1. O cabelo responde
Ouço uma entrevista com Amy Winehouse e a certa altura perguntam-lhe: “Sente que o estilo do seu cabelo lhe dá atitude?”. Não responde e deixa cair o cabelo sobre o microfone. A partir daquele momento, avisa, será ele que irá dar as respostas. Amy é uma metáfora do mundo actual. Pela força que tem e pela forma como ora a exalta, ora a destrói. Em ambos, testa os seus limites. Tudo isto submerso pela imagem. A força maior. Com o cabelo em destaque.
É estranho, mas isto leva-me a pensar em futebol. Ou melhor, em alguns jogadores de futebol. Muitos, mesmo, para quem o cabelo parece dar mais respostas do que o seu jogo. Como se lhes desse mais atitude. Madeixas, tranças e gel espetado. Mutações permanentes. Se virem a bola a rolar no meio deste jogo de imagens não se assustem. É normal. E, se reparem com atenção, ela é a melhor forma de dar respostas, cultivar uma atitude e criar um estilo. Por isso a ironia de Amy fez-me pensar em personagens futebolísticas. Para muitas, o cabelo responde. Mas, raramente tem coisas interessantes para dizer.
2. Laterais sobre «carris»
É, talvez, a posição mais cinzenta do campeonato, onde existe maior dificuldade em detectar referências de qualidade. Os defesas-laterais. No FC Porto condicionou mesmo o desenvolvimento do seu modelo de jogo. No Sporting, Abel passou a jogar sobre carris. Quanto mais vezes ataca num jogo, menos vezes surpreende.
Não é a mera opção de dar uma dinâmica mais ofensiva ou defensiva. É uma questão de cultura de posição. Mesmo num 4x4x2 onde a organização ofensiva passa muito por esses jogadores, o lateral deve atacar de forma criteriosa. Isto é, surgir como um desequilibrador vindo de trás, depois de ler o espaço vazio. Subir só para servir de apoio ou chocar com o defesa, apenas dá a este referências de marcação. Tendo em conta todos estes aspectos, Maxi Pereira, apesar das criticas e longe de ser um super-jogador, acaba por ser o melhor lateral dos três grandes. A defender tem dificuldade em perceber o timing certo de aguentar a posição ou fechar por dentro, mas a atacar sabe ler o momento para subir. O resto, já é uma questão técnica.
3. O mundo não o entende
Passam as épocas e não encontra forma de acomodar-se. Tem o que chamo um futebol de autor. Porque em cada jogo que ele entra, parece que joga outro jogo que só ele entende. No ritmo, na visão, no passe. Muitas vezes, esse seu jogo particular é mesmo melhor que o jogo global dos restantes 21 jogadores em campo mas não é possível fazer toda uma carreira numa galáxia tão distante. É o que sempre senti a ver jogar Ricardo Nascimento. Em qualquer clube, dos muitos por onde passou, até na Coreia. A qualidade de nariz no ar. Incompreendida. Mais do que o treinador ou os colegas é, em ultima instância, na hora de sair dos clubes, o mundo que não o entende. Aos 34 anos ingressa agora no Aves, na cave da II Divisão. Com a mesma postura, que começa fora dos relvados. Kevin Patterson disse um dia que “todo o mundo admira os rebeldes e ambiciona que eles alcancem algo mais nobre do que só a sua própria rebeldia”. Será uma frase grande demais para aplicar ao futebol mas acho que ela se aplica a tantos jogadores ao longo dos tempos. Este é um caso desses.