1. O problema de Kléber
A primeira dificuldade para perceber a quebra do FC Porto, resulta de ver que do onze titular só mudou, de uma época para outra, um jogador, o ponta-de-lança, Falcao por Kléber. Não é, no entanto, uma simples mudança. Falcao antes de um nº9 goleador, era um... jogador. Recebia a bola e nesse momento (quando longe da zona de remate) ela ganhava vida colectiva, virava-a para um flanco, apoiava e ia para a área. Kléber não sabe fazer isso. É um jogado que corre mais, luta por ter a bola mas tem um grande problema que condiciona todo o seu jogo com a equipa: a recepção. É este o grande problema de Kléber.
A bola ia ter com Falcao e ficava domesticada para a equipa. A bola vai ter com Kléber e, se não for para rematar logo, parece um coelho selvagem que desata a correr nunca se sabe muito bem para onde. Falta-lhe cultura de recepção orientada (ainda só tem 21 anos, necessita de trabalho específico urgente nesse aspecto) mas, numa equipa de top, com as altas exigências de táctica individual do 4x3x3 mais puro, isso tem um enorme transfer colectivo.

2. Descodificando o Beira-Mar
A equipa estrutura-se bem em 4x4x2. Estende a sua organização defensiva com um pivot posicional (Nuno Coelho), fecha com os alas do losango (Zangh-Nildo) na transição. É a melhor defesa da Liga. Tem dificuldade, depois, em sair rápido em construção, sem profundidade ofensiva. É o pior ataque da Liga. Olhando as características dos seus avançados (excepto Douglas) todos são jogadores de faixa (Artur, adaptado a 10, Balboa ou Zhang). Características que pedem um 4x3x3 a atacar. É difícil, porém, fazer essa mutação. Artur consegue isso, Balboa aparece em alguns casos, Cristiano seria o ideal, mas o risco de incutir esta forma de atacar está em alterar as posições após perda da bola, algo que só a manutenção do 4x4x2 garante.
Ou seja, é possível passar do 4x4x2 para 4x3x3 a atacar. Seria impossível passar de 4x3x3 para 4x4x2 a defender, sem a equipa, nesse processo, perder as referências posicionais seguras de transição/organização defensiva que constituem a principal qualidade do seu jogo. É a encruzilhada táctica de Rui Bento em Aveiro.

2. A "linha" amarela
O Paços voltou às vitórias mas mais do que o resultado (2-0 à Académica) o jogo deu indicações tácticas mais consistentes para Luís Miguel estruturar o onze. No papel, pode parecer um mero 4x3x3, mas a verdade é que, na maior parte do tempo, o sector do meio-campo desenhou, à frente do pivot-defensivo André Leão e atrás do ponta-de-lança William, uma compacta linha de 4, quase sempre, sem bola, de perfil. Nesse 4x1x4x1, Luiz Carlos (discretamente rigoroso a ocupar espaços) e Josué (mais criativo e com visão de passe) ocupam o corredor central que se equilibra com uma espécie de tranca a meio-campo, quando os dois alas recuam e ficam os quatro alinhados. Depois, em posse, surge o tal 4x3x3 (quase um sub-sistema para atacar) libertando Melgarejo, em rupturas com bola encarando adversários, e, sobretudo, Manuel José, vertical sobre a faixa direita, como um extremo puro, soltando depois a sua excelente capacidade de cruzamento.
Um jogar com diferentes posicionamentos (e velocidades) que protege melhor a equipa.