Campeão invicto, records batidos, título europeu, futebol de luxo. Tudo isto entra quase num campo de sonhos mas, apesar de todos estes feitos, o FC Porto de Villas-Boas não foi um FC Porto de revoluções. Longe disso. Foi a história sobre carris. Ao longo de muitas épocas de títulos, o FC Porto tem conhecido vários treinadores. A estrutura, granítica e forte, acolhe-os (e protege-os) a todos de igual forma. Dá-lhes uma pele dura como mais nenhum outro clube português, mas depois há o estilo próprio que responde às exigências (situação de construção da equipa e correlação de forças externas) que cada ciclo coloca.
Nessa origem, Villas-Boas não sentiu a necessidade de erguer os pilares da equipa. Criou o primeiro impacto através de uma forma diferente de estar e comunicar (plano humano) perante o grupo, mas no futebol puro (plano táctico) apanhou a equipa algo desmotivada ao fim de quatro anos com o mesmo treinador, no entanto tacticamente trabalhada e com um núcleo forte de jogadores intacto. Sem forçar revoluções fora de tempo, Villas-Boas soube reinventar o seu FC Porto a partir do de Jesualdo. Isto é, partiu de bases já edificadas para construir o seu futebol.
As equipas são, de facto, muito diferentes (das transições rápidas para a cultura de posse), mas há uma base táctica de aprendizagem (para além do mero 4x3x3) que foi importante para servir de terra firme de construção futebolística. Ou seja, os jogadores estavam trabalhados mentalmente ao nível de receptividade e capacidade de entendimento para novas aprendizagens tácticas. Casos evidentes do que quero falar: Fernando, Álvaro Pereira ou, claro, Hulk. O barro que os fez crescer como jogadores (por exemplo, a Fernando explicar-lhes posicionamento do 6, a Pereira o timing correcto de recuperação defensiva de um lateral, a Hulk os fundamentos do jogo colectivo do passe) que tinham chegado tacticamente em bruto, foi aproveitado por Villas-Boas que não sentiu necessidade de fazer esse desgastante trabalho de sapa com eles. Foi, digamos, um upgrade de estilo (humano, redimensionando motivações) e jogo (modelo, incutindo novos princípios, mais soltos ofensivamente nos espaços).
O FC Porto tem sabido entender este segredo do sucesso contínuo época após época: os treinadores mudam, mas cada qual que entra pega (aproveita) o trabalho feito pelo anterior. Cria e impõe a sua filosofia própria a partir das ideias que ficaram porque nelas está muito do que é a estrutura do clube projectada em campo. São raros os momentos de ruptura (Mourinho foi, nessa perspectiva, o maior marco revolucionário). Villas-Boas percebeu isso. E o berço do seu futebol sentiu-se sempre embalado no ritmo ideal.
Em suma, antes da equipa, está o clube. Quando esta ordem se inverte, até se pode ganhar um ano, mas todas as construções que se façam em cima dessa lógica invertida não passam de castelos de areia futebolísticos. O futebol português, de uma época para a outra, contrastando FC Porto e Benfica, explicou isso de forma lapidar.
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