1. Pare, escute e… jogue
Um jogador que gosto bastante de ver jogar é Mateus do Nacional. É algo parecido com Paulo César do Braga, talvez mais vertical a ir para a área, enquanto Paulo César temporiza melhor, indo para dentro para passar. Nenhum é jogador de grandes diagonais. Mateus tem velocidade, mas às vezes leva longe demais o seu esforço. Não o vejo como extremo num 4x3x3, mas sim como ala profundo de um 4x2x3x1 sobre a direito (condução com o pé direito e depois mete a bola na área). Na esquerda, perde verticalidade. Também pode descair na ala em 4x4x2, mas preferencialmente não é um avançado para jogar solto na dupla atacante.
Pode, à primeira vista, parecer um jogador igual a tantos outros, mas penso que não. Porque Mateus tem o controlo dos ritmos de jogo. Encara o um-para-um metendo a bola metida no espaço curto, com arranque seco, sempre com grande serenidade. Ou seja não faz do contra-ataque uma vertigem para pensar rápido. Faz do contra-ataque um gesto pensado de organização ofensiva. Nunca de transição, algo que o bom contra-ataque nunca é.
2. Dinâmica ou esforço?
Procurando bons médios, fixo-me em Rafael Miranda do Marítimo. Gosto dele (atitude e movimentação), mas há qualquer coisa que não bate certo. A ideia que dá é que quer estar em demasiados sítios ao mesmo tempo. Recuperar, sair a jogar, marcar, desmarcar. Dirão que é natural sendo médio de transição à frente do pivot num 4x3x3. Sim, mas o problema é que nessa multiplicidade de acções desgasta-se muito e, quase sempre, perde sentido posicional para fazer bem o que pensa. Nunca poderia ser pivot (sai muito de posição), mas esse dinamismo pode ser melhor aproveitado em funções que peçam essa maior versatilidade.
Tem dificuldade em conduzir em posse (sobretudo quando é obrigado a jogar com o pé esquerdo) pelo que deve soltar mais rápido e simples. O positivo é que nunca se esconde. Oferece-se para o início de transição, sobe no terreno, recua a dobrar. Devia destacar-se mais no passe (pois passa bem), mas chega a quase todas as bolas em esforço. Ou seja, processos de jogo mais simples. Coisa para se resolver com maior disciplina táctica? Talvez.
3. Questão de “vocação”
Estica facilmente o jogo na transição e lança o contra-ataque ou ataque organizado, num bloco médio-alto que nasce da defesa subida e da pressão alta dos dois médios interiores do 4x3x3. Na base táctica, um jogador diferente que ficou…diferente. Manuel Curto. Um percurso estranho. Em 2003, era avançado da selecção Sub-17, posição onde cresceu e jogou, passando depois para médio-ofensivo até ressurgir na Naval quando Mozer o lançou como pivot-defensivo. Olhando para a forma simples e adulta como agora, aos 24 anos, ocupa essa posição (jogando curto ou longo) parece que passou toda a vida nela.
Elogiar Curto pode parecer que estou a contradizer a minha tese de que a melhor evolução passa pela especialização e não pela polivalência. Não acho. Porque, no fundo, o que estou a elogiar é a descoberta da sua essência como jogador e, ao mesmo tempo, vocação posicional (especialização tardia, talvez) que o torna num pivot capaz de ver (distribuir jogo desde trás) e ocupar (subir e surgir na segunda linha) maior amplitude periférica de terreno.