Notas 2009/10 (24)

4 de Fevereiro de 2010 14:52
1. O talento e o esforço 2. Os cantos «curtos» e a «zona» 3. Como começar a jogar

 

1.   O talento e o esforço
 
Há frases no futebol que me causam incómodo. Uma delas é elogiar um jogador (ou equipa) pelo «espírito de sacrifício». Nenhum outro adjectivo inverte tanto a lógica do jogo. Porque sacrifício é necessário para trabalhar numa mina. Jogar futebol é outra coisa. Esta apologia ao «sacrifício» resulta de, em geral, no jogo, os adeptos elogiarem mais depressa o esforço do que o talento. Aplaudem um jogador que corre atrás de uma bola que vai a sair pela linha de fundo e faz um carrinho inútil. Assobiam um talentoso que tenta uma ou duas fintas mas que nesses casos não saem bem. É primário e não faz sentido. Correr é um acto voluntário. Criar é um acto de inspiração. O primeiro todos podem fazer. O segundo, só alguns.
Carlos Martins tem talento a mais para não cair apenas no elogio do jogador temperamental que corre e luta até cair para o lado. Os seus golos ao Guimarães são a melhor forma de mostrar (ao publico e a si próprio) que deve jogar com mais talento do que esforço e, assim, fugir ao eterno debate que o rodeia entre génio e louco. 
 
 
 
2. Os cantos «curtos» e a «zona»
 
O debate sobre a marcação (zona ou homem) nas bolas paradas também tem outro lado. Como deve agir o adversário que marca o livre para iludir essa marcação? Sendo a zona uma forma mais avançada de marcação, também exige uma forma mais astuta de marcar essas faltas. Penso nos cantos. A bola sai, o espaço está controlado, o timing de o atacar (bola/espaço) activa-se e eis o corte. É necessário meter uma coordenada imprevisível nesta sequência.
Uma das melhores formas de iludir a zona nos cantos é marcá-los à maneira curta. Os defesas perdem por instantes as referências espaciais (porque elas mudaram com o movimento dos avançados). A primeira tentação é sair a fazer o fora-de-jogo, mas o centro faz a curva ao contrário do que faria se marcado directamente, metendo a bola nas costa dos defesas (o que no posicionamento inicial era impossível). O Guimarães fez isto no primeiro canto na Luz mas não repetiu mais. Tudo isto tem, claro, nuances. Mas, se puderem revejam esse lance para perceber a teoria dos cantos curtos como forma de iludir a zona.
 
 
 
3.   Como começar a jogar
 
A permanente mobilidade dos jogadores é a melhor forma de tirar referências de marcação aos adversários, mas só essa rotação é insuficiente se não estiver ligada com o critério da posse da bola. A Académica é das equipas com maior percentagem de posse. É um bom princípio. Seguindo o jogo em Paços de Ferreira vê-se essa intenção desde o primeiro minuto. Mas, para colocar em prática esse plano (para o tornar eficaz) falta-lhe, por vezes, outro princípio. Aquele que só os jogadores em campo lhe podem dar. E, continuando a pensar no princípio do jogar, penso no lugar do pivot. Em Paços, jogou Paulo Sérgio, feito mais pressionar do que para jogar. Antes, jogara Nuno Coelho, muito longe também da fluidez que, nesse lugar dava, a época passada, Nuno Piloto.
Sem esse bom início, é difícil depois a construção de jogo seguir os melhores caminhos, sobretudo vendo as dificuldades de Tiero (o médio mais criativo) em segurar a bola. Ou seja, os princípios não vivem sem os jogadores porque, em campo, são eles que os colocam em prática, não o treinador. 

 

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