É quase como uma espécie de II Liga da Europa, longe dos gigantes e milhões da Champions, mas o seu nível de futebol revela muitas equipas e jogadores para seguir. 79 golos na quarta ronda e muitas ideias rabiscadas no Bloco de notas. Eis algumas:
1.Tem, no ataque, um trio mágico e forte, Quaresma-Hugo Almeida-Simão, que pode fazer levantar voo a equipa a qualquer momento, mas o cimento táctico que segura o onze em 4x3x3 está no meio-campo. É essa a principal construção de Carvalhal no seu Besiktas, procurando um estilo de futebol apoiado, mas agressivo, em início de transição, e trabalhado na segurança defensiva a partir de um central que podia jogar em qualquer grande equipa europeia, Engemen Korkmaz. No meio-campo, Aurélio é o pivot com rosto de trinco, deixando Ernst, forte, mais subido, para pressionar e ganhar bolas que soltem depois Veli Kavlak, um médio completo a recuperar e depois chegar à frente, ou Necip, menos ofensivo, mas também capaz de esticar o corredor central quando recupera a bola. Para jogarem os dois juntos (Necip-Veli), recua Ernst para pivot (saindo Aurélio). Foi o que aconteceu contra o Dinamo Kiev, ganhando, assim, o jogo através da melhor ocupação do sector onde as coisas verdadeiramente se decidem tacticamente, o meio-campo. Este Besiktas de Carvalhal tem essa base de construção táctica.
2. É a terceira via do futebol ucraniano. Para além do Shakthar e do Dinamo, a Liga Europa revela outra boa equipa, líder do seu grupo, o Metalist Kharkiv. Troca muito bem a bola e não receia em subir as suas linhas, gerida desde trás por um brasileiro, Cleyton Xavier, decidido a atacar o espaço em posse, e dinamizada no ataque por outro…brasileiro, o virtuoso e rematador Taison. Nesta babilónia de Kharkiv, surge no centro da defesa o ex-leão Torsiglieri, ficando Villagra a encher o flanco esquerdo, e o senegalês Papa Gueye, mais perto ou a trinco, ficando Juan Torres a controlar espaços no meio-campo e Edmar solto ofensivamente, seguindo de perto as movimentações de ruptura de Taison. Futebol sul-americano de expressão ucraniana.
3. Em Atenas, o Lokomotiv de Couceiro dominou o AEK, expressando os seus actuais princípios de jogo, desenhados num 4x3x3 com pressão alta, onde Zapater é o pivot, apoiado por Glushakov. Nesta maleabilidade de ser um 4x2x3x1, com laterais a fechar, sem bola, e um 4x3x3 móvel a atacar (fruto da mobilidade, entre faixa e centro, de Obina) está a base da fórmula táctica de um onze sólido a defender e criativo a atacar. Nesse papel ofensivo, destaca-se Torbinski, sobre a direita, Ignatyev, desde a esquerda, e Ibricic mais no centro. Os momentos mais sedutores saem, porém, sempre dos pés de Torbinski. Visão de jogo com técnica e finta. Vendo o jogar, fico a pensar que apenas precisava, por vezes, de aumentar um pouco de velocidade, para ser, de caras, uma boa aposta para qualquer grande europeu.
Melhor disfarce do “nº9”
Seguindo jogadores perto das balizas, registo vários caça-golos já moldados para clubes maiores:
4. Onde está um bom ponta-de-lança, ou melhor, avançado-centro, porque são, por definição e posicionamento, duas coisas diferentes (mais fixo, o primeiro, mais móvel, o segundo) é na Bélgica, no Anderlecht: Matías Suarez, argentino de 23 anos. Não gosta de ficar muito fixo entre os centrais. Se o forçarem a isso, dá-se à marcação e fica facilmente preso. O melhor é deixá-lo mover-se em largura, caindo sobretudo à direita, arrancando com a bola, embora não seja um tecnicista. Depois sim, surge no centro e remata com instinto de finalizador puro. Para isso tem primeiro de se disfarçar na faixa de falso nº9. Outro exemplo de bom nº9 móvel está no observando as estrelas, Barazite!
5. Na Escócia, continuo a perturbar ver Samaras. É dos jogadores a quem reconheço mais talento e ao mesmo tempo falta de vontade em o aproveitar, tal a forma de pantera-cor-de-rosa como anda em campo a maior parte do tempo. Por isso muitos adeptos do Celtic, devotos de lutadores, não o suportam. De repente, porém, estão aos pulos a festejar um golo ou um pormenor seu que virou o jogo. Sucedeu frente ao Rennes. Com dois passes letais, um deles de…cabeça, nas alturas, penteando com classe a bola nas alturas.
Aos 26 anos, porém, já não acredito muito numa segunda vida de Samaras num gigante europeu.
Cultura de jogo
Antes do valor que, através dos tempos, oscila no futebol de cada país, há uma cultura de jogo que deve resistir acima das circunstâncias.
6. O AZ, actual líder da Liga holandesa, é uma boa imagem dessa fidelidade à cultura laranja. Na estrutura, um 4x3x3 de princípios tradicionais com um pivot de construção, Elm, e dois interiores subidos, procurando ora largura, ora, já numa segunda linha, o centro. É nesse espaço que surge o jogador da moda na Holanda: Maher, de 18 anos, leitura de jogo procurando a bola, técnica de passe e criatividade. O único que destoa um pouco no onze, é ver o monstro físico Altidore a 9. O futebol apoiado, com mobilidade a meter a bola nas faixas e os alas ou laterais a aparecerem, pediam maior escola de movimentos avanço-recuo do nº9.
7. Onde a missão de manter viva a cultura de jogo mais sedutora tem falhado é na Áustria. Nem tem a força alemã, nem a técnica de outrora. A ideia que dá, vendo jogar as suas equipas, é que o futebol austríaco perdeu uma referência-base para se orientar. Senti isso vendo o Áustria Viena frente ao AZ. Resta a ordem táctica. Até reencontrar trilhos perdidos.