1. «Playsation» Mantorras
O efeito-Mantorras, nas bancadas e na equipa, é mais um estudo sociológoco (e psicológico) do que futebolístico. É um caso único no mundo. A sua presença, por si só, abana com a equipa, mesmo que ele esteja só a…aquecer. Basta levantar-se para as bancadas incorporarem outro estado de ânimo e transmitirem isso para dentro do campo. E a equipa reage. Depois, Mantorras salta para o relvado.
Em cada jogada que entra, por cada bola que se lhe aproxima cresce o bruáá. Cada gesto seu, porém, cativa-me tanto como perturba. Porque é quase uma viagem no tempo que leva a imaginar o que este jogador poderia ter sido (dos melhores do mundo) sem aquela terrível lesão. Incómoda ver como está condenado a jogar apenas 20/25 minutos por jogo. Mas eis que uma bola surge perto da baliza e Mantorras, dentro da área quase como dentro de um quadradinho de banda desenhada, apanha-a e remata para golo.
É impossível não gostar de Mantorras e romancear cada jogada sua. Talvez na playsation possa jogar 90 minutos. Não sei. Só para ver o que ele devia ser hoje.
2. A questão da posição 6
O Sporting tem um erro conceptual no seu início de construção que resulta do facto do seu pivot-defensivo central ser estruturalmente lento com bola, condicionando a saída de jogo fluida e com isso forçar o recuo de outro jogador, quase sempre o pivot-ofensivo, para ser ele a iniciar essa transição defesa-ataque.
Mas atenção: tal só é criticável na dinâmica do losango, onde, por principio, penso ser necessário um 6 mais rápido para sair a jogar, visto nessa estrutura ele ter então à sua frente um largo espaço de terreno livre (pois os alas abrem em posse). Se o 6 não sair rápido, força o vértice ofensivo a baixar para pegar na bola, dando tempo à reorganização defensiva adversária.
Fora do losango, este baixar de outro jogador para iniciar a saída de bola em vez do 6 é perfeitamente aceitável. Dentro do losango, prende a transição. É por isso que no actual Sporting o 4x4x2 clássico faz cada vez mais sentido para tornar natural Moutinho surgir nessa posição a sair a jogar, algo mais contra-natura no losango, onde é ala ou vértice ofensivo.
3. O segredo Nuno Assis
É agradável reencontrar velhos amigos após muito tempo e ficar a recordar histórias passadas. Às vezes penso nisso acerca de jogadores de futebol, quando após lhes perspectivar um grande futuro, deixo de ver o seu talento durante tempo demais. Quando ele reaparece, é como o resgatar de uma certa paz interior futebolística.
Nesta semana, um jogador provocou essa sensação: Nuno Assis. Pelos Três golos que marcou, pelos passes que fez, pelo que correu, jogou e fez jogar. Como médio centro puro e solto, abriu um livro do bom futebol. Gosto muito de jogadores que jogam olhos nos olhos com o jogo. Por isso, gosto de Nuno Assis. Não acho que ele seja um 10 por natureza, muito menos num grande candidato ao titulo, mas neste Vitória, com mais espaço entre-linhas quando se entra na segunda fase de construção, Assis pode ser esse jogador, mas com uma nuance: jogando mais nas costas do ponta-de-lança do que à frente do duplo-pivot recuado.
Descoberta essa diferença em campo, está descoberto o caminho para o melhor futebol de Nuno Assis. E com golos.