1. O «joga(do)r de qualidade»
A magia das jogadas individuais pode levar ao erro infantil da análise futebolística. No futebol, tudo depende do colectivo. Só percebendo a concepção-dinâmica global, o jogador pode perceber (e aplicar) a sua dinâmica individual. Isto é, saber o que pode e não pode (deve) fazer no jogo. Esta ideia transversal ao onze leva ao chamado entendimento mecânico/criativo, a base para um verdadeiro «jogar de qualidade». Por isso, o actual Benfica concilia, vendo-o o jogar, sensações de força colectiva com outras de traço individual. Elas, porém, nunca se dissociam na cabeça e no movimento concreto de cada jogador. Nem nos de Di Maria (a maior evolução táctico-técnica da era Jesus) ou Carlos Martins.
Mais natural, pela sua maior sensibilidade táctico-colectiva, foi ver Ruben Amorim encaixar, num entendimento perfeito, nos seus novos sub-princípios de acção no flanco direito do 4x1x3x2. Esta cultura de equilíbrio coexiste com a cultura de risco, porque tem sempre subjacente o edifício da organização. É o padrão de conexão dos princípios de jogo.
2. O «limbo» táctico
Antes de solidificar a organização de jogo, estudar a sua organização. O Sporting melhorou esses índices embora continue num limbo entre dois sistemas (4x2x3x1 ou 4x1x3x2). Eis o dilema: em 4x1x3x2 ataca melhor quando a bola entra nos últimos 25/30 metros, Liedson tem outro avançado por perto, os movimentos combinados são mais eficazes. Em 4x2x3x1 sai a jogar melhor desde trás, pois o duplo-pivot não é defensivo mas sim de pressão e organização, dando um poder de transição que antes só um pivot (lento) não dava.
Como não tem jogadores capazes de fazer transições individuais, é natural que opte pela segunda solução, pois de outra forma dificilmente chegaria com consistência a zonas mais avançadas. Assim, ponderando os dois sistemas, o pêndulo tende para o 4x2x3x1 de forma a resolver o…primeiro problema (talvez o maior). Fica o segundo em aberto. É então que o jogo, mais do que na táctica colectiva, fica nos pés da táctica…individual (leia-se velocidade de Djaló, classe e…vontade de Izmailov) para a bola chegar, limpa, até Liedson.
3. Os «níveis» do Braga
Órfão do coração táctico Vandinho, Domingos já experimentou quatro soluções diferentes nessa posição (primeiro pivot recuado). Hugo Viana, Felipe Oliveira, Olberdam, Madrid. A grande questão não está no valor deles, mas sim nas suas características (que dão ao jogo), muito diferentes daquelas que Vandinho tinha (e dava ao jogo). Por isso, nenhum o faz esquecer. Por isso, o funcionamento táctico da equipa sentiu um profundo abalo cardíaco. Perdeu posicionamento e balanço certo de transição e saída de bola no corredor central à frente da defesa. Não definindo bem como se começa a jogar dificilmente, depois, se joga bem mais à frente.
Nos espaços adiantados, ganhou um novo problema de interacção: Mossoró e Luis Aguiar a jogar juntos. A primeira consequência é um deles ir progressivamente desaparecendo do jogo. O natural é ser o que, com essa junção, é mais obrigado a fugir dos seus espaços e movimentações mais rotinadas: Mossoró. A cultura organizacional raramente resiste a tantas mudanças nas ordens específicas antes solidificadas.