1. Meia-posição, “meio-jogador”
Fala-se na questão David Luiz como base para a derrota encarnada no Porto. Não é bem assim. Jesus afirma mesmo que “ofensivamente nada mudamos”. Apenas uma troca posicional, Saviola por Aimar. Só esta alteração, porém, muda o processo ofensivo na sua última fase de definição, isto porque jogadores com características diferentes implicam (mesmo com iguais ordem tácticas) diferentes movimentos e abordagem dos mesmos lances. A posição híbrida de Carlos Martins também provoca essa reflexão.
Em campo, o jogador deve defender e atacar, ocupar diferentes espaços, estar nos diferentes momentos do jogo, mas o que não pode ser é duas coisas, dois jogadores diferentes, no mesmo jogo.
Penso nisso ao ver Aimar e Martins no Dragão. Aimar, meio-avançado (perto de Kardec) meio-nº10, termina, no jogo global, sendo…meio-jogador. Carlos Martins meio-pivot (perto de Javi Garcia) meio médio-ofensivo, também acabou… meio-jogador. Os jogadores (e equipas) tacticamente mais fortes são aquelas que, em campo, vivem com mais certezas do que dúvidas onde devem estar e o que devem fazer.
2. FC Porto: saída e construção
O FC Porto faz saída curta pelos centrais, abrindo-os em largura, baixando o pivot para o meio deles e projectando os laterais. O chamado campo grande é feito a partir da linha defensiva. Nota-se na forma confortável como os jogadores têm a bola mesmo sem serem tecnicamente fabulosos. O meio-campo não entra nisso (campo grande na saída de bola) por definição. Quando a bola entra nos médios (Moutinho, Fernando ou Guarín) em posição de primeira linha (isto é, em espaços recuados) sai em construção curta. Desde a pré-época criou estes automatismos. É cultura táctica colectiva.
É uma forma de jogar (ou melhor, de começar a jogar) que ameaça logo a partir da construção curta. Mesmo em 4x3x3 não é uma equipa que (ao contrário do que ditaria mais naturalmente o sistema) tenha a obsessão por pressionar alto, mas antes por pressionar no momento certo, quando a equipa adversária sobe alguns metros no terreno, e, então, essa pressão surge quando ela menos espera. São mecanismos de saída e construção que, depois, também têm mecanismos de…defesa.
3. O “casting” táctico
O Benfica ainda procura os melhores jogadores para a segunda linha do meio-campo. O problema está na ala. Com Coentrão, detecta-se um extremo, mas o início de construção da equipa não passava por ai. O que mais me intriga é imaginar que jogadores diferentes (com características diferentes) podem dar a mesma forma de jogar. Porque se joga Gaitán, dá uma coisa ao jogo, mete-se Jara e dá outra, entra Amorim e é outra coisa…. Cada um leva o jogo para patamares diferentes.
Será abusivo recordar a verticalidade longa de Di Maria, mas vê-se Gaitán é vê-se que, apesar de bom jogador, é diferente em tudo. Quer mais bola no pé, não é dinâmico/explosivo por natureza, tem um raio de acção limitado. Cria pequenos ângulos de penetração, sabe receber a bola e levá-la até próximo da área, mas não é jogador de ruptura.
Quando as dinâmicas pretendidas não surgem, o treinador tem de provocar a mudança. Não tem de ser, necessariamente, uma mudança de sistema, mas antes de adequação dos jogadores aos princípios de jogo (movimentos base) que lhe são pedidos.
4. Cinco golos depois
Dez pontos e cinco golos depois, Jesus já não é o mesmo treinador aos olhos da crítica encarnada. Não faz sentido. Nos “dez pontos” existirão alguns fundamentos para isso mas, nos “cinco golos”, a critica terá de ser específica.
Recorda-se, então, o 4-1 de Liverpool, onde David Luiz também jogou a lateral-esquerdo para travar o ataque inglês por aquele flanco. A comparação é um bom meio para perceber a importância das tácticas em confronto com os que dizem tudo se basear na qualidade dos jogadores. É que em Liverpool jogaram Di Maria e Ramires, os dois jogadores de que tanto se lamenta a ausência esta época. A dinâmica colectiva foi, no entanto, diferente, com Aimar também a segundo avançado. Essa alteração de posicionamento é mais importante, no plano da organização, controlo e criação de jogo (no habitat natural dos mastros: centro do meio-campo ofensivo) do que a troca de defesa-esquerdo. O mais natural seria Hulk passar da mesma forma por Coentrão. A diferença estaria em que depois em vez da lentidão pesada de Sidney a ir para o corte, surgiria velocidade decisiva de David Luiz. Ou seja, mais decisivo que Coentrão por David Luiz, foi David Luiz por Sydney.
No tempo que leva na Luz (quase época e meia) Jesus teve 180 minutos no “lado lunar” da vida táctica. Dois jogos. O que mais impressiona ver esta época, é a sua postura quase introspectiva com que está no banco, de pé, quando as coisas correm mal no relvado, em contraste com a forma efusiva como saltava, grita e gesticula, sobretudo quando corre bem ou quer corrigir um posicionamento. Diria que nenhuma das duas é futebolisticamente muito saudável (nem influente no rendimento da equipa em campo). Apenas são sintomas de algo mais profundo que passa antes dos jogos e, claro, anda pela sua cabeça neste momento. Em qualquer deles, porém, é o mesmo treinador.
5. Falcao de borracha
Muito se fala no futebol no chamado gesto técnico perfeito. Aprende-se desde a formação, a melhor forma de meter o pé à bola, a posição do corpo, etc. Nessa perspectiva, então, como se pode definir aquele remate de Falcao, todo no ar, em rotação, num movimento quase de borracha, rematando de calcanhar para o ângulo mais distante da baliza encarnada, sem hipótese para Roberto. Que “gesto técnico” foi aquele? Onde se aprende? Em que idade dos escalões jovens?
Falcao é um ponta-de-lança que embora cresça à medida que a bola se aproxima da área, sabe recuar para a buscar. Quando a apanha nesses territórios longe da baliza, não costuma, porém, arrancar com ela. Procura, sobretudo, servir de apoios para os colegas (os alas) inicia as tabelas e, de repente, revira-se novamente para a área (é a velocidade deste gesto que melhor define o seu instinto goleador). Lá dentro, depois, a sua elasticidade parece aumentar. Mais do que qualquer teoria sobre a biomecânica do futebol, aquele gesto acrobata de Falcao prova que, para os grandes pontas-de-lança, os golos não se procuram…encontram-se!