1. Jogadas ensaiadas? Não.
Cada vez mais, no tal lado científico do jogo, um factor de avaliação das equipas é a detecção de jogadas ensaiadas que trazem dos treinos. O mais normal, nesse contexto, é pensar em lances de bola parada, mas onde esse laboratório também é muito ensaiado é nos movimentos coordenados de ataque organizado (princípios de jogo). Não se trata de robotizar jogadores, mas, muitas vezes, um excessivo formatar dessas jogadas (movimentos programados) podem chocar com o estilo natural mais instintivo do jogador. É o que senti, no Estoril, ao ver a mudança provocada por Liedson no jogo ofensivo leonino após o intervalo. Porque Liedson é o posto da jogada de laboratório. É o avançado protótipo da imprevisibilidade do jogo. Move-se essencialmente por instinto, não por programação treinada.
Não sei se estará aqui uma razão para os seus habituais fracos inícios de época, onde os treinadores perdem mais tempo em treinar jogadas (afinando movimentos/princípios). Quanto mais o jogo (seu laboratório) o soltar, mais Liedson (seu instinto) joga. E marca.
2. “Classe média” perdida
Vendo a exibição agradável do Limianos no Dragão saltaram à vista as boas jogadas do ala que, na esquerda, dominava bem a bola e passava, com pinta de bom jogador, por Sapunaru. Era Pedro Tiba, de 22 anos. Procuro saber quem é e vejo que já jogara na Grécia. Está agora na III Divisão nacional. Devia estar num patamar mais alto. O seu caso cruza-se, porém, com um debate mais alargado que penso deve ser feito no futebol português. É, talvez, uma das maiores causas da sua quebra de competitividade geral: a saída em massa dos jogadores ditos da classe média, para países futebolisticamente menores como Chipre, Roménia, etc.
As causas são várias. De financeiras (razão intrigante, porque muitas vezes pouco mais ganham nesses países. Basta saber só que vão receber…) às falhas de prospecção dos nossos clubes (mais virados, no moderno futebol dos empresários, para outros mercados). Os grandes craques saírem é normal. Mas a regeneração do nosso futebol (campeonatos e clubes) passa muito pela regeneração do futebolista português da chamada classe média.
3. Guarda-redes “rotativos”
É, sobretudo, uma opção moral: quando chegam os jogos da Taça, os treinadores das equipas maiores metem o guarda-redes habitualmente suplente e o titular vai para o banco. Benfica, FC Porto, Braga e Sporting. Júlio César, Beto, Artur e Hildebrand. O que é pacífico frente a equipas mais fracas, torna-se um problema mais tarde quando chegam jogos com adversários mais fortes. Então sentem a tentação de colocar o titular que acham melhor (senão não jogava todos os jogos) mas ficam face ao dilema moral de tirar o suplente no auge da prova. E, assim, em geral, ele fica na baliza. Muitos treinadores já perderam eliminatórias ou finais assim (pensem só na época passada…)
O que se devia fazer? Decidir logo desde o início. Meter o suplente nos jogos iniciais, mais fáceis, mas ficar logo definido que quando a prova avançar, entra o titular. Fazer saber isso, depende de cada um. Penso que outra opção não faz muito sentido. Porque, futebolisticamente, as questões técnicas estão à frente das morais. A razão é simples: colocar a jogar os melhores e ponto final.