Notas 2010/11 (24)

11 de Fevereiro de 2011 14:36
1. “Contra-estratégia” e estratégia 2. Alan, futebol sem “GPS” 3. Pitbull e jogo sobre “carris”

 

1.   “Contra-estratégia” e estratégia
 
Será a forma mais complexa de preparar um jogo. Pensar nele a partir de uma contra-estratégia (travar pontos fortes específicos do adversário) e impedir que isso ao mesmo tempo retire auto-determinação de jogo à própria equipa (isto é, a sua estratégia independente do adversário). Jesus fez esse exercício no Dragão duas vezes esta época. Num, caiu com estrondo. Noutro, venceu claramente.
A diferença (para além das ausências portistas) foi a capacidade de unir contra-estratégia e estratégia. Em ambos, um jogador em cheque: Belluschi. Correu solto no primeiro jogo, furando pela meia-direita. Não teve espaço no segundo, marcado em antecipação zonal por um jogador especificamente deslocado para aquela posição (César Peixoto) convertendo as coordenadas da habitual estrutura de jogo encarnada quase para um duplo-pivot. Sem alterar a identidade táctica, adaptou-a ao jogo específico, sem perder, com bola, as bases da sua mecanização habitual. Dias depois, em Setúbal, voltou, calmamente, ao seu jogo mais natural, sem acentuadas nuances estratégias.
 
 
 
 
 
2.   Alan, futebol sem “GPS”
 
 
Não são verdades absolutas, mas no futebol são sensações que se cimentam com os anos. Por exemplo, que é mais fácil adaptar um lateral canhoto à direita, do que um destro à esquerda. Existem muitas outras ideias. Uma delas centra-se na relação do jogador entre as faixas e as zonas centrais. Penso nisso ao ver, no Braga, a tentativa de passar Alan de ala para médio-ofensivo no centro, atrás do ponta-de-lança.
Para além das características concretas deste caso (o facto de Alan não ter cultura para ser um temporizador de construção que a seguir faz um passe para um colega, mas antes um temporizador que faz simulações para a seguir arrancar ele próprio em ruptura, afasta-o desde logo dessa equação) penso que no geral é mais natural trocar um jogador central para a ala, do que puxar um ala para zonas centrais. Porque este segundo caso exige muito mais do que a natureza do jogo (o seu lado físico mais selvagem). Exige dominar os conceitos de jogo de forma mais evoluída (o seu lado cerebral mais pensado). Alan é o oposto desse tipo de jogador.
 
 
 
 
 
3.   Pitbull e jogo sobre “carris”
 
Sempre que chega aos jogos com as chamadas equipas grandes, Manuel Fernandes tem a tendência de inventar mais um defesa ou um trinco, procurando aumentar a dimensão física da muralha defensiva. Fez contra o FC Porto e Benfica, e assim François fez os seus dois únicos jogos a titular no campeonato. Mais do que defender melhor, a equipa tapa melhor as portas de entrada para a sua área.
No outro extremo, o outro pensamento da equipa, o ofensivo, vive numa galáxia muito distante. A união (transição) entre esses dois sectores é feita sobre carris pelos laterais velozes ou fortes (Miguelito-Ney). Mais do que condução de bola, eles (sobretudo o pujante Ney) transportam a bola. O meio-campo esvazia-se nesse processo. Percebe-se que Neca ou Hugo Leal querem segurar um pouco mais a bola, mas o plano de jogo estabelecido pede-lhe que mais do que pensar, eles corram. No meio de tudo isto, surge, como uma ironia, Pitbull. Recua, pega na bola e parece que toda a equipa pára para o ver jogar. O que ele vai inventar? É quase como o ET do onze.

 

 

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