“Nós não queremos a bola!”

27 de Abril de 2010 09:52
A bola já não é indispensável para ganhar. Mourinho e o seu “exército” táctico na conquista de Barcelona. Onze jogadores e um “muro”.

 

Quando, cerca de meia-hora para começar o jogo, Mourinho entrou sozinho no relvado do Nou Camp, com as bancadas totalmente repletas, para acompanhar o aquecimento da sua equipa, a explosão de assobios que 100 mil pessoas enlouquecidas lhe dirigiram levava toda aquela atmosfera para dimensões quase sobrenaturais. O seu semblante esfíngico, sobrolho carregado, enchia os ecrãs gigantes do Estádio. Naquela altura os seus jogadores como que deixavam de existir. A pressão (imagens e análises) estava toda sobre ele. Mourinho é hoje muito mais do que um simples treinador de futebol. Mestre da táctica, defensor de um futebol científico, desenhando em blocos de papel quadriculado fórmulas defensivas com o sorriso do diabo, joga com a mente como mais nenhum outro. 
O Barcelona com a bola (76% de posse!). O Inter com o controlo do jogo. Como é possível estas duas realidades coexistirem simultaneamente? Simples: o futebol não respeita percentagens. Só ideias. E, neste mundo de paradoxos, nem sempre as esteticamente mais sedutoras vencem. A explicação quase nos leva para um “labirinto”.
 
Pode parecer estranho mas, no táctico futebol moderno, um dos factores mais importantes numa equipa é, em campo, ela saber perder a bola! Ou seja, quando está com ela, os seus jogadores estarem sempre conscientes que a única coisa inevitável que irá acontecer (não marcando golo, o que é raro) é…perderem-na! “Saber a perder a bola” significa então que, quando o adversário a recupera e parte para o ataque, a equipa não fique desequilibrada a nível de posicionamento defensivo. Não é fácil. Por isso, Mourinho explicava no final do jogo contra o Barcelona dos milhões de passes, que, durante o jogo, os momentos de maior preocupação era quando a sua equipa…tinha a bola!
A razão era simples: receava que quando a perdesse, também perdesse o rigor posicional defensivo que estava a demonstrar sem dar um centímetro de espaço para os artistas do Barça furar. Por isso, confessou ter mesmo dito aos seus jogadores: “Nós não queremos a bola. Deixem-na para eles!”. E todos eles respeitaram, sem mexer um nervo da face, esse cínico “guião táctico”, erguendo um autêntico “muro” à frente da sua baliza.
 
Dirão que o Inter não joga sempre assim, que estava com dez, que já fez boas exibições a atacar ou em contra-ataques (como na primeira mão ou em Londres contra o Chelsea), mas, em Barcelona, contra o futebol bonito de passa-recebe-passa de Guardiola, aquela seria uma opção estratégica consciente.
É este o ponto a que chegou o futebol actual. Elogie-se a maestria estratégica ou condene-se o futebol ultra-defensivo, ele espelha que as equipas da actualidade são, cada vez mais, “exércitos tácticos” comandados pelos seus treinadores. Nesse universo, a bola é quase um “ser estranho”. Já não é indispensável para ganhar. Leva aos pensamentos mais estranhos. Comentando o jogo em directo, cheguei, por exemplo, a dizer coisas como “Diego Milito está fazer uma grande exibição mas sinceramente… não me lembro de o ver tocar na bola alguma vez!”. Tudo isto perturba mais do que fascina. Por isso, num ápice, o génio de Messi eclipsou-se, Eto`o virou defesa-esquerdo, Ibrahimovic foi substituído, passando um defesa-central para ponta-de-lança, Piqué, que fez um golo, e o melhor em campo é um trinco, Cambiasso, a “aranha”, que cortou tudo o que lhe apareceu à frente.
 
Morinho inventou uma personagem que, em forma de treinador de futebol, vive muito para além do “ser humano”. Nesse contexto, até a bola parece um “objecto misterioso” dentro do relvado. É quando o seu “exército” se sente melhor.  
 

 

 

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