameobi, o ponta de lança tipo carro-de-assalto, sem qualquer requinte técnico, procura sempre romper em força. Sem ser veloz, aposta sobretudo em desgastar os defesas.

A Equipa que ganhou na Grécia

(1ªmão dos oitavos-de-final ) Olimpyakos, 1-Newcastle, 3 Esquematizando um clássico 4x4x2, Souness preferiu, em vez da elegância de Jenas, apostar antes numa dupla de médios centro mais de combate e recuperação de bola (Butt-Faye), soltando o ataque nos flancos com Dyer-Robert, que, quando entravam nas costas de Kluivert e Shearer, colocavam quase a equipa atacar com quatro homens. Atrás, a defesa a «4» manteve-se sempre completa, sem subir.

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