1. A progressão de Souza
Será a única posição táctica do onze base portista ainda em aberto: pivot-defensivo. Com Fernando lesionado e/ou no mercado, questiona-se se Souza pode ser o upgrade construtivo a esse lugar.
Vendo-o jogar contra o Peñarol, nota-se o esforço dele para se mostrar ao jogo, mas a equipa (os colegas) não o procuram. É mais natural baixarem os interiores Moutinho e Micael para pegar na bola e sair com ela, do que ser ele a assumir esse sair a jogar. Noutro exemplo, com os centrais abertos a trocar a bola entre si, Souza não recua para o meio deles, assumindo a saída como é natural nos princípios de jogo da equipa.
Como sabe colocar-se, a equipa nunca fica desequilibrada defensivamente, mas precisa maior rapidez de processos. Respira melhor quando sobe no terreno do que quando tem a sair a jogar. Nessa altura, a equipa, pura e simplesmente, não olha para ele (até Hulk chegou a vir tirar-lhe a bola aos pés. Minuto 42). Pode crescer, claro, mas, no fim, fico com a sensação que é um problema de conquista de protagonismo dentro da própria equipa.
2. Conflito de emoções
Há jogadores que têm o estranho dom de pôr nervosos os treinadores das duas equipas e seus adeptos. À sua, porque, embora talentosos, tendem sempre a adornar demais a jogada, retardando a sua conclusão. À adversária, porque olham para ele como uma ameaça permanente capaz de sozinho mudar o jogo. Pensei nisto vendo os dribles de Kelvin, novo garoto malabarista do FC Porto, mal entrou contra o Peñarol. Como tendo sempre a dar mais importância (ou, pelo menos, prioridade na análise) ao que jogador provoca no adversário, começo por admirar Kelvin pelo traço agitador que meteu no jogo.
Aquele conflito de emoções, não é, no entanto, tacticamente saudável para nenhuma equipa. Porque o jogo não é um conjunto de jogadas isoladas. É, antes, um conjunto de jogadas relacionadas entre si. Por isso, o mais natural, muitas vezes, é aquele tipo de jogador acabar a maioria dos jogos no banco. Uma decisão tão natural como depois, no seu decorrer, quando o treinador precisar de alguém para o resolver, logo o meter em campo. Doce contradição futebolística.
3. A palavra instinto
Na passada semana, analisando o Nacional, defini Candeias como alguém que joga por instinto. A questão está em entender a palavra instinto no contexto futebolístico. A primeira tentação é relacioná-la com falta de inteligência no jogo. Nada disso. É, antes, o detectar de um traço individual na cabeça do jogador. Percebe as indicações, respeita-as, mas a sua natureza, ou melhor, a sua característica mais forte, impõe-se e, mais com intuição do que com noção de movimento colectivo, ataca muitas vezes a bola numa óptica separada do resto do jogo. Instintivamente, um jogador de…jogadas.
Talento não lhe falta (veloz e com controlo, vai embora facilmente com a bola). Imagino, porém, como tantas vezes lhe deve custar esperar que ela venha ter com ele. Senti isso no golo que marcou do FH. Acabou tudo com um belo remate e golo, mas durante o tempo que Mateus (de quem sou fã incondicional como exemplo de bom jogador técnico e pensante) levou a bola, temi que Candeias não aguentasse esperar pelo passe e fosse ele ter com a bola... instintivamente.