NOTAS 2009/10 (21)

15 de Janeiro de 2010 12:16
1. A lógica de Vandinho 2. A «posse-passe» da Académica 3. Um penalty como um livre 4. O rato
que muda

 

1.   A lógica de Vandinho
 
Raramente perde uma bola, tem um jogo interno muito forte, vertical, capacidade física para criar rupturas na estrutura adversária e, em casos concretos do jogo, apoiar por fora. São muitos quilómetros por cada jogo e todos bem percorridos. Fez a maior parte da sua carreira mais subido, como médio de transição puro, chegando à segunda linha vindo de trás, mas a forma como nesta fase (faz 32 anos esta semana) maneja todos os seus movimentos posicionais demonstram o conhecimento total da sua nova posição, como pivot. Antes parecia impossível fixar Vandinho de forma tão vincada num espaço de terreno. Hoje, parece que foi um nº6 toda a vida. De defesa a avançado, de avançado a defesa, num segundo.
Enquanto à sua frente Hugo Viana assegura a selecção de passes, Vandinho assegura o início de circulação de bola do onze. No 4x2x3x1 do Braga de Domingos, ambos parecem vitais. Guardam a posição e com isso deitam nas quatro linhas as «âncoras tácticas» que mantêm a equipa presa à relva durante 90 minutos. Um líder com os pés tácticos sempre no chão.
 
 
 
2. A «posse-passe» da Académica 
 

 

A Académica sobe na tabela mas mais do que os pontos, nota-se a evolução do nível de jogo. André Vilas Boas resgatou os princípios de futebol apoiado que fez, a época passada, o melhor onze de Domingos. A base está na organização, o factor que transformou (resolidificou) o jogo posicional do onze. Jogadores mais próximos, mais passe curto, mais posse. Perdeu rapidez a esticar o jogo em contra-ataque porque não busca, por princípio, espaços longos para o soltar. Percebeu que com isso perdia a bola mais rapidamente. Nessa evolução, Sougou está a correr menos, mas, colectivamente, está a jogar mais rápido, porque joga mais apoiado. Está mais completo.
Na lógica da organização, o jogador que, a meio-campo, mais desenha a evolução é Tiero. Não segura a bola mas passa bem e ganha em espaços curtos. Neste cruzamento velocidade-jogo, explica-se como as equipas que saibam jogar a um-dois toques são sempre mais rápidas. Isto porque o bom passe que faz a bola andar é sempre mais veloz que o simples jogador a correr.

 

 

 

 
3.   Um penalty como um livre
 
 
No final, Jesualdo falou dele como o maior problema, porque “bate bem os livres”. Ronny criou sempre perigo nesses lances. Num deles, com um centro largo, deu golo, noutro, após um canto, fez um golão, e, depois, num livre, rematou fortíssimo para grande defesa de Helton. Até que surgiu um…penalty. A mesma concentração, olhar e remate. Tudo igual, portanto. Ao ponto de ter batido o penalty da mesma forma (igual execução) que bateu um livre a 30 metros. E Helton defendeu. 
A Leiria de Vidigal está a transforma-se no maior camaleão táctico do campeonato. Na vitória em Alvalade jogou em 4x4x2 losango. Em Braga (derrota 0-2) fez em 4x1x4x1. Contra o FC Porto, surgiu em 4x2x3x1, muitas vezes 4x5x1, com os recuos de Tiago Luiz e Patrick sem bola. A equipa tem sempre largura, mas falta-lhe alguma capacidade de ter posse e circulação que, em geral, começa quando André Santos joga sozinho à frente da defesa. Com duplo-pivot (teve Marco Soares a seu lado) até pode aumentar a zona de pressão no corredor central mas perde qualidade na saída de bola.

 

 

 

4.    O rato que muda
 
Ainda na passada semana escrevia nesta mesma página sobre a origem do bom futebol. Ou melhor, sobre a posição em que ele se pode começar a desenhar no projecto táctico-exibicional de uma equipa.
Falei então no crescente protagonismo dos laterais em relação aos médios-centro que mandavam outrora de forma incontestável. Apesar dessa teoria ditada pelo futebol moderno, causa algum espanto ver como um simples defesa-lateral pode transformar tanto o jogo (ritmo e dinâmica defesa-ataque) de uma equipa como, em apenas dois jogos, João Pereira, o “rato atómico” que saiu de Braga, conseguiu fazer no onze do Sporting. Porque são coisas diferentes dizer que o jogo) a saída de bola) pode começar num lateral do que dizer que este é a principal referência da equipa para, depois, perto da área adversária, assumir construção, desequilíbrios e último passe. Não sei se é pela velocidade com que joga, o que lhe permite chegar mais rápido a quase todos os pontos do terreno, que provoca essa sensação, mas ver como João Pereira pegou pela mão a equipa do Sporting desde que nela entrou, diz muito de como ela estava orfã de referências.
Ficar agora só presa a esta, no corpo de um lateral-direito, é hoje o seu maior risco.

 

 

 

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