NOTAS 09/10 (39)

7 de Junho de 2010 17:38
1. Questão de Imaginação 2. A evolução do jogador 3. «Trabalhar» bem a bola

 

 
1.    Questão de Imaginação
 
André Villas Boas é o novo dono do “banco do Dragão”. O FC Porto troca um treinador experiente, Jesualdo, velho caminhante com centenas de jogos, com 64 anos, por outro, novo profeta, de 32, com pouco mais de duas dezenas, após a sua época de estreia. É como virar o mundo de pernas para o ar. Ao longo das épocas, em diferentes ciclos, o FC Porto tem apostado (e ganho) com diferentes perfis técnicos, mas esta é a primeira vez em que mais do que contratar um treinador por aquilo que ele é, contrata-o por aquilo que imagina ele pode vir a ser.
O seu percurso de “aprendiz de feiticeiro” durante sete anos ao lado de Mourinho, tem, no entanto, um poder de atracção irresistível. Há poucos dias, Jesus disse que não acreditar num grande treinador sem antes ele ter vivido o cheiro do balneário durante longas épocas, apenas após alguns anos passados na universidade. Villas Boas é, nesse sentido, um desafio ainda maior ao actual poder “encarnado”. É um erro, porém, vê-lo apenas como um projecto de “clone” (no estilo e nos métodos) de Mourinho. De nariz no ar, Villas Boas, em 4x3x3 e com “pressão alta”, é uma personagem futebolística com ideias próprias. Foi um “bom ladrão” durante os seus tempos de adjunto ou observador mas, nas opiniões partilhadas como sobretudo nas discussões, criou uma filosofia própria de futebol. Está muito longe de ser esse “tiro no escuro” que o seu passado invisível pode sugerir.
Não é isso, no entanto, que o torna treinador do FC Porto nesta fase quase embrionária da sua carreira. A sua eleição é uma questão de imaginação. Ou seja, imaginar um novo “toque de midas” capaz de transformar a realidade será a única forma de combater o erro de cálculo em relação ao crescimento benfiquista feito no início da época passada.
 
 
2. A evolução do jogador
 
A formação do jogador trabalha sobretudo sobre as bases. O amadurecimento é outra etapa. Muitas vezes, vejo jogadores com 25 anos e, reconhecendo-lhe valor, fico intrigado como não se trabalhou determinado aspecto técnico que lhe detecto mais limitado. Nessa altura, então, já é tarde. Ou seja, é difícil corrigir erros de base quando já se passou há muito a fase para o fazer. Então acredito antes noutra atitude. Em vez de trabalhar, prioritariamente, sobre as debilidades, apostar antes em detectar os pontos mais fortes e trabalhar sobretudo sobre eles.
Há jogadores que me levam a pensar assim. Por exemplo, Keita, ponta-de-lança que jogou no Setúbal. Sinceramente, nunca morri de amores por ele, mas esta época, confesso, acabei tendo um sentimento diferente e a desejar que pegasse na bola. No fundo, penso que Manuel Fernandes, o seu treinador, terá feito um pouco o que disse antes: detectou-lhe uma qualidade e não parou de trabalhar sobre ela. No remate e movimentos mais curtos, Keita cresceu onde já era mais forte. As debilidades, ignorem. 
 
 
3. «Trabalhar» bem a bola
 
É uma das frases que, durante um jogo, se ouve mais vezes. Refiro-me a quando se diz que o jogador «trabalhou» bem. A palavra «trabalho» é a que me suscita maior incómodo. Em geral, surge quando, após uma jogada mais longa ou elaborada em posse, o jogador tratou melhor a bola, quer na cobertura como no passe. O importante, porém, neste contexto, é perceber a importância do instrumento para a trabalhar bem: a técnica, claro. Tenho dificuldade em definir esses gestos como trabalho. Porque a técnica e o talento  
têm uma relação diferente. Colocar a bola num dado local, no fim dessa jogada mais operária, pede apenas técnica. Colocar a bola, porém, no momento exacto, com precisão de passe ideal, requer também o tal talento (visão de jogo).
O jogador, em campo, é uma «construção» conjunta dele com o treinador. Técnica + talento = táctica individual. Depois, em cada lance, «jogar» bem (em vez de trabalhar bem). Não basta evitar problemas. Os melhores jogadores são aqueles que vão mais longe. São os que dão soluções. À equipa (e ao jogo).

 

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