A “batalha” nórdica
As equipas nórdicas movimentam-se pelo relvado com passo sincronizado e expressam-se através da altura e do peso. O Rosenborg da Noruega e o Copenhague da Dinamarca, ambos no mais puro 4x4x2. É o Play-off da Champions.
O princípio de jogo ofensivo do Rosenborg confunde, nos primeiros minutos, o sistema utilizado tal a forma como os pretensos médios de origem surgem na área a disputar todas as bolas nas alturas. Repetida a jogadas várias vezes, percebe-se a ideia de meter rápidos passes longos (jogo directo puro) desde a entrada do meio-campo e, nesse momento, fazer subir dois médios para perto do ponta-de-lança Prica e, depois, lutar pelos ressaltos para rematar. Nessa tarefa, Skjelbred é o jogador mais técnico (com tentação de por a bola no chão) mas o principal mentor do estilo directo é o veterano Iversen, 33 anos, o líder da equipa.
O Copenhaga, no estilo dinamarquês, tenta contra-atacar mais com a bola na relva. Gronkjaer, já com 33 anos, converte-se de ala para avançado móvel, solto em 4x4x2 ao lado de N`Doye. É, claramente, mais equipa em termos técnico-tácticos, mas num duelo nórdico tão particular isso pode não ser uma vantagem. Perdeu 2-1, sofreu 90 minutos e acabou por marcar só quando descobriu que se podia jogar nas alturas e, num canto, Gronkjkaer esqueceu as suas típicas desmarcações e fez um golo de…cabeça. A batalha nórdica continua para a semana.
Momodou Ceesay está vivo!
Sparta Praga vs MSK Zilina. Um duelo de irmãos, entre equipas da República Checa e Eslováquia. Jogo bem disputado, mas fechado, até que, já na segunda parte, revejo um velho conhecido que me ficara na mente desde que, no ataque da Gambia, o vi num Mundial Sub-17, em 2005, fintar meia selecção brasileira e fazer um golo do outro mundo. Nome? Momodou Ceesay, 1,95m. e 86kg. Naquela altura diziam ter 16 anos! mas a sua compleição física assustadora dizia que era impossível. Não sei. A verdade é que, depois disso, pouco mais o vi. Andou pelo Westerlo belga, mas pouco jogou. Já estava a esquecê-lo quando, de repente, observando um a um os jogadores do Zilina, vejo o mesmo monstro.
Está igual, gigante, arqueado, meio desengonçado, mas perigoso e rematador. Como provou quando apanhou uma bola na área, controlou-a, inventou um espaço curto e disparou forte para o golo. Momodou Cessay está vivo e mora na Eslováquia! E tem apenas 21 anos (pensem o que quiserem sobre isso). Ele é razão mais do que suficiente para ver um jogo do Zilina!

Os primeiros heróis
A Liga dos Campeões continua mergulhada nas suas profundezas. Uma fase competitiva que permite descobrir muitas equipas (vários campeões de países da segunda linha europeia) e jogadores de qualidade que a realidade elitista dos grupos quase ignora.
Viajar hoje até à Sérvia obriga sempre a pensar na antiga Jugoslávia. É inevitável. Vendo o Partizan a receber o HJK Helsinquia, campeão finlandês, redescobre-se um nosso velho conhecido. Moreira, antigo avançado rápido e esquivo, quase extremo, que brilhou no Boavista em fins dos anos 90. No 4x4x2 do campeão sérvio,joga agora como o condutor de jogo no duplo-pivot. Petrovic é o trinco que faz o primeiro passe e depois é Moreira que recua no terreno (joga com o nº10) e pega na bola para sair a jogar, servindo dois alas muitos perigosos, Sasa Ilic (que vai sempre para dentro) e Tomic (mais vertical).
O futebol das Balcãs continua a ser um viveiro de tecnicistas. Todos sabem tratar bem a bola. Talvez seja por isso que sempre que olho para um central sérvio a sair com a bola, imagino logo que, no fundo, o que ele é verdadeiramente é… um nº10 frustrado. O temperamento que os médios revelam (Tomic e Sasa Ilic são dois exemplos perfeitos) é que muitas vezes trai tanto talento. O Partizan está no play-off (ganhou 3-0) mas dificilmente chegará à elite dos grupos.
O Helsinquia joga com a sinceridade do futebol nórdico que quando se lhe pede a análise a um jogador responde com a sua altura e peso. A relação que mantém com a bola é meramente formal. Quase sempre apenas o princípio para meter um passe longo. Joga em 4x2x3x1, mas tem um belo ponta-de-lança, forte mas também móvel. É Makela, de 27 anos (1,90m.). Já tentou a Escócia, mais precisamente o Hearts, mas não deu. Num futebol mais leve podia fazer a diferença física como nº9. Para dar outro aroma à equipa, um médio disfarçado de segundo avançado Kamara, vindo da Serra Leoa para a Finlândia há quatro anos. O seu estilo técnico é como um objecto misterioso no jogo directo finlandês. Quase o confunde.
Noutro prisma, esta fase da Champions também permite redescobrir jogadores a quem anos atrás se projectou melhores carreiras. É caso do cipriota Costantinou e do congolês Lua-Lua. Juntos no Omonia Nicósia, campeão cipriota, pressionaram 90 minutos o Salzburg, campeão austríaco que se libertou (1-1) apenas quando Zarate, o seu médio maestro argentino pegava na bola. É de facto perturbante ver este jogador jogar, tal a certeza que se tem que bastava ele ser um pouco mais rápido (é mesmo lento e parece estar sempre a dormir) para ser um craque. Não é. E, por causa disso, é apenas mais um caso do típico jogador para jogar na só antecâmara da Champions.