1. Como o Braga se perdeu
É a maior pergunta: Como foi possível, no Dragão, o Braga perder, brutalmente, a sua até então quase perfeita organização defensiva? Falou-se logo de Domingos ter abdicado do seu ponta-de-lança natural (Meyong) como início da perda de identidade da equipa, mas, apesar da discutibilidade da opção, não foi a mudança de nº9 (nas transições o onze não se desequilibrou) que provocou o desmoronamento defensivo (verificado noutro momento, o da organização, onde a equipa sentiu a falta dos seus pilares). Porque os treinadores podem definir princípios mas, depois, eles não vivem, em campo, sem jogadores capazes de os colocar em prática.
Olberdam não é Vandinho (na velocidade de ir buscar adversários e bolas em largura) Filipe Oliveira não é João Pereira (na agressividade táctica de cada jogada) Paulão não é Rodriguez (no sentido posicional para fazer parecer fáceis cortes difíceis).
Perceber como a equipa vai «jogar com a emoção» no próximo jogo será a forma de perceber como vai lidar com as limitações que assaltam o onze nesta fase decisiva.
2. Paços: o trio de ataque
Será a primeira equipa dos naturais candidatos à luta pela salvação, a conseguir um lugar tranquilo na tabela. O Paços de Ferreira, hoje de Ulisses e construído no início por Paulo Sérgio, não deslumbra pela sua ideia de jogo, mas sabe defender-se dos seus defeitos com a inteligência que, neste contexto, é quase uma espécie de sexto sentido no jogo. Isto é, não se estica mais do que sente poder fazer e mantém as posições (e missões de cada jogador) inalteráveis em quase todo o jogo. A vitória sobre o Rio Ave foi o exemplo.
Em 4x3x3, o meio-campo, à frente de uma defesa posicional (apenas Baiano, na direita, se solta, enquanto o central Danielson fecha a lateral esquerda) tem uma face operária. Anunciação fixa-se a 6 e sem Olimpio assumir a saída de bola (por opção ou falta de qualidade) efectua a transição defesa-ataque metendo um passe mais longo para servir o sector mais sedutor da equipa: o trio atacante (Maykon, na esquerda, Pizzi, na direita, e William no centro). E assim, sempre com a cabeça no sítio, chega onde quer.
3. Vendo a Oliveirense
Sem ruído, a Oliveirense surge atrás do milagre da subida. O onze de Pedro Miguel coloca-se em campo como se cada jogador espeta-se uma estaca na relva. Ou seja, disciplina táctica. E este é um caso em que fará mesmo sentido falar-se em onze. Porque ele (em 4x2x3x1) é quase inalterável. A defesa segura bem as marcações (Chico Silva, lateral-esquerdo, surge nos lançamentos longos de linha lateral) e, a meio-campo, com Godinho como pivot-âncora, é Magano que liga o momento ofensivo no qual surge Ronaldo, atrás de um ponta-de-lança renascido, Cícero. Não será o grande nº9 que quiseram fazer quando surgiu no Braga, mas é curioso ver como está agora (na II Liga) muito mais jogador. Tanto a segurar a bola, como a tocar ou rematar. Da direita, parte João Pedro (que conhece Cícero desde os juniores do Braga) com visão (passe), rapidez de movimentos e execução.
Os seus jogos em casa (num batatal) são quase batalhas, mas é fora, em relvados melhores, que se percebe que esta equipa é muito mais do que luta. É, sobretudo, uma sólida ideia de jogo.