1. O jogador “convergente”
Quando, muitas vezes, se diz que um jogador fez uma grande exibição, nem sempre se consegue depois especificar bem o porquê dessa sensação. Recorda-se algumas boas jogadas, mas, em rigor, não é isso que faz a tal boa exibição. Na Supertaça, Varela transmitiu essa sensação. E fez, de facto, belas jogadas. Na condução de bola e decisão do que fazer com ela, no passe (fantástico para o 2-0), no arranque para cima do espaço forçando a falta do defesa (como a que arrancou a Luisão, com amarelo).
Tudo isto, porém, é, em análise mais profunda, um plano de convergência entre dois componentes futebolísticos: primeiro, de execução (capacidade técnica de controlo de bola, em temporização ou progressão, e precisão de passe). É, neste caso, uma questão de técnica pura. Segundo, de decisão (perceber a melhor opção a tomar e o momento certo para decidir/executar). É, neste caso, uma questão essencialmente táctica. Ao fazer convergir, no jogo, estes dois componentes, nasce a boa exibição. Como a de Varela, um jogador técnica e tacticamente convergente.
2. Visão (longa) de jogo
Fala-se muito em «visão de jogo» para classificar a qualidade táctica de um jogador. Significa capacidade de «ler» o que se passa em seu redor, movimentações, e agir em conformidade, dando soluções ao jogo. Há, porém, uma particularidade que, nesse conceito, raramente é analisada. É a chamada amplitude de visão.
Porque, naturalmente, o jogador vê mais facilmente as zonas mais próximas do que as mais distantes. Ou seja, vê a zona onde o jogo se concentra naquele momento, mas tem dificuldade em ver as…futuras zonas de jogo. O jogador com verdadeira grande visão de jogo é aquele que vê a zona futura de actuação do jogo. Entra aqui, no plano técnico, a capacidade de passe longo em vez de só a de passe curto. O actual Benfica necessita de aumentar essa visão periférica de jogo essencialmente por parte dos seus médios. Olhar menos para a bola e mais para o(s) espaço(s). Como o pivot é essencialmente posicional e de passe curto, esta reflexão aplica-se sobretudo à necessidade de Aimar e Carlos Martins aparecerem mais (com maior amplitude) no jogo.
3. A bola ou a equipa?
O FC Porto procura ter a bola, circular jogo e descansar com ela. Sem a pressa das transições rápidas. É uma questão de filosofia do seu treinador que marca a diferença com o seu antecessor. Mas, nesta intenção de criar um estilo de jogo, o que é mais importante: a bola ou a equipa?
A questão faz sentido porque «ter a bola» é, por definição, apenas um objectivo parcial no jogo. Isto é, quando se fala que mais importante do que a «quantidade da posse» é a «qualidade da posse», esquece-se o fundamental que deve procurar uma equipa: meter qualidade na quantidade. É mais difícil fazer o inverso, porque algumas noções de qualidade podem não permitir nem pressupor (pela velocidade que se quiser meter no jogo) a intenção da quantidade. Por exemplo: não interessa chegar à área muitas vezes sem saber depois o que fazer. Nessa altura, crê-se que é a equipa que chegou à área mas, em rigor, quem lá chegou foi apenas a…bola. E os efeitos práticos são reduzidos. Portanto: a bola não pensa. Quem pensa é a equipa. Logo, é a equipa, o mais importante.