Dois dias com a bola rolar nos relvados sul-africanos e muitas ideias vão ficando ao ver os jogos.
Na França, apareceu Diaby. Um monstro que deu maior amplitude periférica ao meio-campo gaulês na condução de bola. Em passada larga queima-linhas com uma facilidade impressionante, mas o seu futebol é uma boa forma de entender a lógica (certa e errada) do princípio e fim de uma jogada. Ou seja, a construção e definição. Diaby constrói bem, mas, depois de chegar a zonas que assustam a defesa adversária, hesita muito (perde timing de execução) no último momento, o de definição, para fazer o passe ou o remate. É o único traço que lhe falta para ser jogador para qualquer grande equipa do mundo. Jogando ao lado de Gourcuff, que é o oposto (conduz pouco a bola mas no passe coloca-a onde quer) ainda se nota mais esse ponto final ausente em cada grande arrancada sua. É o chamado momento de definição. Mais atrás, Toulalan. Para o apreciar é necessário levar à especificidade o seu jogo. Curto em posse, mas amplo sem ela, nas compensações, matando muitas jogadas adversárias (corte/tackle) já em zonas de risco com uma limpeza táctica silenciosa.
Primeira sensação: a Coreia do Sul. Veloz, largura e profundidade, num 4x2x3x1 com muita mobilidade dos três avançados (Chung Yong Lee-Ki Hun Yeom nas faixas, Chu Toung Park mais no meio) mas sem nunca perder o rigor posicional que pára passes e desmarcações. A equipa cresceu nas últimas semanas. Uma fase importante porque mudou a estrutura (e dinâmicas) em relação ao apuramento onde jogara só com um pivot. Agora, surge com dois, o que, de início recuava demais o meio-campo (na saída de bola e zonas de pressão) pois Ki Sung Yueng ficava quase em cima de Kim Young Woo, que, por inerência, também recuava, quando ele é, claramente, o jogador mais organizador do onze. Contra a Grécia, porém, viu-se uma crescente afinação entre os dois. Solto, à frente deles, Park, que, ao contrário de Manchester, joga mais no centro, escondido como segundo avançado, para, após a construção Ki Sung Yueng-Kim Young Woo, surgir, perfeito, na… definição.
Talento e temperamento
Entra em acção uma das selecções mais emocionais do planeta. A Sérvia, onde o talento dos seus craques sempre se confundiu (e muitas vezes foi mesmo traído) com o carácter indomável. Quando joga «só» futebol, esta Sérvia pode roubar o jogo (entenda-se pegar na bola e mandar nela) a qualquer adversário. Poderá ser o 4x4x2 com maior largura do Mundial. Tem um jogador que, desde a faixa, desequilibra quer em movimentos interiores, quer dando verticalidade. Krasic. Reparem bem quando pegar na bola em velocidade. Tem uma diferença que o distingue dos demais. Nessa altura, em vez de correr atrás da bola, ele corre…com a bola. Parece a mesma coisa, mas é muito diferente.
O um bom elemento para o futuro estará na defesa: Subotic. É um central, 21 anos, com personalidade, presença física e eficácia posicional estar no sítio certo e cortar. Stankovic está, agora, mais maduro e surge sobretudo através da sua notável capacidade de passe (principalmente longo). Zigic-Pantelic são das duplas atacantes mais improváveis. Parecem não ter nada a ver um com o outro. Talvez não tenham mesmo. Quando porém encontram a forma certa de repartir a ocupação dos espaços, o golo torna-se quase uma formalidade.