O eu e o nós. O treinador, no banco. O jogador, na relva. Juntos, no balneário. É o espaço onde a relação se forma. O que é ser treinador? Existem mil respostas mas, pensando nesta teia relacional, a mais directa é saber de jogadores. Perceber, no fundo, quais são os elos entre esse eu e o nós. É um processo complexo. Para o entender é indispensável ir á base dessa relação. Porque falamos de futebol, falamos em ter de ganhar. É o único interesse comum. Não acredito em mais nenhum. Sendo assim, a relação entre jogador e treinador é sempre um casamento de conveniência. Não existe amor. Apenas interesses. E não há drama nenhum nisto. Quantas relações subsistem apenas com essa base.
Talvez por isso não acredito na teoria do bom balneário. É um mito. Porque parte do principio do nós que nunca é um principio no futebol. É apenas uma consequência indispensável de ser um jogo de equipa. Acredito antes numa espécie de pacto de balneário.
Há quem defina o jogador como um ser rebelde a necessitar de ser disciplinado. Posto assim, o treinador deveria ser um disciplinador que põe a casa em ordem. Não acredito em nenhuma destas definições ou estratégias. O jogador é mais um ser egocêntrico, eminentemente egoísta. No balneário, com os colegas e o treinador, o que existe é um choque de egos. No fundo, tudo isto é o prolongamento da vida, das relações entre as pessoas. Numa equipa de futebol, o grande objectivo é que todas estas personagens se comprometam com um objectivo comum. Ou seja, um encontro de interesses. Ou conveniências, pelo menos. Porque embora em locais diferentes, banco e relvado, há um ponto prévio que une jogadores e treinadores: os seus destinos dependem uns dos outros. Cabe ao treinador despertar esta sensibilidade.
Neste plano, Paulo Bento no Sporting tem sido um bom case study. Nos vários sentidos. O desejo de Moutinho sair, as cíclicas férias prolongadas de Liedson no Natal, o caso de Stoijkovic, a rebeldia de Vukcevic. São casos diferentes porque, sobretudo, são com jogadores diferentes. No resto, passam-se no mesmo espaço e têm o mesmo principio subjacente: não existe o nós no futebol. Existe apenas o eu. A grande missão é domesticar todos esses egos.
Há dias falava com um treinador sobre esta questão de jogadores com nariz no ar. Do lado egocêntrico que entendo ser, regra geral, o traço base das suas personalidades. Foi então ele puxou de um exemplo que tinha a ver com as peladinhas que por vezes se fazem nos treinos onde todos jogam nos limites e no fim tiram fotos a rirem-se na caras dos outros. Ora essas equipas são em geral feitas pelos jogadores: “Sabes quem eles escolhem primeiro ao faze-las? Os defesas, sempre os defesas!”. Com este exemplo, procurava, afinal, dizer como o lado egoísta (o eu) do jogador se coloca, mesmo inconscientemente, no outro lado (a necessidade do nós) quando percebe como o destino dependem de uns dos outros. É o futebol e seu balneário como um casamento de conveniência. Tudo o resto, são meras ilusões.