O primeiro campeão do mundo da história, no primeiro dia do Mundial. De 1930 a 2010. Uma eternidade pelo meio. Uruguai, desde o bailado negro de Andrade até aos golos de um jogador com dentes de coelho. Luis Suarez é uma moderna fábrica de golos que tinha dois anos quando a charrua foi a última vez a um Mundial, em 90, com Tabarez treinador também no banco. De todas as selecções, é aquela com maiores dúvidas estruturais. A poucos dias do arranque, ainda hesitava se jogava com defesa a «3» (3x4x1x2) ou a «4» (4x3x1x2). Aposto no primeiro módulo. Em qualquer caso, intocável a dupla-atacante: Forlán-Suarez. Dúvida no «1», o enganche, que mora atrás deles, um vazio sentido nos últimos jogos pois, em campo, traduz o momento do último passe para os mortíferos avançados. O mais provável é que seja Nacho Gonzalez. Gostaria mais de ver Lodeiro, um pibito que brilhou no Mundial Sub-20 e respira futebol dos pés à cabeça.
Tabarez é, no entanto, um treinador sul-americano de inspiração europeia. Dele retive na única vez que falei com ele, já há alguns anos, quando conversando sobre Fucile disse-me que estava contente por ele no FC Porto jogar numa clássica defesa a «4» pois queria meter esse sistema europeu na selecção, mas na América do Sul quase todos os clubes jogavam a três com laterais a subir. São escolas (conceitos) de futebol diferentes.
A África do Sul recebe o Mundial sentindo-se capaz de tudo. Parreira não inovou nada em termos tácticos, mas deu maior cabeça à equipa. Isto é, sentido posicional mais equilibrado. Nesse atelier entra um bom meio-campo, em «2x3», o melhor sector do onze. Combina a pedra-base das transições, Letsholonyane, que avança e recua sem nunca tirar os olhos da bola, e os seus dois jogadores mais criativos, a dupla Pienaar-Tshabalala. Se Pienaar já se tornou, com o passar dos anos, um jogador mais maduro, daqueles que gosta de parar para pensar e passar, Tshabalala, que tem um nome com ritmo de batuque, faz do jogo um recital mais criativo. Aposto que a primeira finta deste Mundial vai ser sua!
A ilusão mexicana
Foi a selecção que, nos últimos jogos particulares, mais me cativou. O México de Aguirre. Tacticamente, parece um 3x4x3 que aparece e desaparece. A ilusão de óptica é feita por um dos centrais: Marquez. Quando a equipa está a defender, ele encaixa ao lado do outro central (Maza Rodriguez) e é uma linha de «4» clássica». Quando recupera a bola, é ele que inicia a transição saindo a jogar, ao mesmo tempo que os três defesas abrem a toda a largura do terreno, ficando, assim, em posse, uma linha defensiva só de «3», soltando os outros médios, Juarez-Torrado, para terrenos adiantados. Noutros casos, Marquez joga mesmo a pivot, ficando Aguilar a lateral-direito.
No ataque, Vela e Giovani dos Santos jogam nas faixas sem serem alas. Quem as ocupa a criar desequilíbrios são as subidas dos laterais (Salcido-Aguilar). Então, Vela e Giovani procuram movimentos interiores e combinações com um avançado que convêm a Europa começar a conhecer: El Chicharito Hernandez. Jogador de diagonais curtas, oportuno e com o golo no sangue. Na próxima época, vai morar em Old Trafford. De Guadalajara a Manchester é um caminho longo, mas o talento, quando existe de verdade, nunca precisa de GPS.