1. O central atrás do avançado
Definir como se deve comportar a nossa defensa depende muito de como joga o adversário. Se este, por exemplo, joga com dois pontas-de-lança que se movem perto dos centrais, é importante que, nesse caso, os laterais joguem mais por dentro, isto é, saibam dobrar em zonas interiores. Contra só um ponta-de-lança, é mais fácil usar, nos centrais, a marcação zonal e soltar os laterais mais por fora, para dar profundidade ao flanco desde trás. O pivot defensivo pode então jogar mais subido (sem nunca ser terceiro central). São diferentes dinâmicas (diferentes estratégias) que se pode dar ao sector em função das especificidades do jogo. Um facto, porém, é imutável para fazer a diferença e penso nisso vendo jogar Pepe. Porque são raros jogadores como ele no futebol mundial. Um central que é mais rápido dos que os avançados. Assim, já não se receia jogar no um para um e fazer subir a linha defensiva, porque, depois, tem tempo para ir buscar as bolas que lhe caiam nas costas nos espaços vazios. A velocidade como princípio de permissão para um jogar mais arriscado. Como permite Pepe.
2. Ser ou não ser: eis a questão
De todas as explicações que já li ou ouvi vinda de um jogador de futebol para tentar explicar o porquê de ter melhorado tanto o seu jogo de uma época para a outra, a melhor foi vinda de um antigo futebolista colombiano dos anos 80, Alexis Garcia, médio criativo, que depois de dizer que a grande responsável pelo seu progresso fora o treinador, explicou a seguir o que ele tinha-lhe feito em pormenor: “foi fantástico. Deixou-me ser!”. Será estranho à primeira vista, mas, a verdade, é que, no fundo, deve ser este o grande objectivo de um treinador com qualquer jogador. Fazer com que ele, em campo, tenha condições de ser o que podem ser os pontos fortes do seu jogo e não forçá-lo a missões que vão contra a sua essência e que, no limite, podem leva-lo a…não ser ele próprio em campo. Parece simples. Fazer mais vezes as coisas que faz bem e menos vezes possíveis as que faz pior. Não faltam casos de inversão desta ordem lógica de exploração do talento. Por isso o principio de Alexis Garcia. As coisas mais difíceis são as que parecem mais fáceis. Ser ou não ser. Eis a questão.

3. A palavra mais importante
Pressão e pressing. Palavras sempre presentes no futebol actual. Mas será que a palavra pressing é hoje a mais importante na preparação ou análise do jogo de uma equipa? Nem pensar. O mais importante é, hoje como há 50 anos, ver os movimentos pós-recuperação da bola. Ou seja, a pressão sem mais é vazia de ideias. Não tem génese construtiva. Só ganha sentido em campo quando lhe está ligada uma ideia subjacente também em posse. A pressão tem de ser, na preparação (treino) como na aplicação (jogo) sempre perspectivada no colectivo, sistematizada pelo onze, e não isolada, descontextualizada da ideia de comum. Há muitas equipas que continuam sem distinguir estes graus de importância que a pressão deve ter no jogo e fazem dela o principio e o fim do seu jogar. Cada adversário pede um tipo de pressão. Mas, atenção: a pressão é sempre instrumental. Deve ser escolhida (alta, baixa ou média) em função de qual melhor favorece o desenvolvimento do jogar. Esta é que é a palavra mais importante: Jogar. Portanto, para perceber melhor, escrevam pressão com «p» pequeno e jogar com «J» grande.