Pode parecer estranho, mas é um debate comum numa equipa de futebol. É quando se pergunta se dois determinados jogadores podem jogar juntos. O enigma é maior quando em causa estão dois grandes jogadores. Em geral, o problema surge quando esses jogadores são demasiado parecidos (nas características ou no espaço que ocupam). Então, o mais normal é responder não. Não faz sentido. Penso que a solução, na maioria dos casos, está apenas em trocar uma palavra. Em vez de dizer que não podem jogar juntos, é dizer que não podem jogar…próximos. Quanto mais distantes conseguirem estar em campo (na estrutura e na dinâmica) mais evitarão a sobreposição na ocupação dos espaços que os estilos semelhantes provocariam. O caso Lampard-Gerrard na Inglaterra é um exemplo clássico desta situação. O problema é estarem os dois muito próximos, quase de perfil, em duplo-pivot. Ambos querem fazer as mesmas coisas no jogo, mas, depois, o que sucede é nenhum o conseguir fazer. Quem sofre com isso é a equipa que perde, assim, ao mesmo tempo, o ponto de equilíbrio e o condutor que sai para o jogo (a base de complementaridade exigida a essa dupla).
Sem Barry, o trinco que ficaria posicional, Capello caiu no chamado «erro infantil da selecção inglesa», juntando Lampard e Gerrard no meio, quando antes colocara um deles (Gerrard) descaído sobre um flanco dentro de um 4x4x2 clássico. O regresso de Barry pode resolver a equação, mas é perturbante ver como uma grande equipa (e dois grandes jogadores) dependem, para funcionar, de um jogador que, apesar de combativo, é, ao lado dos que se debatem, quase…banal. Sem essa âncora, no entanto, a equipa perde a noção de como começar a jogar. E, sem isso, é incapaz de, depois, em zonas mais adiantadas, ter uma eficaz posse e circulação de bola.
Não acredito, portanto, em jogadores incompatíveis por princípio. Tudo se resume, afinal, em encontrar o melhor local para comunicarem tacticamente em campo. Nem que para isso se tenha de inserir um interlocutor burocrático (Barry) no meio deles. O futuro (e sucesso) da Inglaterra de Capello depende dessa transformação.
Procurando Di Natale
Há debates futebolísticos que parecem mesmo só possíveis em Itália. O último chama-se Di Natale. Não se descobre espaço no onze para o melhor marcador da Liga italiana. Lippi hesita a fazer a equipa em 4x2x3x1, coloca Gilardino a ponta-de-lança e como quer evitar Di Natale no meio (onde, de facto, rende menos, pois é um jogador que precisa de espaço para embalar) aposta em Marschisio como médio-centro ofensivo. Nesta equação com (De Rossi-Semioli atrás no duplo-pivot) resta a Di Natale encaixar como ala-esquerdo (na direita está Pepe).
A ideologia de jogo de Lippi inclina-se mais, porém, para colocar Iaquinta (nº9 de origem) nesse espaço. É a influência da questão física na mente do mais tradicional futebol italiano. Di Natale é mais rápido com bola a fazer diagonais serpenteadas. Não tem, porém, o mesmo peso sem bola, na recuperação/pressing em bolas divididas. Qual das características pesa mais para um treinador italiano escolher um ou outro jogador. Claramente, a segunda. Por isso, as suas selecções sempre pareceram mais perigosas quando não têm a bola do que quando a recuperam.