1. A raqueta e a bola
Nos courts, joga e grita como desafiando o destino. Ver jogar Michelle Brito lava a alma. É uma fuga à realidade. É outro Portugal. Um abismo entre outros tempos, no decorrer do qual mudaram os instrumentos do desporto. Sobre esse “outro tempo”, fala que “nunca joguei com uma raquete de madeira. O meu pai ainda as tem lá em casa, mas se não quero dar cabo do meu braço, o melhor é vê-las na parede. Como é nos anos 50 ou 60 podiam jogar tão bem com aqueles paus? Teriam de ser muito bons jogadores”. A dúvida de Michele fez-me recordar o mesmo que sinto quando vejo aquelas velhas bolas de couro atado por cordas, que ficavam ainda mais pesadas quando chovia, muito longe dos aerodinâmicos esféricos de hoje que no ar descrevem curvas impossíveis. Entre um pontapé de Eusébio e de Ronaldo existe um tempo e um peso enorme a separá-los. As épocas e a bola. A ideia que dá é que aquele era um mundo demasiado velho quando Eusébio era jovem. Irónico drama, o do desporto. Ténis ou futebol. Há tantas formas de “jogar bem” que todo o esforço supera o tempo.
2. A viagem «inter-galáctica»
Somos hoje espectadores de um fenómeno que tem tanto de complexo como de superficial. Um jogador de futebol de férias, craque ou pop-star, ao mesmo tempo que se negoceia uma faraónica transferência de milhões torna toda esta alucinação ainda maior. Nestes momentos, o futebol confunde-se com a ficção, mas quando desce à relva o impacto com a vida real raramente condescende com contos de fadas. Até os predestinados respondem perante esta viagem inter-galáctica.
Madrid, a cidade, a vida, o futebol espanhol, o jogo. Há um fosso enorme a separar todos estes conceitos, moldura e tentações, com o território de Manchester. No plano relvado, o desafio espanhol chega na altura certa para o futebol de Ronaldo. Tácticas, marcações e inteligência de movimentos. Mas o futebol está cheio de outros canais por onde escapa a sua vida. De complexo a superficial. Nem é preciso buscar fora do relvado. Nos grandes planos, há muitas emoções visíveis. Basta seguir o rasto. O suficiente para demonstrar qual terá razão, a sua personalidade ou o seu talento.
3. Entre o céu e a relva
É tanto o poder da imagem hoje em dia que a um jogador lhe basta um par de grandes jogadas num jogo que sobe aos satélites e distribui-se pelo mundo inteiro para chegar a um lugar que antes demorava anos. O efeito Manchester-Cissokho foi uma bomba de deflagração à distância. Naquela noite, em cada arrancada ou bola ganha, o lateral-esquerdo que poucos meses antes jogava anónimo na cave da II divisão francesa mal sabia como a roleta da sorte no casino do futebol tinha girado a seu favor e parado no número 28. No mesmo momento, num processo inverso, um super-heroi era devolvido à terra. Hulk. Faz lembrar Zidane quando respondia que não era um herói: “Heróis são os que arriscam a vida pelos outros. Um jogador de futebol é outra coisa!”. Será, numa descrição futebolística, aquele que, em campo, arrisca o seu jogo pela vida da equipa. Cissokho tem agora, em Itália, de encarar o milagre em que caiu na última semana. Um mundo tacticamente real. Cruel, mesmo. A missão é o herói não ficar, de um momento para o outro, insustentavelmente humano.