NOTAS DO PLANETA: O «monstro» italiano

19 de Fevereiro de 2007
Silenciosamente, o monstro foi alimentado durante longos meses, longe dos olhares, num sotão escondido de Milão. Agora, sai das catacumbas tácticas transalpinas e, sem aspirar ganhar concursos de beleza, vai irromper na Europa: é o Inter, o monstro de Mancini que sonha ganhar a Champions. + Romário, 1000 golos; Zigic & Munitis SA; David George Best Cotterill
Regressa a Champions e os gigantes libertam-se da prisão das Ligas locais. Buscando favoritos, há uma equipa que parece quase esquecida. O Inter. Em silêncio, o monstro foi crescendo, alimentado pelo cinismo táctico de Mancini. Tranquilo, devorou o Scudetto e agora, quando sair da catacumba transalpina, pode fazer tremer qualquer relvado. Como um monstro que se preze, não ambiciona ganhar concursos de beleza, mas para entenderem a sua dimensão, pensem em Materazzi nas alturas, com a cabeça e os cotovelos, na força de Vieira, nos arranques de Stankovic, os centros de Figo, na pujança de Ibrahimovic, Adriano e Crespo. Juntos, podem dar ao jogo um peso insuportável para um adversário até mais sedutor, mas vulnerável para aguentar o embate táctico-físico. Primeiro palco para ver o monstro: contra o Valência.

Romário, Projecto-Mil golos

Foi um dos melhores jogadores do mundo. Assim mesmo, foi, no passado. Aos 41 anos insiste continuar a jogar. Este é, porém, outro Romário. A obsessão de chegar aos 1000 golos ameaça pairar como uma sombra sob toda a sua fantástica carreira. Não duvido que vai chegar lá. Parece um daqueles records absurdos do Guiness. Em busca dele já andou este ano pela Austrália e até Miami. Faltam apenas dez para a marca. Consegui-lo no Vasco da Gama pode dar-lhe maior dignidade. No estilo blazé que o tornou famoso, sempre divorciado da figura de atleta. O tesouro do seu futebol é, no entanto, muito superior à simples marca do milésimo golo. Qualquer momento de perfeição já tem, mesmo inconscientemente, a palavra fim inserida. Nesse contexto, Romário já devia ter parado há alguns anos. Por volta dos 800, talvez.

Zigic e Munitis, SA

Quando se fala em jogar bem, lembro logo as pequenas sociedades que, em campo, se estabelecem entre jogadores que habitam os mesmos espaços. A dupla atacante, por exemplo. Um mais possante, outro mais esquivo. Em Santander, um gigante, Zigic, 2,02m. e um baixote, Munitis, 1,67m. Enquanto Zigic joga como torre entre os defesas, Munitis joga no espaço vazios. Zé Castro e Pablo, centrais do At.Madrid entendem a ídeia, até que, ao minuto 72, a bola cai na área e a ordem inverte-se. É o baixote Munitis que a ataca primeiro. Ágil, levanta a perna, chega onde parecia impossível e faz o passe, perfeito, para o centro, surgindo Zigic a rematar rente à relva. Golo. Uma inversão de papeis que provou a agilidade da sociedade Zigic-Munitis, o gigante e o baixote SA. Procurem-na nos relvados espanhóis.

COTTERILL GEORGE BEST

É comum, nas boas famílias, os pais colocarem nomes de craques aos filhos. É um bom costume, diga-se. Inglaterra é um país de mitos. Embora comece quase sempre no banco, há no Wigan um jogador que quando entra cria um suspense especial: Cotterill. Não só porque é daqueles extremos rápidos que assusta quando, com maiores espaços, entra com os defesas já cansados, mas sobretudo quando se repara no nome todo: David George Best Cotterill. No pátio da escola deve ter sido engraçado ter um nome destes mas, depois, não é fácil crescer com esse peso. É galês e tem 19 anos. A linha que separa a imitação da identificação é demasiado grande para se unir com apenas um nome, mas a ideia de bom futebol também funciona pelo instinto. É a sensação com que dá vendo-o jogar. Experimente num próximo jogo do Wigan.

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