1. O mito do bom balneário
É comum o jogador, por vezes, imaginar-se rodeado de inimigos, sejam eles os adversários, a imprensa, os adeptos, os árbitros… Até aqui tudo isto, apesar de desgastante, não é dramático. Tudo se complica quando nessa casa de fantasmas também começa a ver o seu próprio treinador. Este início de época tem dado alguns casos. Quique manda embora Cardozo do treino ou o enigma Paulo Bento-Vukcevic, que, claro, mora para lá da opção técnica. É bom que o adepto saiba que o jogador tem a sua personalidade mas raramente o jogador dito normal sai a ganhar de um processo desses. Pode parecer cruel mas todos eles como que perdem a presunção de inocência até demonstrarem o contrario. E, sem jogar, ficam sem argumentos válidos para o fazer.
O bom balneário é um mito. O choque de egos, aumentado nos grandes clubes, nunca o permite. Existirá, sim, um bom pacto. Ao ser permeável a todos os sons e luzes do exterior, o jogador é como se jogasse na berma de um precipício, cheio de tonturas. Conseguir esse pacto de balneário é a primeira grande missão do treinador.
2. As ondas do Restelo
Duas jornadas apenas no campeonato, a época ainda no começo e o treinador já mal consegue respirar com a contestação. Casimiro Mior já não consegue levantar-se do banco no Restelo sem ser contestado. Na mente dos adeptos ainda está o bom futebol praticado pela equipa nas últimas épocas, pensam a par do fantasma de Jesus, e não aceitam que tudo isso se tenha transformado num jogo triste e sem dinâmica. A equipa foi montada com um saco de jogadores brasileiros -doze- mas saiu o craque goleador, Weldon. Pelo meio, ainda com o aroma do bom jogo, resistem Silas e Zé Pedro. Custa entender o porquê das coisas terem deixado de fazer sentido no Belenenses. Um orçamento de 8 milhões de euros não rima com nada disto.
Buscando soluções para o futuro, a palavra mais repetida por Casemiro Mior tem sido adaptação. À maior velocidade europeia, mais em força, as novas tácticas, espaços. Se isso faz sentido para um jogador ou outro, custa entender um projecto que comece com esta ideia aplicada ao funcionamento de todos os sectores da equipa.
3. Como construir uma equipa
Desde sempre, uma das frases mais pacificasno futebol é que “as equipas fazem-se de trás para a frente”. Com isto, pretende dizer-se que a prioridade é a segurança defensiva. Criar os pilares, a terra firme, que a equipa vai pisar no jogo. É preciso, porém, entender o significado de processo defensivo. Ele não se esgota em escolher defesas. Ele estende-se a todo o comportamento (posicionamento e movimentos) da equipa. Onde isso é mais importante, e, por isso, mais se espelha na equipa, é na cultura táctica dos médios.
Isto não implica imaginar que a equipa vá passar a maior parte do jogo sem a bola. Implica antes imaginar que a bola deve ser solta rapidamente para um espaço vazio, que o timing de posse nunca deve ser confundido com o risco de conduzir a bola em posse (expondo-se assim ao erro) no nosso meio-campo, e, por fim, fazer especialidade da equipa uma rápida capacidade de reposicionamento após a sua perda. Neste contexto, a equipa até pode começar a ser construída da frente para trás e manter o mesmo principio de pilar defensivo.