1. Pirlo e os discípulos
Cada Mundial ou Europeu da Itália é um acto táctico-dramático. Vagueando por vários sistemas, Lippi procura o equilíbrio partindo do 4x2x3x1 com duplo-pivot (Pirlo-De Rossi) e alas (Camoranesi-Di Natale). O drama aumentou com as lesões de Camoranesi e, sobretudo, Pirlo (ausente nos primeiros jogos). Sem o seu regista recuado, o gestor do ritmo e organização, a equipa perde a melhor forma de começar a pensar o jogo.
A possibilidade de passar para o 4x4x2 pode permitir a entrada na equipa de outro jogador com boa capacidade de passe (Montolivo), mantendo-se Marchisio (hoje o jogador mais criativo da equipa) no lugar 10, o lugar do trequartista de onde Lippi quer a toda a força afastar Di Natale (avançado rápido que tanto pode partir da ala como jogar solto na frente). É esta equação Di Natale junto com a ausência de Pirlo, pode, no limite, levar à mudança de sistema para o 4x4x2 (Di Natale-Gilardino, dupla atacante, Semioli descaindo na esquerda, Marchisio no meio, Pepe na direita e De Rossi, pivot). São os eternos dramas tácticos do Calcio.
2. A “lâmpada” de Iniesta
Idolatrada pelo seu jogo repleto de qualidade de passe, a Espanha está ainda em processo de afinação mecânica. Olhando a base do seu 4x1x4x1, detecta-se um pivot físico (Javi Martinez) e dois pontas-de-lança para jogos diferentes (Villa ou Llorente), mas no núcleo do meio-campo a missão é juntar três jogadores que gostam de pisar terrenos parecidos: Xavi, Iniesta e Cesc Fabrègas.
A solução segue o instinto posicional dos jogadores. Xavi um pouco mais atrás pegando a bola do pivot e saindo a jogar em posse (transição), Cesc mais adiantado, nas costas do nº9 e Iniesta descaindo para a direita (na esquerda, Silva, avançado, foge a esta linha de médios para ser mais extremo puro). Nesta altura, com Iniesta e Silva soltando-se já parece até um 4x3x3. A grande dúvida é saber a condição física de Iniesta, lesionado durante a maior parte da época. Sem ele, regressam dois alas mais puros e Jesus Navas ganha espaço no onze.
A outra equação está no centro com a sobreposição Xavi-Cesc, pois com Del Bosque, Xavi joga muito mais adiantado do que acontecia com Aragonés.
3. França: o sistema «5x5»
A França entrou em crise existencial mas a classe dos seus jogadores pode encontrar sempre uma saída. No relvado vê-se um 4x3x3 com «1x2» a meio-campo (triangulo com um pivot, Toulalan, .e dois interiores subidos, Gourcuff-Malouda). Domenech, porém, desmistificou o sistema: “É um 5x5”. A explicação é simples. São cinco jogadores defensivos (os quatro defesas mais o pivot) e cinco ofensivos (os outros médios e os três avançados, Anelka, Govou e Ribery). O futebol raramente respeita, porém, critérios iniciais tão simples.
A simplificação do jogo gaulês passa por agarrar outro critério de posse de bola a meio-campo e ligação com o ataque. Malouda é hoje (jogando por dentro) quem entende melhor o jogo colectivo, pois Gourcuff (grande classe) vive perdido ente ser um 8 ou um 10, acabando, assim, por ser uma espécie de meio-jogador durante 90 minutos. Nas alas, Ribery e Govou, demasiado verticais a procurar profundidade, jogam quase à margem da relação com as zonas interiores.
No ataque, o resto, são as luzes e sombras do temperamental Anelka.