Apesar da mais elegante moldura técnica, o futebol norueguês, fiel aos seus ditames genéticos e estilísticos conserva, porém, os princípios básicos do tradicional futebol norte-europeu, entre os quais, na moderna postura adoptada, emergem duas essenciais atitudes de jogo: recuperação da bola o mais longe possível da sua área e simplicidade de passes depois de a deter, privilegiando, na conclusão dos movimentos ofensivos, carreados sobretudo pelos flancos, o poderoso jogo aéreo dos seus corpulentos avançados. Uma característica anglo-saxónica, que levou muitos analistas, a afirmarem, ironicamente, que a Noruega praticava hoje o melhor futebol inglês do mundo. É o chamado futebol de penetração, como gostava de dizer Egil Olsen, o sábio treinador que, entre 1990 e 1998, lançou as bases do novo estilo norueguês, até então mero figurante no contexto competitivo internacional.
Observando com especial atenção o jogo da sua selecção, detecta-se, no entanto, que um dos principais segredos deste novo ciclo do futebol nórdico, reside na capacidade e astúcia para jogar sem bola, em pressing, fechando espaços (adquirindo nesse momento o design táctico de 4x5x1) e impedindo o adversário de pensar com ela nos pés. Por isso, Egil Olsen gostava de dizer que a sua Noruega era a melhor equipa do mundo a jogar sem bola, e elogiava as capacidades de Leonhardsen, médio lutador do Rosenborg, por ele ser capaz de durante um jogo seria capaz de correr oitenta minutos sem tocar na bola e, mesmo assim, ser eleito o melhor em campo.
Uma análise algo irónica, mas que espelha, ao mesmo tempo, duas grandes armas do futebol norueguês: capacidade atlética e inteligência para jogar sem bola. A estes dois atributos, que têm implícitos a desenvolvida cultura táctica, juntou-se, a partir da década de 90, a maior capacidade técnica das suas principais estrelas, ao ponto de hoje quando perguntarmos quais as características de determinado jogador norueguês a resposta não seja meramente a da sua altura e peso. Uma novo prisma de análise que nasceu, sobretudo através dos dribles e sprints do pequeno médio tecnicista Mickey Jakobsen, que, junto com nomes como Bohinen, Bratseh, Myklnd, Eggen, Fjortoft e Rekdal, entre outros, construíram a geração de ouro norueguesa, da qual ainda resistem algumas figuras, embora sem o fulgor de anos atrás, destacando-se entre eles, o gigantesco ponta de lança Tore Andre Flo, agora quase sempre no banco.
O onze de Nils Semb:
Sector por sector

Em contraste com Egil Olsen, o novo seleccionador Nils Joahn Semb, que assumiu o cargo findo o Mundial-98, preconiza um estilo de jogo mais apoiado, com menos lançamentos longos, procurando assim explorar o excelente nível técnico-táctico dos seus médios, o sector mais forte de uma equipa claramente envelhecida e a precisar de urgente renovação. Tacticamente, aposta preferencialmente no clássico 4x4x2, com dois pontas de lança, o possante Carew, em cunha entre os centrais, e Solskjaer, mais descaído sobre a direita. As outras soluções, na fase ofensiva, são o velho Flo, actualmente no Siena de Itália, claramente na curva descendente da carreira, ou o médio ofensivo Iverson, do Wolverhampton, que pode ser utilizado como segundo avançado.
Em termos globais, a defesa, é o sector menos consistente do onze, sobretudo devido á pouco agilidade de movimentos da dupla de centrais, composta por dois veteranos de 34 anos: Berg, 96 internacionalizações, hoje no Glasgow Rangers, mas que muito pesado e sem rins, disfarça com a experiência as suas limitações físicas, e Rony Johnsen, do Aston Villa um pouco mais rápido, excelente sentido posicional e principal responsável pela saída de bola para o meio campo. Nas laterais, estão dois jogadores muito experientes: Bergdolmo, 32 anos, do B. Dortmund, na esquerdo, defende bem e, sendo alto (1,87m.), ganha sobretudo na antecipação, e, na direita, Basma, do Rosenborg, 31, que, mais ofensivo, surge muitas vezes na frente a procurar triangulações com Solskjaer.
O forte quarteto do meio campo
A grande força do onze concentra-se, porém, no meio campo, onde mora um forte quarteto de médios, entre os quais um clássico trinco que joga muito perto dos centrais e está sempre no caminho da bola: Andresen, 26 anos, do Stabaek, excelente em acções de marcação, fazendo a zona, perfeito na cobertura defensiva e nas movimentações sem bola. Á sua frente, na zona central, o lutador Bakke, do Leeds, enquanto que nas alas, destaca-se, sobre a esquerda, o veloz Riise, do Liverpool, e o experiente Leonhardsen, 33, sobre a direita, menos ofensivo. As outras opções no sector, são dois operários do Rosenborg: Strand, 33 anos, e Frode Johnsen, 29, mais ofensivo.
Em suma, uma equipa sólida e experiente, esquematizada em 4x4x2 a atacar e em 4x5x1 a defender, que vive, sobretudo, da ligação perfeita entre o meio campo e o ataque, formando os dois, muitas vezes, na dinâmica da táctica, um poderoso bloco único, onde emergem os três novos talentos que podem construir o futuro do futebol norueguês: Riise, Bakke e Carew. A derrota na Bósnia, sábado passado, colocou, no entanto, o Euro-2004 mais distante...
QUATRO ESTRELAS DA NORUEGA A SEGUIR

John Carew
Posição: Ponta de lança
Idade: 24 anos (5/09/79)
Clube: Roma
Na linha de Flo, é o tipo de ponta de lança possante (1,93m. e 89kg.), limitado tecnicamente, meio desengonçado na forma de correr mas que pelo seu poderio físico é quase impossível de marcar em cima. Muito oportuno, sabe colocar-se na área, luta sem medo em cunha entre os centrais e é exímio a segurar e cobrir a bola. É proibido perdê-lo de vista.
John Arne Riise
Posição: Médio-ala esquerdo
Idade: 23 anos (24/9/80)
Clube: Liverpool
Um excelente ala esquerdo, veloz, aguerrido e virtuoso. Faz todo o seu flanco a defender e a atacar, muito forte a ir á linha centrar e muito inteligente nas diagonais perto da área. Exímio também a cobrar lances de bola parada. Numa fase em que a geração de ouro norueguesa chega ao fim, ele é a principal referência para construir o futuro.
Ole Gunnar Solskjaer
Posição: Avançado
Idade: 30 anos (26/02/73)
Clube: Manchester United
Um avançado astuto, experiente e com instinto mortífero. Algo franzino (1,74m. e 74kg.), é o ideal para acompanhar um nº9 possante como Carew ou Flo, descaíndo um pouco obre a direita, lugar que ocupa no Manchester, onde é um flanqueador com grande precisão de passe e fantástica mobilidade, surgindo depois na área em busca do remate. Um perigo constante.
Eirik Bakke
Posição: Médio centro
Idade: 25 anos (13/9/77)
Clube: Leeds United
O motor do meio campo. Faz todo o sector com grande agressividade e qualidade técnica. Com grande capacidade atlética (1,89m. e 80kg.), segue a bola por todos os cantos do relvado e possui magnífica leitura de jogo. É, no estilo, um típico médio inglês, campeonato onde está desde 1999, incorporando o indomável fighting spirit, espirito lutador, britânico. Indispensável.